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O homem (e a sua esposa)

Ontem fui a um casamento. Aconteceu numa chácara e foi todo feito de antíteses. Antes de mais nada, apague da sua mente a imagem de gente vestida com roupas simples numa chácara linda ao pôr-do-sol. Quer dizer, continue imaginando uma chácara linda. Mas o traje era formal, era noite e estava fresco. Mas não tão fresco que os garçons não passassem pingando suor enquanto sustentavam nos braços uma bandeja com três variedades de refrigerantes, uísque e champanhe, oferecendo-os aos convidados vestidos como quem se veste para ir a… bem, uma festa de casamento, mas uma festa sobre concreto. Não faltaram senhoras se desequilibrando, os seus saltos afundando na grama ou deslizando nos pedregulhos (e assinando assim suas sentenças de confinamento eterno nos guarda-roupas, desgastando-se bem mais rápido do que o esperado e o investido).

Mas como eu não uso salto e nem fui usando gravata, estava achando tudo muito lindo.

A banda tinha um violinista, e não faltaram boas vozes ou boas músicas. Durante a cerimônia, tocaram Somewhere over the rainbow, Fico assim sem você, A whole new world (música de Aladdin num casamento, cara! :D ), Wherever you will go e All I Ask Of You (só instrumental, linda!), e essas são só aquelas de que me lembro agora, falando assim.

E então terminaram as músicas, os noivos se posicionaram diante do pastor e o pastor abriu a boca.

Ó, as coisas que ele disse.

Como em todo casamento não-fictício, ele passou tempo demais falando. O primeiro problema foi que ele era evangélico. Veio completo com a mania chata de aumentar um pouco a voz a cada “ó, Deus” até o nível do grito, para depois se lembrar que está falando através de um microfone e voltar a uma voz artificialmente amaciada. O segundo (e mais crucial) problema foi que ele era machista.

A mensagem que ele escolheu para nos passar, em sua infinita sabedoria, foi basicamente a seguinte: o casamento é um contrato seriíssimo no qual o homem jura amar incondicionalmente a sua esposa (e, o pastor ressaltou, isso não é de modo algum uma opção dele, mas sim um dever), e a esposa jura ser submissa ao homem, que é a cabeça da família. Eu, por minha vez, juro que ele disse essas coisas com exatamente essas palavras. Depois ele tentou se explicar com essa coisa da “submissão”, e explicou inventou que submeter-se não quer dizer subjulgar-se, mas estar “sob missão” (nessa hora eu não consegui conter o riso, e me perdoem os parentes evangélicos que possam tê-lo ouvido, se tem algum de vocês lendo isso) de viver a vida perto de Deus junto ao outro. Não sei se ele convenceu alguém, porque desde a primeira vez que ele mencionou a palavra “submissa” ele perdeu pelo menos umas 15 das suas ovelhas em potencial que estavam próximas de mim (uma eu ouvi dizer: “vamos puxar uma vaia, gente?”).

Mas ouví-lo dizendo os seus machismos sustentados pela “palavra de Deus” (o que parece ser o apelido carinhoso que ele dá àquele livro cheio de baboseiras obscuras a que também se referem por “A bíblia”) me fez atentar-me a um pequeno detalhe. O tempo todo, em seu famigerado discurso, ele fazia menção aos desígnios e às razões do “homem” e da “esposa”. Em nenhum momento ele falou em “mulher” – era sempre “esposa”. E já aí se podia perceber sua visão do mundo. Em como ele enxerga as mulheres.

