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Frenosfera

Publicado dia 25 de junho de 2009

Cadáveres

Filosofia

Se quer um conselho, não leia o que vem depois do segundo ponto final. Se há algo útil nesse post, é que ele serve para mostrar que sim, eu continuo vivo.

O avião caiu e eu fiquei pensando em destino. Cheguei à conclusão de que a única coisa a que estamos todos destinados mesmo é a sermos um cadáver. Surgimos da pureza de um suposto milagre (o da vida, assim dizem) apenas para terminarmos na insignificância dessa palavra ominosa, volta e meia inspiradora de arrepios, caminhando eternamente pela inexistência tendo o completo esquecimento como apenas o primeiro estágio filosófico. Na verdade nem é essa a palavra mais adequada, cadáver. Quer dizer, acho que todo o campo lexical está incorreto. Estamos todos na verdade predispostos a essa condição final, assim supostos pelas observações empíricas que apontam para o fato de que todo ser humano (ou, numa análise mais geral, tudo que vive) eventualmente morre. Temos uma natureza tão incerta que falar do desaparecimento de cada um de nós, como indivíduos, é tão complicado como falar dos nossos surgimentos. Afinal, em que momento estaria, precisamente, aquele em que passamos a existir? Alguns diriam que passamos a existir quando saímos à luz do mundo (ou à artificialidade da luz de uma sala de cirurgia), e há outros que dirão que existimos assim que somos promovidos a feto, oito semanas após o coito. Há ainda outra linha de pensamento que defende que, naquele exato momento em que ocorre a união de um óvulo e um espermatozóide, já existimos; que surgimos da formação do embrião, e não do suspiro de agonia. Mas sejamos mais criativos. E se na verdade existimos mesmo antes disso, só que em duas existências distintas no espaço e perdidas nas probabilidades – uma nos vinte e três cromossomos de um entre os bilhões de espermatozóides dos nossos pais, uma nos vinte e três cromossomos de uma das dezenas de óvulos das nossas mães? Poderia ser essa a unidade mínima da existência? Não seria possível que cada uma dessas existências estivesse antes dividida em outras duas, ou quem sabe quatro, no tempo indivisível e no espaço (de certa forma) infinitesimal das células? E essas pequenas existências brotando de outras oito, ou quem sabe dezesseis existências engolfadas pelo tempo que, de tão dividido, nem é tempo, e num espaço em que cada átomo em seu formato e posição desempenha a mais crucial das importâncias? E, ainda antes disso, dezesseis ou trinta e duas existências originais confinadas em ainda uma outra unidade, infinitas vezes menor do que essa unidade que supostamente conhecemos, contendo, cada uma delas, outros milhares de existências, ou quem sabe universos inteiros repletos de existências? Quantas são, exatamente, as variáveis que nos definem? Quantas elas precisariam ser, matematicamente, para que nos milhares de anos em que o ser humano existe, não tenha havido nunca um indivíduo exatamente igual ao outro? E, se passar a existir é isso mesmo, o que seria exatamente morrer? O inverso? A princípio faz sentido, pois, após culminarem-se tantas existências distintas numa só, passamos anos e anos como uma só existência, aparentemente muito finita e definida. E em certo ponto definhamos, é claro, viramos uma existência puída, cada vez mais vaporosa, para depois enfim passarmos ao curioso estado (será que posso dizer assim, “estado”?) da inexistência e voltarmos à questão do cadáver. Dizem que os nossos cadáveres tecnicamente evaporam (só que, como são mais complexos que a água, são ditos como objetos de um processo mais complicado e detentor de um nome mais pomposo) e/ou são consumidos por outras existências, umas que vivem debaixo da terra, aonde geralmente vamos parar depois de uma vida cheia de glórias ou cheia de desonras, pouco importa, e aquilo que nos tornara uma vez unos (o corpo e todo o seu volume atômico) vai se repartindo entre milhões de indivíduos microscópicos que eventualmente morrerão e serão absorvidos por coisas ainda menos visíveis ou mesmo diferenciáveis. Então chegamos a algo parecido com o statu quo ante, ao início de algo novo e provavelmente diferente. Voltamos (ou será que devo dizer “volta-se”? Quem sabe “procede-se”?) às milhões de quase-existências que um dia se juntarão para formar uma nova (repito, uma), que então morrerá (ou, mais objetivamente, se redividirá) e então repetirá o processo apenas para se tornar um cadáver outra vez.

