A peça
P: Você me diria que o mundo hoje vive uma peça de teatro dramática, engraçada, excitante ou desprezível de tão miserável?
R: Não só hoje, mas desde sempre, o mundo tem sido uma peça incrível, mas muito mal produzida. As maquiagens são ruins, é aparente. Os atores raramente sabem seus diálogos, suas marcações de cena ou como contracenar apropriadamente com os demais. Os diretores estão perdidos, não sabem o que fazer com tanta gente ou como usar os cenários da forma mais apropriada. Os assistentes de palco só fazem correr de um lado pro outro, tantas e tão diversas são as ordens que recebem, e os figurantes só ficam parados no meio do caminho, nunca sabendo se devem fingir que estão conversando tranqüilamente ou se na realidade estão no meio de uma cena de ação. A orquestra não consegue se harmonizar, visto que o maestro está constantemente em busca das partituras, e os dançarinos dançam cada um a sua própria dança absurda, rodopiando em torno de seus próprios umbigos. As cortinas fecham e as cortinas abrem sem motivos aparentes. E até aqueles que decidem ser só os espectadores, que pagam, com a própria cara, pra ver, estão todos um tanto robóticos, insensíveis, e um quê catatônicos com tanta coisa que acontece ao mesmo tempo, e alguns até mesmo envergonhados com a bagunça que ofende da pior forma possível a grandeza e a beleza do roteiro (que, aliás, ninguém sabe ao certo onde foi parar). Alguns tentam rezar pela ordem, gerando um crescente burburinho na platéia, e os que estão tentando dormir para fazer passar o tempo reclamam. Outros estão desesperados para subir no palco, estapear os atores e desempenhar seus papéis no lugar deles, mas simplesmente não podem. Os mais ambiciosos querem ser diretores e querem ser escritores, mas não podem competir com a arrogância e a impassibilidade dos atuais. Lá fora, também, há um ensaio de caos. As pessoas que chegaram atrasadas e não puderam entrar compram briga com os desistentes, que vão saindo com olheiras fundas. E há os transeuntes, é claro, os que nunca sequer tiveram a intenção de entrar no teatro. Ou porque acham desnecessário ou porque acham caro demais. Esses andam tranqüilos, sem motivos nem necessidade de motivos. Simplesmente em paz.
Originalmente no meu formspring.
Ler mais(Re)nasci(m)en(t)(o)
Ontem sonhei que morria, e que alguns segundos antes disso essa verdade já me era conhecida. Isso porque morrer era como ser enfiado à força num túnel escuro e então trancado ali dentro, e eu podia ver as portas se abrindo. Depois havia uma luz e também havia algo que me empurrava em sua direção (meus pensamentos ecoavam nas paredes — eu dizia “estou morrendo, estou morrendo”, mas ao mesmo tempo eu compreendia que morrer nada mais é do que passar a outra vida, como numa outra versão do universo.) E, enquanto eu ia chegando mais próximo do fim do túnel, sentia invadir-me toda uma nova consciência (e atravessar-me uma tristeza avassaladora, um instante que continha um mundo de saudade e decepção) que me ensinava que era de um útero que eu estava saindo. E então, enquanto minhas últimas memórias saíam de mim, e com elas misteriosamente as tristezas iam sendo expulsas também, a luz ficou mais forte e foi como se me agredisse. Testemunhá-la doía. Era uma dor que me libertava.
Acordei chorando.
Buá, buá, buá.
Ler maisFutebol e masculinidade
Ontem de madrugada, enquanto me preparava para dormir, decidi ligar a televisão. Diferentemente de todas as outras vezes, decidi não tirar do canal que meu avô estivera assistindo na Sky antes de ir dormir, que era o SporTV2, na esperança de que ele catalizasse o historicamente difícil processo que é aquele em que o sono tenta tomar conta de mim. Para a minha surpresa, o efeito foi contrário: acabei vendo as filmagens que registraram o ônibus do Corínthians (que levava os membros do time ao treino) sendo apedrejado por sujeitos que vestiam a camiseta da torcida organizada do Corínthians e fiquei horrorizado. E o problema é que, por mais que eu gostaria de dizer que fiquei sem entender, eu entendi. Tudo fez um infeliz e deprimente sentido.