Veja bem, “esposa”, por definição, é um substantivo que denota a ligação matrimonial de uma mulher com um homem (vocês sabem como é, os dicionários ainda não estão cientes do casamento homossexual). Mostra que ela é casada com alguém. “Esposa” é uma palavra que só tem sentido se existe um “marido”; é uma palavra que existe em função de um homem, pois sem um homem uma esposa só pode ser “mulher”. Um “homem” que se casa com uma mulher é um “marido”, ou um “esposo”, mas em momento algum essas duas palavras foram citadas. O que quer dizer, simplesmente, que na visão do pastor uma mulher realmente vive em função do homem: vive na função de ser sua esposa. Uma mulher, para ele, não tem sentido enquanto não está ao lado de um homem, que é “a cabeça da família”. Por outro lado, o “homem” é uma variável independente. É em função dele que a “esposa” vive, em submissão. O que ele faz é de seu próprio arbítrio, e o de nenhuma outra pessoa. O homem é superior. Eva foi criada porque Adão se sentia sozinho (e, você adivinhou, estou parafraseando o pastor). E, aliás, a criação de Eva, segundo ele, é a prova de que Deus quer que nós nos casemos, e é exatamente isso que deu a ele autoridade quando criticou os casais que se divorciam, fazendo uma “análise” dos números do mundo moderno. Ele reiterou: o homem tem o dever de amar sua esposa. Não a opção.

Amém? (Vale dizer que quando ele mesmo disse isso, pouca gente respondeu amém de volta).

Mas o que eu fiquei pensando depois de tudo isso é o seguinte, e a pergunta é uma que eu queria que vocês me respondessem (daí o post), caso tenham convívio com evangélicos (pois o meu é quase nulo, por razões óbvias): será que isso é comum a todos eles? Definir o casamento como a união do “homem” e da “esposa”? O pior é que eu não vou me espantar se eu descobrir que sim.


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Impasse

- Três – eu digo, com a voz mais grave e nítida quanto me é possível.

Ela não vai puxar o gatilho, essa puta, olhe para ela, mal pode deixar o cano da arma quieto em seu lugar. Ao menos eu tenho coragem por nós duas, dou os dois tiros: primeiro nela, depois em mim. Será que ela entende que se ela não puxar a droga do gatilho ela é a única que morre? E ainda morre uma pessoa injusta, como temeu a vida toda ser. Que irônico. Não está cansada, então, princesa? De toda essa hipocrisia, essa falta de atenção, de amor, desse mundo? Sujo, vão, muito mais cheio de feitos deploráveis do que louváveis. E escravo do petróleo, não nos esqueçamos. De gente imperfeita feito eu… e feito você, de certa forma. Esse mundo incongruente com a delicadeza do seu rosto e a perfeição dos seus traços; e com os seus cabelos loiros, também. Mas, principalmente, com as suas idéias e com as minhas.

- Dois – eu ecôo, tentando colocar tanta certeza em minha voz quanto ela tinha colocado na própria.

Eu vou morrer, nunca tive tanta certeza. O pacto está feito e acho até que meu vestido está um pouco sujo do meu sangue. E do dela. Ah, as frivolidades. Se vamos partir deste mundo e deixar para trás todas as suas convenções estúpidas, nada faz mais sentido do que partir dele segundo o que foi acertado em uma última convenção estúpida. E absurda, também, mas o mundo é mais. Eu sabia que ela era fria, e, céus, eu mesma sou fria, afinal nós estamos onde estamos e estamos como estamos, mas ela me excede. A voz dela não treme porque ela enxerga tudo como o cumprimento de um trato, um aperto de mão depois de fechado o negócio e assinados todos os acordos, mas dessa vez não é só. Minha nossa, nós vamos morrer. Estamos a um passo de descobrir que existe um Deus e sermos mandadas direto para o inferno, e ainda assim…

- Um – eu digo, impassível.

Tem um sorriso querendo escapar pelos meus lábios, mas eu não o deixo sair. Puxo a trava da arma e ergo uma única sobrancelha, dizendo: faça o mesmo, sim? E ela puxa tão rápido que mal posso acreditar, é quase como se as incertezas todas saíram correndo à menção do número um. Mas ainda assim eu vejo, bem ali, no canto do rosto angelical, um ensaio de cara feia. Como se ela contivesse dentro de si todo um rio de lágrimas a ponto de vencer as barragens construídas às pressas.