(Eu avisei e não foi à toa.)

Publicado dia 18 de abril de 2009

Anoitece

Fragmentos

Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a [...]

Publicado dia 29 de março de 2009

Gato de botas

Fragmentos

Estava escuro, mas não tão escuro que as pessoas sentadas no bar do outro lado da rua não pudessem enxergá-la. Ela sentiu o carro parar, deixou-se arquear para a frente, depois olhou para o lado. Mas bastou o olhar que (quase não) recebeu de volta para que ela soubesse que despedidas ali seriam dissonantes. Então [...]

Publicado dia 25 de março de 2009

Meia-noite

Colóquio

Então passou da meia-noite, mas cadê a diferença? O que é que mudou em mim que agora eu posso assistir àquele filme de terror que eu não podia ver há umas três semanas atrás? Passou da meia-noite e de repente eu virei dono do meu próprio nariz. Ainda que a minha mãe não realmente queira [...]

Publicado dia 2 de março de 2009

Remédio santo

Colóquio

A notícia é velha, mas o Fantástico me refrescou a memória num dia que está para atualizações.
Parece que descobriram os criminosos responsáveis pelos amores que não dão certo e pelos amores que dão, e eles estão em via de ser presos em pequenas cápsulas edíveis. Os cientistas andam dizendo que são dois hormônios chamados oxitocina [...]

Publicado dia 27 de fevereiro de 2009

O perdão

Fragmentos

O perdão não é um ato. É um fenômeno, que, por sê-lo, é involuntário, que só se desencadeia a partir daquele que necessita perdoar e que quer dizer tanto liberdade quanto leveza. Você pode dizer ou pensar que perdoa, querer ou tentar perdoar, mas você não terá perdoado enquanto o seu coração não consentir. Eu [...]

Publicado dia 12 de fevereiro de 2009

Crianças

Crônicas

Uma idéia que eu queria ter tido: anotar os meus achismos num caderno desde quando aprendi a escrever. Aí hoje eu poderia pegá-lo e ficar folheando até achar algo apropriado para contar. É que muito fica perdido, flutuando em algum lugar da memória. Achar lembranças num caderno seria muito mais fácil. Isso me renderia tantos [...]

Publicado dia 10 de fevereiro de 2009

Palpites

Aforismos

Amar é despir-se do orgulho e vestir-se de devoção. Ter paixão é ter vontade de devorar quando ninguém está vendo.

Publicado dia 9 de fevereiro de 2009

Provérbios seguem adiante

Colóquio

Os tempos progridem e se tornam outros, mas os provérbios insistem em não mudar. Eu acho que deveriam pelo menos se adaptar. Eu estou falando isso porque esse papo de spams e vírus me fez pensar no Orkut. Algumas vezes já experenciei ali o co-sentimento (me empresta por um segundo, Kundera?) da vergonha alheia. Sabe [...]

Publicado dia 7 de fevereiro de 2009

Vaga-lumes

Contos

Tudo era perturbadoramente dourado. Eu tentava fumar o meu cigarro sem me sentir estranho, mesmo sujo; um pária da natureza, do vento doce de baunilha e dos murmúrios do riacho. O pôr-do-sol me irritava, como sempre fez. A magia do ocaso é uma que eu nunca conheci. E todos na fazenda sempre o veneravam tanto! [...]

Spams e beneficência
dia 6 de fevereiro de 2009
Palitos
dia 4 de fevereiro de 2009
Febre
dia 2 de fevereiro de 2009
O caderninho
dia 29 de janeiro de 2009
A espera e uma espera
dia 18 de janeiro de 2009
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Contos

Vaga-lumes

Tudo era perturbadoramente dourado. Eu tentava fumar o meu cigarro sem me sentir estranho, mesmo sujo; um pária da natureza, do vento doce de baunilha e dos murmúrios do riacho. O pôr-do-sol me irritava, como sempre fez. A magia do ocaso é uma que eu nunca conheci. E todos na fazenda sempre o veneravam tanto! [...]