É que a derrota do Corínthians para aquele time que até então, em termos práticos, sequer existia, foi especialmente vergonhosa para os seus torcedores. O que o Brasil acompanhou não foi simplesmente um time perdendo, mas toda a honra dos corintianos descendo pelo ralo enquanto os torcedores dos demais times brasileiros faziam piadinhas e eles não sabiam — e nem tinham — como se defender. Os corintianos foram humilhados, e experimentaram um tipo diferente de bullying, apesar de ter o mesmo gosto amargo. E é claro que não gostaram.
Não quero cometer o erro de generalizar, porque realmente não acho que as atitudes desses “torcedores” que apedrejaram o ônibus refletiram a vontade de todos os torcedores do Corínthians, mas acho alarmante que isso sequer tenha acontecido. Esse caso extremo mostra (através de uma senhora lente de aumento) que há algo de extremamente errado nessa história toda. O sentido do torcer foi esquecido ou deturpado.
No Brasil, o futebol é uma expressão da masculinidade — afinal, quem não gosta é veado, certo? Daí segue, naturalmente, que os próprios times são uma representação do masculino; que quando um indivíduo decide apoiar um time de futebol, também deposita nele, sem saber, a sua própria masculinidade. De fato, em campo, não são dois times que se confrontam, mas sim, simbolicamente, dois homens. Dois homens que devem ser masculinos e não deixar, de forma alguma, que o outro marque gols nele. Talvez seja por isso que é tão raro uma mulher gostar de futebol. Essas questões não a atingem. O mesmo se aplica a gays, que têm um conceito diferente do que é a masculinidade.
Quando alguém vestindo a camiseta de um time faz um gol, não é porque o gol tem o poder de sair injetando alegria nos torcedores que todos os que vestem a mesma camiseta comemoram. Não é o gol pelo gol. Nem o gol pelo placar. A felicidade deriva do acontecimento desse breve momento em que os torcedores de um time vêem o outro time (e, por extensão, todos os seus torcedores) serem indiscutivelmente humilhados por terem falhado e sido invadidos pela bola do outro no lugar onde, por definição, não deveriam ser. O grito de “gol” que se ouve nas arquibancadas, nos bares e nas salas de estar não se traduz em “meu time acaba de fazer um gol, olha que orgulho”, mas sim em “seu time acaba de tomar um gol, olha que humilhação”. O prazer não está em ver o próprio time ganhar, mas sim em ver o outro time embaixo ao invés de em cima. A torcida não é pelo time, mas contra o adversário.
O episódio do apedrejamento teve razões idênticas às razões pelas quais os gays sofrem bullying. Quando um homofóbico vê um gay expressando sua orientação sexual, ele escolhe agredi-lo ao invés de ignorá-lo porque se sente ofendido. Ver um homem agindo de um jeito diferente daquele que se espera de um homem — esse ser linear e superficial que se caracteriza simples e unicamente por ser o oposto da mulher — ofende a própria masculinidade. Trata-se de um desvio inadmissível ao que se convencionou (ou talvez seja mais acertado dizer se acostumou) ser a normalidade. Daí a violência: os xingamentos que pronunciam, os socos que desferem, as pedras que jogam, são uma punição. Um alerta de que devem se adequar. Não muito diferente de quando torcedores fanáticos apedrejam o ônibus que leva os jogadores do seu time: fazendo isso, estão se declarando insatisfeitos com a humilhação por que foram obrigados a passar enquanto a masculinidade deles era colocada em dúvida. Através desse ato bruto, grotesco e extremo buscam reafirmar a masculinidade da qual se viram destituídos por um instante, por culpa dos jogadores inadequados e incompetentes num desvio inadmissível.