- Agora!

A minha própria arma fazendo um clique é a única coisa que eu ouço. É claro. O tambor gira maquinalmente e nenhuma explosão é ouvida. Nem da bala voando para a testa dela, nem do choro patético saltando de suas entranhas. De olhos arregalados e ainda assim fechados para a própria alma, que parece ter se ausentado por uns instantes, ela pisca duas vezes; o dedo sobre o gatilho continua pateticamente imóvel, como antes.

- O que… aconteceu? – eu me ouço dizer.

E não posso entender. A arma de alguma forma falhou e eu estou viva. Viva. Há uma onda voraz de formigamento se espalhando pelo meu corpo e essa é a melhor coisa que já me aconteceu. Deve ser uma espécie de injeção de alegria, porque tudo o que eu quero é rir e, espera, eu de fato estou rindo, e eu quero muito abraçá-la, beijá-la, e, ainda que eu veja seu rosto bem diante de mim, também quase posso ver o de minha mãe, a minha mãe na nossa cozinha, preparando emburrada o jantar que, ela tem certeza, ninguém vai elogiar, enquanto o sol se põe e não faz a menor diferença, já que ela já ligou todas as luzes. Mas dessa vez eu vou elogiá-la, vou voltar a ser para sempre a sua pequena menina. Ela vai ninar todos os meus anseios e a minha fúria desaparecerá. Mas, parando agora para prestar atenção, a única coisa que preenche os espaços retorcidos do porão é o meu próprio riso. Tão somente meu.

- Aconteceu que você não puxou o gatilho, querida! – eu explodo, como se estivesse ao mesmo tempo furiosa, desgostosa e surpresa. – Aconteceu que se eu não tivesse tido o cuidado de deixar vazio a porra do espaço da primeira bala, se eu não tivesse pensado em primeiro fazer um ensaio, seriam só os seus miolos espalhados pelo chão e os meus processando a imagem, seguramente organizados dentro do meu crânio. Não era bem esse o trato, era? Você ganha a morte tranqüila e eu ganho uma versão traumatizada da minha própria vida? Você reprovou no seu teste, meu bem, e só terá mais uma chance. Preste atenção.

É claro que é tudo um teatro. Eu quero chocá-la, quero aquecê-la, quero que você se dê conta da seriedade desses nossos últimos momentos para que os findemos como devemos findá-los.

- Eu… eu não quero mais – é tudo que eu consigo dizer. Olho para a arma prateada do meu pai pesando na minha mão e imediatamente repouso-a sobre o chão. Eu sinto muito, mas a única coisa que eu quero agora é a comida da minha mãe. E quero que ela brigue comigo por ter me atrasado de novo, mas só com o olhar.

Mas eu a vejo pegar a arma do chão enquanto morde nervosamente o lábio, como quem reúne forças para refrear todo um discurso que luta por liberdade, e entendo que não há outra saída. Ela estende o braço que segura a arma em minha direção. Pegue essa merda outra vez, é o que o corpo dela me diz. E não há argumento.

Já chegamos longe demais.

Eu abro a mão e recebo a arma de volta. Ela tem toda a razão. As palavras que ela não proferiu são as palavras mais sábias que eu jamais ouvi.

Ela vai morrer, como deseja, mas eu não.

Eu escolho a vida.

- Três – eu digo outra vez, saboreando o silêncio e o vazio de expressões emanando dela; admirando essa transformação incrível por que ela passou no espaço de alguns poucos segundos. O seu rosto até parece mais rústico, por um instante.

Sinto, pelo frio de seus olhos, que ela agora realmente entende a gravidade da situação. Ela vê onde é que estamos, e ela se lembra do ódio. Ela olha para mim e vê o que deveria ter visto desde o início: o capitalismo. O motivo que nos colocou aqui. Ela vai assassinar o próprio pai. Não a mim. O brilho nos seus olhos denuncia a decisão que ela só realmente fez neste exato momento. Ela não vai mais hesitar, pois ela já não é ela mesma. Eu sei.