Contos

O caderninho

A coisa estranha dele era que ele sempre trazia consigo um caderninho e um lápis número 2. Isto é, desde os seus sete anos de idade, quando apanhou até desmaiar por ter colocado uma vela próxima de uma cortina. Mas nem eram ainda esses seus dois inseparáveis companheiros os responsáveis pela estranheza que o tornou [...]

Crônicas

Crianças

Uma idéia que eu queria ter tido: anotar os meus achismos num caderno desde quando aprendi a escrever. Aí hoje eu poderia pegá-lo e ficar folheando até achar algo apropriado para contar. É que muito fica perdido, flutuando em algum lugar da memória. Achar lembranças num caderno seria muito mais fácil. Isso me renderia tantos [...]

Crônicas

Spams e beneficência

Sempre nutri uma certa raiva por esses e-mails do tipo aumenteseupênisematévintecentímetros ou nossasfotinhasnomotel, ainda que a criatividade tanto maliciosa quanto inocente deles, em contrapartida, sempre tenha me divertido. Mas hoje tive um momento de epifania e, como é de se esperar, tudo mudou. Esses e-mails nunca vão me pegar, eu pensei, e o gmail é [...]

Digressões

Breve diálogo com um robô

ou: o que nos reserva a tal modernidade; ou ainda: o cúmulo do tédio.
Phillipe Marcell diz:
o.o
Senhor Bot diz:
A Declaração de Privacidade Online da Microsoft (http://go.microsoft.com/fwlink/?LinkId=74170) aplica-se a todas as informações que você fornecer a este Agente do Windows Live.
Senhor Bot diz:
Bem-vindo Phillwaikei! Meu nome é Senhor Bot.
Sou o primeiro bot brasileiro. Eu gosto muito de [...]

Digressões

A coesão não vai bem, ceteris paribus.

Saudações, navegante, diretamente do planeta dos vestibulandos, um lugar frio e distante, mas ao mesmo tempo frenético, onde tudo é números (datas e notas e horários e dados e equações e fórmulas em profusão), fatos (chegadas e partidas e acordos e convenções e escolas e termos e definições e detalhes aos baldes), listas, livros, professores, [...]

Fragmentos

Anoitece

Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a [...]

Fragmentos

Gato de botas

Estava escuro, mas não tão escuro que as pessoas sentadas no bar do outro lado da rua não pudessem enxergá-la. Ela sentiu o carro parar, deixou-se arquear para a frente, depois olhou para o lado. Mas bastou o olhar que (quase não) recebeu de volta para que ela soubesse que despedidas ali seriam dissonantes. Então [...]

Memórias

Palitos

Eu me lembro, eu e um paliteiro nos sentávamos na soleira da porta que dava pra varanda, e enquanto isso minha avó cozinhava algo que cheirava bem – eu costumava ficar à volta dela fazendo qualquer coisa enquanto ela fazia o almoço, por muito tempo foi assim. Então puxei um palito da casa que eu [...]

Poemas

trabalho

estive pensando
sobre você, é claro
e olha que engraçado
isso que pensei.
sou o atrito da sua vida:
tento fazer você ficar
e você só me despreza
em todos os problemas
como todos os demais.
aplica uma força
sempre bem maior que a minha
mas sabe que só anda
sempre que precisa
por poder me usar.
o pior é que tudo se encaixa
e o melhor é que o [...]

Poemas

Se te exilas de mim

Partiste não há muito,
inda assim é-me infinito
este precito minuto sem um fim.
Quamanho amor agora verso,
por o grito de minh’alma
não se calar de indigesto
e subir inverso ao meu intento.
E já me desculpo, pois ele há-de permanecer
intraduzido para o resto dos tempos
em teus sinais, em meu espírito,
em teu espírito, em meus sinais.
Sinto, mas não há verso ou [...]

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  • Sinopse

    • Blog criado por Phillipe Marcell, que também inventou a palavra "frenosfera" quando descobriu o prefixo grego em uma gramática da língua portuguesa. Momento de ócio. Mesmo.
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