E acho que é exatamente aí que a instituição do futebol perde o sentido. Essa visceralidade toda não é despertada pelo amor a um time — se fosse, os jogadores teriam sido respeitados e acolhidos; teriam recebido uma segunda chance, e mais apoio da torcida no próximo jogo. Não. A visceralidade é despertada pelo instinto da defesa da própria honra. Afinal, o que há para se amar em um time? Certamente não os jogadores que vestem a sua camisa, porque eles são passageiros, e porque aqueles que não têm um bom desempenho são vítimas de violência por parte dos próprios torcedores. Também não o técnico, porque, assim como os jogadores, técnicos sempre são substituídos. Todo o corpo administrativo associado a um time muda também. Há quem diga que é a história do time que se ama, mas não imagino que os torcedores tenham algum apreço pela tal História, porque, por exemplo, não vi história alguma sendo lembrada enquanto o Ronaldo Fenômeno era insultado — ao mesmo tempo que posso contar nos dedos os jogadores com uma história tão dourada quanto a dele. Pelas minhas contas, sobra só o nome… e o emblema. É isso que os torcedores amam. E só pelo fato de serem diferentes do nome e do emblema de dúzias de outros times. Nada mais de especial eles têm: só são singulares.
Mas, mais do que isso, o time está nos seus próprios torcedores. Não individual, mas coletivamente. Até porque alguns torcedores também transitam entre times. Tudo muda, menos o fato de que sempre há uma torcida por um mesmo nome e um mesmo emblema. De fato, quando um indivíduo escolhe para que time torcer, ele leva em conta apenas quem são as pessoas que torcem pelos times. O moleque não se importa com o número de títulos que o time do pai, do tio ou do avô ganhou, com a qualidade dos jogadores atuais, e nem leva em conta se é ou não provável que eles ganhem o campeonato. Só importa que é o time do pai, do tio ou do avô. Trata-se simplesmente de juntar-se a um grupo de pessoas pelas quais se sente afinidade, não muito diferente do processo por que todos passamos quando somos inseridos em qualquer meio social. Logo achamos aqueles com que nos identificamos e formamos com eles um grupo. Uma vez escolhido o time (uma vez firmado o grupo), a necessidade é de se provar superior ao outro. A necessidade é vestir a camiseta, ir assistir o jogo e torcer para que o time do outro seja derrotado, para que o seu próprio grupo possa triunfar sobre eles. O futebol não importa muito. Fica apenas em segundo plano. É só a desculpa para que possa haver a rivalidade. É só o rolar dos dados sobre a mesa. Nada mais.
Para mim, o torcer jamais foi o que deveria e o que, a primeira vista, parece ser. É por isso que torcidas organizadas jamais foram bem vistas. Seus desígnios são o de insultar, agredir e censurar as outras. Por trás do famigerado amor ao time geralmente está a intolerância e a pura rivalidade. Eu não acho que pode existir qualquer tipo de amor por trás de atos como esses. Acho mesmo que as pessoas deveriam começar a investigar o que significa o torcer delas. Será que elas estão torcendo do jeito certo?
Torcer, v. t. d. (…) 5. desejar a vitória, o bom êxito dos esportistas ou de indivíduo de sua simpatia.