- Dois – eu respondo, e a vejo sussurrando a palavra “dois” ao mesmo tempo que eu, mas de um jeito meio obstinado.

Eu destravo a arma.

- Quando você disser um, eu atiro. E… eu te amei. Você foi a única pessoa que eu amei.

- Eu também te amei. Obrigada por tudo – eu respondo enquanto destravo a arma, mas não sorrio. Um sorriso poderia ser a nossa perdição. Este é o nosso momento final, e a precisão não pode ser menos do que perfeita.

Eu tento aguçar os meus sentidos. Preciso ter certeza de que vou agir.

Silêncio.

Ela não diz.

- Eu digo, então, sim?

- Um.

Eu puxo o gatilho antes dela, mas não ouço explosão alguma. Então entendo: o espaço da primeira bala no tambor está vazio e eu me esquecera.

Eu puxo o gatilho e só depois me lembro: não havia bala alguma na agulha da arma dela.

Eu sinto como se tivesse sido atropelada e então já não sinto nada tudo escurece devagar e apesar de que eu não veja apesar de que eu nem propriamente sinta eu sei que caio para trás e eu sei que esse tempo que eu levo caindo não é de mais de um segundo mas o que está acontecendo eu posso jurar que a gravidade está demorando horas para me colocar no chão velho e poeirento desse lugar poeirento e velho oh eu sinto a poeira eu atirei mas não houve tiro como é que eu esqueci que eu não tinha balas e eu só queria abraçar a minha mãe e eu queria ser sua menininha e o problema é que estou tão atrasada para o jantar…

Eu fico em pé em um pulo, e as minhas duas mãos pulam para a minha boca, contendo o meu grito. O sangue inunda o seu rosto desfigurado e eu entendo que a Beleza se foi pois não pôde suportar tamanho horror. Fico então em silêncio, e sinto lágrimas molhando os espaços entre os meus dedos. A arma está jogada no chão, eu acho. Em algum lugar. Nós nos esquecemos! Eu me ajoelho. Nós nos esquecemos! Você puxou o gatilho, mas… eu também puxei. Eu atirei e eu fui a única. Me desculpe, por favor, me desculpe, eu… eu continuo aqui.

Meu Deus, eu continuo aqui.


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Pergunta

Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.

Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.

- Filhote?

E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:

- Oi.

- Em que você tanto pensa?

Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.

- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.

- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.

- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?

E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.

A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.

Deixou-se voar.


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Um pouco de otimismo, por favor.

Sim, o ENEM como sistema de seleção unificado foi nada menos que outorgado, a UFMT foi naturalmente a mais procurada, posto que foi uma das poucas que tiveram a coragem de adotá-lo logo de cara, e, também naturalmente, tanto o ENEM quanto a UFMT não satisfizeram a maioria. Os corações matogrossenses que se partiram hoje são incontáveis. Quer dizer, é o que nós achamos, porque ninguém tem meios ainda de saber qual é a porcentagem das vagas que asseguramos. Mas agora que encaramos a dura realidade, a de que é provável que a maioria dos nossos estudantes não foi capaz de competir com os estudantes vindos de outros estados, queremos entender o porquê, é claro. A reação mais imediata, como não podia ser diferente, é a de acusar o governo por ter feito tudo às pressas, e a reitoria da universidade por ter aprovado essa loucura em nosso estado sem consultar previamente a comunidade matogrossense. Agora dedos são apontados e a grande questão é levantada (pergunta-se com aquele ar de eu-te-avisei): será realmente possível que tenhamos mudado para melhor?

O sentimento coletivo que percebo me diz que não, não mudamos. Do jeito que andam falando, a concorrência parece ser má como o calor desses últimos dias e as vagas parecem ser todas destinadas, como que por direito divino, aos nossos próprios estudantes, de modo que vê-las preenchidas por aqueles nascidos em outros estados parece ser um crime pelo qual tanto o SiSU quanto a UFMT devem urgentemente ser crucificados. O protecionismo, tão velho e criticado em outros contextos, está em alta por aqui. A universidade é federal mas isso quer dizer muito pouco, pois aparentemente não pertence ao país. O sistema unificado parece estar mais para um vestibular da UFMT aplicado em escala nacional do que qualquer outra coisa. Os reprovados serão abalados além do reparo, os aprovados virão sugar o conhecimento da nossa instituição e dos nossos professores para depois irem buscar os seus êxitos profissionais alhures. Está tudo errado, um caos ético-político. Certo?

Duvido.

Para mim, a resposta é não.

Queiramos sair do óbvio, sim? Injetemos um pouco de otimismo nesta história toda, e tentemos, por favor, observar sem sermos aqueles que perderam as vagas, aqueles que têm que consolar os filhos por perderem as vagas, ou aqueles pessimistas que só sabem olhar para os aspectos ruins da coisa, caso isso seja possível. Comecemos por enunciar, de uma vez, o que é consensual, coisas com que até eu mesmo concordo:

A prova do ENEM em si não foi satisfatória. Noventa questões objetivas a serem respondidas, uma redação a ser feita e um gabarito para ser preenchido em, o quê, quatro horas e meia, cinco horas? parece não menos do que sobre-humano (eu bem me lembro do último ano do vestibular aplicado pela própria UFMT, em que responder a oitenta questões em quatro horas já parecia um trabalho hercúleo). E também é indefensável a celeridade com que tudo foi resolvido: que o ENEM passaria a testar todos os estudantes do Brasil e determinar se cada um deles iria ou não entrar na faculdade que gostaria de prestar, e que estava ao critério dessas faculdades aceitar ou não tal mudança, mas que tal critério deveria ser esclarecido em questão de uns poucos meses.

Mas o que me fez apoiar o vestibular unificado desde o início – desde o primeiro rumor pouco esclarecido que ouvi a respeito – foi a idéia por trás dele. Tão só. Dadas as circunstâncias, já naquele momento eu previa (junto com todo o país, tenho certeza) de que a prova não agradaria, poucas instituições adeririam de imediato e que, depois que a prova fosse aplicada e os resultados divulgados, haveria um contingente enorme de pessoas mudando-se de cidade para preencher a vaga conquistada em algum lugar distante. Bem, aqui estamos. Tudo que prevíamos se confirmou, e a histeria está chegando. Tentemos manter a calma e, principalmente, pensar no futuro.

O ano de 2009 foi um mal necessário. Foi apenas o primeiro ensaio. Tudo tem que começar de algum jeito, e bem sabemos que nada nasce já perfeito, apenas surge e de imediato entra num processo de aperfeiçoamento do qual, com alguma esperança, jamais sairá. O ENEM deste ano com toda a certeza será melhor do que o do passado, e mais faculdades optarão por usá-lo – é o curso natural das coisas. Em 2011 o mesmo poderá ser dito. Mas o que eu quero chamar à atenção dos meus conterrâneos é que não é só o vestibular unificado que tem melhorias a perseguir. Nós, matogrossenses, também temos a nossa parcela de culpa e, obviamente, um compromisso a assumir. Mas, antes de falarmos sobre essa culpa que compartilhamos, quero trazer uma pequena reflexão ao pensamento.

O que não desiste de martelar na minha cabeça, caro leitor, é o estado de São Paulo. Eu não conheço qualquer outro estado cujas instituições de ensino superior recebam estudantes de origens mais distintas do que esse. E tenho uma convicção muito forte de que, mesmo nessa adversidade, os estudantes paulistas não se sentem ameaçados ou injustiçados por tal concorrência. Bem, é claro que o nível da educação paulista é um dos melhores, mas a que isso se deve? Provavelmente à própria concorrência. Visto que o Brasil inteiro aspira a uma vaga na USP, na Unicamp, na Unesp, etc. (a lista continua), o estado se vê na obrigação de preparar os seus estudantes da melhor forma possível, de modo que a estadia deles ali seja possível, e que seus estudos possam continuar sem maiores alterações. O que faz investindo na educação.