(Minidicionário Soares Amora da língua portuguesa)
Heartfelt
Não se engane: é a minha alma que estou colocando aqui, então não diga o que não sente e nem tente escapar disso com mais um de seus comentários cômicos — as superficialidades já não fazem sentido e nem sequer cabem entre nós. Já era hora de alguém dizer isso. Você sabe que já estamos tão íntimos que isso que há entre nós não se escreveu em dicionário algum. Eu leio os seus gestos e tudo mais que há de particular em você, e qualquer olhar que você dirija a mim me coloca nu. Não importa quantas intenções você coloque em suas verdades e em suas mentiras, não importa o quão você se esforce para dizer o que não pretende, eu vejo cada um de seus pensamentos em cada uma das palavras que você modula, entona e pronuncia. Olha, é o meu coração que eu ponho sobre essa mesa, portanto preste muita atenção no que eu digo: eu não sinto mais você. O riso que você permite a mim é como feito de madeira, e seu olhar é tão frágil que jamais sustenta o meu. Faz tanto tempo que falta humanidade em nossos diálogos e em nossa dança que é como se ambos nos ausentássemos durante esses momentos e só oferecêssemos um ao outro os nossos próprios vestígios, ou quem sabe menos. Acho mesmo que fazemos mal um ao outro. Eu te impeço de ser você mesmo e não consigo ser eu mesmo se você está em meu redor. Acho que já nem me lembro de você. Quem eu amo está no passado, talvez exatamente no mesmo espaço em que ficou o garoto de quem você só guarda lembranças doces. Algumas vezes penso que amamos tanto um ao outro que conhecemos o verdadeiro limite do amor: quando não há mais espaço para que ele cresça e ele acaba se transmutando em antipatia, que é para caber, mas sem se fazer notado, que é para não ser punido. Você não acha que isso explica essas centenas de milhas que nos separam um do outro? Essa distância que, não percebendo, impomos entre nós. Sinto-me sufocado. Estagnado, eu diria. E é por isso que estou indo embora. Não vou dizer que te amo, porque não amo, mas é exatamente esse amor que eu pretendo buscar partindo. Eu acredito que ele estará em nosso reencontro, quando teremos dado tempo a todas as feridas para que se transformem em cicatriz, e depois em cicatrizes desacompanhadas de lembranças. Eu só preciso que você entenda que preciso esquecer seu rosto, sua voz e todos estes anos, pois de outra forma não haverá um recomeço para nós. Eu preciso crescer e você também: a maturidade é minha última esperança. Por favor, entenda. É o meu coração que eu deixarei aqui. Agora eu vou embora, e tudo que te deixarei será este beijo. Nada mais. Por favor, receba-o e não diga palavra. Não tente argumentar, nem grite o meu nome quando eu estiver para fechar a porta, porque é exatamente isso que cada centímetro de mim estará desejando até que eu ouça o trinco fechando e até que eu comece a descer as escadas; você sabe, tão claramente quanto eu sei, que realizar este desejo só afastaria esse momento de nós e nos faria sangrar ainda mais até que pudéssemos chegar a ele novamente, em sua dolorosa inevitabilidade. Depois de todos esses anos, tudo que eu lhe peço agora é o seu silêncio, pois qualquer coisa diferente disso me tiraria toda força que me sustentou até agora. Adeus.
Ler maisO homem (e a sua esposa)
Ontem fui a um casamento. Aconteceu numa chácara e foi todo feito de antíteses. Antes de mais nada, apague da sua mente a imagem de gente vestida com roupas simples numa chácara linda ao pôr-do-sol. Quer dizer, continue imaginando uma chácara linda. Mas o traje era formal, era noite e estava fresco. Mas não tão fresco que os garçons não passassem pingando suor enquanto sustentavam nos braços uma bandeja com três variedades de refrigerantes, uísque e champanhe, oferecendo-os aos convidados vestidos como quem se veste para ir a… bem, uma festa de casamento, mas uma festa sobre concreto. Não faltaram senhoras se desequilibrando, os seus saltos afundando na grama ou deslizando nos pedregulhos (e assinando assim suas sentenças de confinamento eterno nos guarda-roupas, desgastando-se bem mais rápido do que o esperado e o investido).
Mas como eu não uso salto e nem fui usando gravata, estava achando tudo muito lindo.
A banda tinha um violinista, e não faltaram boas vozes ou boas músicas. Durante a cerimônia, tocaram Somewhere over the rainbow, Fico assim sem você, A whole new world (música de Aladdin num casamento, cara!
), Wherever you will go e All I Ask Of You (só instrumental, linda!), e essas são só aquelas de que me lembro agora, falando assim.
E então terminaram as músicas, os noivos se posicionaram diante do pastor e o pastor abriu a boca.
Ó, as coisas que ele disse.
Como em todo casamento não-fictício, ele passou tempo demais falando. O primeiro problema foi que ele era evangélico. Veio completo com a mania chata de aumentar um pouco a voz a cada “ó, Deus” até o nível do grito, para depois se lembrar que está falando através de um microfone e voltar a uma voz artificialmente amaciada. O segundo (e mais crucial) problema foi que ele era machista.