A nossa culpa é a de termos nos acostumado ao fato de que a UFMT não está entre as mais visadas do país, e de que a competição pelas vagas acabava por se dar entre nós mesmos. Bem, este não é mais o caso. Este ano estivemos no centro das atenções, o que abalou o estado psicológico dos vestibulandos, que foram tomados pela surpresa estarrecedora de que competiriam com todo o Brasil. O ENEM cumpriu o seu papel, que era o de selecionar os melhores. O problema foi simples: os melhores não somos nós. O nosso ensino não estava preparado para competir com o ensino dos outros estados, está claro, e é precisamente aí que está o compromisso que temos que assumir. Não apenas o estado e a iniciativa privada, que devem investir mais na qualidade dos professores e repensar os métodos atuais de ensino, mas também os próprios estudantes. A postura precisa ser mudada. Os estudos precisam ser encarados com seriedade, porque é exatamente assim que os paulistas conseguem garantir suas vagas.

E eu prevejo que eles acabarão sendo levados a sério, porque mais e mais pessoas deixarão de conseguir entrar na UFMT sem passar pelo cursinho, e tanto os colégios quanto os alunos perceberão que precisam urgentemente melhorar. O ENEM, afinal de contas, é uma grande oportunidade, um grande incentivo, para a melhoria da educação em nosso estado e em todos aqueles em que se vive a mesma história que vivemos. Antes de tudo, precisamos parar de reclamar do estado atual das coisas e tomar providências que de fato produzam algum efeito. Os vestibulandos precisam tomar a UFMT pelo que ela é, não o que era, tornarem-se competitivos, e garantirem suas vagas em nossa universidade por meio de seus próprios méritos. As escolas precisam entender o novo vestibular, procurar os melhores meios de ensinar os seus alunos a raciocinarem (que se tornou o grande foco com o novo vestibular), e os professores precisam tomar um papel ainda mais ativo nesse processo, que é de transição.

O ideal será quando o ENEM se tornar uma prova sóbria, com uma metodologia acima de tudo democrática e um tempo sensato, e quando todas as grandes universidades do país o adotarem como sistema de seleção. Estamos longe disso, mas precisamos admitir que, uma vez que chegarmos lá, nos tornaremos um país menos restrito, mais dinâmico e, por conseqüência, mais forte. Nós só chegaremos neste ponto (isto é, se um dia chegarmos) se abandonarmos a postura pessimista que vejo a maioria das pessoas adotando agora, que só fará retardar o processo de aperfeiçoamento do ENEM e do SiSU, e tentarmos, ao invés disso, acelerar a velocidade com que perseguimos este futuro. Apontemos os erros, sim, isso é essencial, mas depois disso, ao invés de fecharmos a mão num punho e cruzarmos os braços, procuremos usar o mesmo dedo para apontar as possíveis soluções. Temos que ter um olho à frente do nosso tempo, no futuro ideal, e nos empenharmos para torná-lo a realidade. As coisas definitivamente não vão acontecer se não quisermos que aconteçam.

Agora, tudo falha se o que criticam é a própria idéia do vestibular unificado, e não simplesmente a sua execução. Não é a estes que falo aqui, nem com quem argumento – essa é outra discussão.