A mensagem que ele escolheu para nos passar, em sua infinita sabedoria, foi basicamente a seguinte: o casamento é um contrato seriíssimo no qual o homem jura amar incondicionalmente a sua esposa (e, o pastor ressaltou, isso não é de modo algum uma opção dele, mas sim um dever), e a esposa jura ser submissa ao homem, que é a cabeça da família. Eu, por minha vez, juro que ele disse essas coisas com exatamente essas palavras. Depois ele tentou se explicar com essa coisa da “submissão”, e explicou inventou que submeter-se não quer dizer subjulgar-se, mas estar “sob missão” (nessa hora eu não consegui conter o riso, e me perdoem os parentes evangélicos que possam tê-lo ouvido, se tem algum de vocês lendo isso) de viver a vida perto de Deus junto ao outro. Não sei se ele convenceu alguém, porque desde a primeira vez que ele mencionou a palavra “submissa” ele perdeu pelo menos umas 15 das suas ovelhas em potencial que estavam próximas de mim (uma eu ouvi dizer: “vamos puxar uma vaia, gente?”).
Mas ouví-lo dizendo os seus machismos sustentados pela “palavra de Deus” (o que parece ser o apelido carinhoso que ele dá àquele livro cheio de baboseiras obscuras a que também se referem por “A bíblia”) me fez atentar-me a um pequeno detalhe. O tempo todo, em seu famigerado discurso, ele fazia menção aos desígnios e às razões do “homem” e da “esposa”. Em nenhum momento ele falou em “mulher” – era sempre “esposa”. E já aí se podia perceber sua visão do mundo. Em como ele enxerga as mulheres.
Veja bem, “esposa”, por definição, é um substantivo que denota a ligação matrimonial de uma mulher com um homem (vocês sabem como é, os dicionários ainda não estão cientes do casamento homossexual). Mostra que ela é casada com alguém. “Esposa” é uma palavra que só tem sentido se existe um “marido”; é uma palavra que existe em função de um homem, pois sem um homem uma esposa só pode ser “mulher”. Um “homem” que se casa com uma mulher é um “marido”, ou um “esposo”, mas em momento algum essas duas palavras foram citadas. O que quer dizer, simplesmente, que na visão do pastor uma mulher realmente vive em função do homem: vive na função de ser sua esposa. Uma mulher, para ele, não tem sentido enquanto não está ao lado de um homem, que é “a cabeça da família”. Por outro lado, o “homem” é uma variável independente. É em função dele que a “esposa” vive, em submissão. O que ele faz é de seu próprio arbítrio, e o de nenhuma outra pessoa. O homem é superior. Eva foi criada porque Adão se sentia sozinho (e, você adivinhou, estou parafraseando o pastor). E, aliás, a criação de Eva, segundo ele, é a prova de que Deus quer que nós nos casemos, e é exatamente isso que deu a ele autoridade quando criticou os casais que se divorciam, fazendo uma “análise” dos números do mundo moderno. Ele reiterou: o homem tem o dever de amar sua esposa. Não a opção.
Amém? (Vale dizer que quando ele mesmo disse isso, pouca gente respondeu amém de volta).
Mas o que eu fiquei pensando depois de tudo isso é o seguinte, e a pergunta é uma que eu queria que vocês me respondessem (daí o post), caso tenham convívio com evangélicos (pois o meu é quase nulo, por razões óbvias): será que isso é comum a todos eles? Definir o casamento como a união do “homem” e da “esposa”? O pior é que eu não vou me espantar se eu descobrir que sim.
Impasse
- Três – eu digo, com a voz mais grave e nítida quanto me é possível.
Ela não vai puxar o gatilho, essa puta, olhe para ela, mal pode deixar o cano da arma quieto em seu lugar. Ao menos eu tenho coragem por nós duas, dou os dois tiros: primeiro nela, depois em mim. Será que ela entende que se ela não puxar a droga do gatilho ela é a única que morre? E ainda morre uma pessoa injusta, como temeu a vida toda ser. Que irônico. Não está cansada, então, princesa? De toda essa hipocrisia, essa falta de atenção, de amor, desse mundo? Sujo, vão, muito mais cheio de feitos deploráveis do que louváveis. E escravo do petróleo, não nos esqueçamos. De gente imperfeita feito eu… e feito você, de certa forma. Esse mundo incongruente com a delicadeza do seu rosto e a perfeição dos seus traços; e com os seus cabelos loiros, também. Mas, principalmente, com as suas idéias e com as minhas.
- Dois – eu ecôo, tentando colocar tanta certeza em minha voz quanto ela tinha colocado na própria.
Eu vou morrer, nunca tive tanta certeza. O pacto está feito e acho até que meu vestido está um pouco sujo do meu sangue. E do dela. Ah, as frivolidades. Se vamos partir deste mundo e deixar para trás todas as suas convenções estúpidas, nada faz mais sentido do que partir dele segundo o que foi acertado em uma última convenção estúpida. E absurda, também, mas o mundo é mais. Eu sabia que ela era fria, e, céus, eu mesma sou fria, afinal nós estamos onde estamos e estamos como estamos, mas ela me excede. A voz dela não treme porque ela enxerga tudo como o cumprimento de um trato, um aperto de mão depois de fechado o negócio e assinados todos os acordos, mas dessa vez não é só. Minha nossa, nós vamos morrer. Estamos a um passo de descobrir que existe um Deus e sermos mandadas direto para o inferno, e ainda assim…
- Um – eu digo, impassível.
Tem um sorriso querendo escapar pelos meus lábios, mas eu não o deixo sair. Puxo a trava da arma e ergo uma única sobrancelha, dizendo: faça o mesmo, sim? E ela puxa tão rápido que mal posso acreditar, é quase como se as incertezas todas saíram correndo à menção do número um. Mas ainda assim eu vejo, bem ali, no canto do rosto angelical, um ensaio de cara feia. Como se ela contivesse dentro de si todo um rio de lágrimas a ponto de vencer as barragens construídas às pressas.
- Agora!
A minha própria arma fazendo um clique é a única coisa que eu ouço. É claro. O tambor gira maquinalmente e nenhuma explosão é ouvida. Nem da bala voando para a testa dela, nem do choro patético saltando de suas entranhas. De olhos arregalados e ainda assim fechados para a própria alma, que parece ter se ausentado por uns instantes, ela pisca duas vezes; o dedo sobre o gatilho continua pateticamente imóvel, como antes.
- O que… aconteceu? – eu me ouço dizer.
E não posso entender. A arma de alguma forma falhou e eu estou viva. Viva. Há uma onda voraz de formigamento se espalhando pelo meu corpo e essa é a melhor coisa que já me aconteceu. Deve ser uma espécie de injeção de alegria, porque tudo o que eu quero é rir e, espera, eu de fato estou rindo, e eu quero muito abraçá-la, beijá-la, e, ainda que eu veja seu rosto bem diante de mim, também quase posso ver o de minha mãe, a minha mãe na nossa cozinha, preparando emburrada o jantar que, ela tem certeza, ninguém vai elogiar, enquanto o sol se põe e não faz a menor diferença, já que ela já ligou todas as luzes. Mas dessa vez eu vou elogiá-la, vou voltar a ser para sempre a sua pequena menina. Ela vai ninar todos os meus anseios e a minha fúria desaparecerá. Mas, parando agora para prestar atenção, a única coisa que preenche os espaços retorcidos do porão é o meu próprio riso. Tão somente meu.
- Aconteceu que você não puxou o gatilho, querida! – eu explodo, como se estivesse ao mesmo tempo furiosa, desgostosa e surpresa. – Aconteceu que se eu não tivesse tido o cuidado de deixar vazio a porra do espaço da primeira bala, se eu não tivesse pensado em primeiro fazer um ensaio, seriam só os seus miolos espalhados pelo chão e os meus processando a imagem, seguramente organizados dentro do meu crânio. Não era bem esse o trato, era? Você ganha a morte tranqüila e eu ganho uma versão traumatizada da minha própria vida? Você reprovou no seu teste, meu bem, e só terá mais uma chance. Preste atenção.
É claro que é tudo um teatro. Eu quero chocá-la, quero aquecê-la, quero que você se dê conta da seriedade desses nossos últimos momentos para que os findemos como devemos findá-los.
- Eu… eu não quero mais – é tudo que eu consigo dizer. Olho para a arma prateada do meu pai pesando na minha mão e imediatamente repouso-a sobre o chão. Eu sinto muito, mas a única coisa que eu quero agora é a comida da minha mãe. E quero que ela brigue comigo por ter me atrasado de novo, mas só com o olhar.
Mas eu a vejo pegar a arma do chão enquanto morde nervosamente o lábio, como quem reúne forças para refrear todo um discurso que luta por liberdade, e entendo que não há outra saída. Ela estende o braço que segura a arma em minha direção. Pegue essa merda outra vez, é o que o corpo dela me diz. E não há argumento.
Já chegamos longe demais.
Eu abro a mão e recebo a arma de volta. Ela tem toda a razão. As palavras que ela não proferiu são as palavras mais sábias que eu jamais ouvi.
Ela vai morrer, como deseja, mas eu não.
Eu escolho a vida.
- Três – eu digo outra vez, saboreando o silêncio e o vazio de expressões emanando dela; admirando essa transformação incrível por que ela passou no espaço de alguns poucos segundos. O seu rosto até parece mais rústico, por um instante.
Sinto, pelo frio de seus olhos, que ela agora realmente entende a gravidade da situação. Ela vê onde é que estamos, e ela se lembra do ódio. Ela olha para mim e vê o que deveria ter visto desde o início: o capitalismo. O motivo que nos colocou aqui. Ela vai assassinar o próprio pai. Não a mim. O brilho nos seus olhos denuncia a decisão que ela só realmente fez neste exato momento. Ela não vai mais hesitar, pois ela já não é ela mesma. Eu sei.
- Dois – eu respondo, e a vejo sussurrando a palavra “dois” ao mesmo tempo que eu, mas de um jeito meio obstinado.
Eu destravo a arma.
- Quando você disser um, eu atiro. E… eu te amei. Você foi a única pessoa que eu amei.
- Eu também te amei. Obrigada por tudo – eu respondo enquanto destravo a arma, mas não sorrio. Um sorriso poderia ser a nossa perdição. Este é o nosso momento final, e a precisão não pode ser menos do que perfeita.
Eu tento aguçar os meus sentidos. Preciso ter certeza de que vou agir.
Silêncio.
Ela não diz.
- Eu digo, então, sim?
…
- Um.
Eu puxo o gatilho antes dela, mas não ouço explosão alguma. Então entendo: o espaço da primeira bala no tambor está vazio e eu me esquecera.
Eu puxo o gatilho e só depois me lembro: não havia bala alguma na agulha da arma dela.
Eu sinto como se tivesse sido atropelada e então já não sinto nada tudo escurece devagar e apesar de que eu não veja apesar de que eu nem propriamente sinta eu sei que caio para trás e eu sei que esse tempo que eu levo caindo não é de mais de um segundo mas o que está acontecendo eu posso jurar que a gravidade está demorando horas para me colocar no chão velho e poeirento desse lugar poeirento e velho oh eu sinto a poeira eu atirei mas não houve tiro como é que eu esqueci que eu não tinha balas e eu só queria abraçar a minha mãe e eu queria ser sua menininha e o problema é que estou tão atrasada para o jantar…
Eu fico em pé em um pulo, e as minhas duas mãos pulam para a minha boca, contendo o meu grito. O sangue inunda o seu rosto desfigurado e eu entendo que a Beleza se foi pois não pôde suportar tamanho horror. Fico então em silêncio, e sinto lágrimas molhando os espaços entre os meus dedos. A arma está jogada no chão, eu acho. Em algum lugar. Nós nos esquecemos! Eu me ajoelho. Nós nos esquecemos! Você puxou o gatilho, mas… eu também puxei. Eu atirei e eu fui a única. Me desculpe, por favor, me desculpe, eu… eu continuo aqui.
Meu Deus, eu continuo aqui.
Ler maisPergunta
Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.
Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.
- Filhote?
E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:
- Oi.
- Em que você tanto pensa?
Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.
- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.
- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.
- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?
E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.
A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.
Deixou-se voar.
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