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Fim de tarde

Eles se olham, trocam palavras descuidadas, quase sempre soltas. Ainda que conversem honestamente, trocando novidades e idéias, também sabem muito secretamente que é tudo um prelúdio à causa que realmente os colocou sozinhos aqui. Eles riem, ora alto, ora baixo, e usam esses momentos como escusas. Chegam mais perto. Vão diminuindo o tom. Apreciam o silêncio, e depois o trocam. Por uma razão ou outra se tocam, mas nunca por tempo demais. Enquanto isso, se percebem, se perscrutam, ao mesmo tempo que fingem ser apenas sujeitos, nunca objetos. São reflexivos, mas sutis. Quando não resta mais o que fazer, ficam abraçados, protegem-se do frio ou da falta de alguma coisa qualquer. Alimentam-se de suas companhias. Acham suficiência neste único ato e dispensam todas as palavras. Se fazem duas partes unidas e percebem que o todo não se completa. Então se olham. Se aproximam, e aqui nos deixam, então e enfim, a evidência mais precisa da impossibilidade deste romance, que mutuamente desconhecem: este beijo. Este beijo e estes pensamentos que nenhum deles diz e que jamais acham portas por onde escapar. Enquanto um silenciosamente promete a si que este será o último, o outro fervorosamente pede que aquilo se repita para todo o sempre, e ambos ao mesmo tempo se abraçam e ao mesmo tempo se guiam numa mesma dança, bem conhecida, rodeados por um amor que de tão clandestino quase não é amor. É vício.


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Eu não acredito em Deus

Hoje ouvi mais uma vez alguém perguntar aos sussurros se eu não acreditava em Deus. Mais uma vez eu me limitei a ouvir dizerem não em resposta evitando falar muito alto por talvez pensar estar participando de uma heresia. E mais uma vez fiquei sentado, em silêncio, apenas imaginando as coisas que eu diria para fazer aquele olhar de desgosto desaparecer, revisitando o discurso que está quase sempre pronto, mas nunca tem motivos suficientes para ser pronunciado. Só que eu percebi que eu já cansei de fazer isso. Ainda assim não o disse, pois qualquer coisa que eu dissesse seria ignorada tão logo a próxima palavra viesse, mas me levantei e vim escrever o que penso. Assim quem sabe o esforço seja menos vão.

Esta é a resposta a essa pergunta que até hoje eu só vos dei em minha cabeça:

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque tanto mais eu investigo os discursos que o defendem, mais inconsistências e mais contradições parecem emergir. Não acredito porque – e essa é apenas uma das razões – acreditar em Deus significa aceitar que existe o destino. O que é impossível para mim, porque eu sempre fico simulando na minha cabeça esta pequena história que, apesar de poder não ter acontecido, pode perfeitamente acontecer numa dessas segundas ou quartas-feiras quaisquer: quando um avião com 170 passageiros a bordo está caindo, em rota de colisão com um prédio de uma cidade, será que morrer nessa situação poderia ser o destino dos recém-casados voltando mais apaixonados do que nunca de sua lua-de-mel e do casal de idosos atrás deles que ganhou uma viagem dos seus filhos e da criança viajando sozinha nos primeiros assentos com um crachá dependurado no pescoço e da aeromoça solteira que deixou seu filho em outra cidade aos cuidados da irmã e do rapaz viajando a trabalho e a contra-gosto e do piloto brilhante que sonhava em voar desde menino e da moça grávida de oito meses (e do bebê de oito meses dentro da barriga da moça grávida) e da menina cheia de esperanças voltando do vestibular que fez fora de sua cidade natal e da senhora que tem medo de voar indo visitar o seu filho e terminando de rezar o terço… que tudo faz parte do grande plano que Deus elaborou para cada um deles? Sem falar das pessoas que trabalham no prédio com que o avião vai colidir e daquelas que dormem nas casas próximas sobre as quais ele vai desabar, ou das famílias de todas as pessoas envolvidas pelo desastre, que têm tantos planos, tantas esperanças e, acima de tudo, tanto amor. O que sobra é só a a tristeza. E os destroços. Eu me recuso a acreditar que exista o destino porque a vida é cruel demais para ter sido arquitetada aos mínimos detalhes por alguém – ainda mais alguém que supostamente é Amor. E o engraçado é que em face dessas circunstâncias até aqueles que dizem acreditar no destino passam a não acreditar por um momento, porque dizem: é uma fatalidade. Não! Para que se diga que se acredita em destino, há que se defender que essa situação também é a manifestação dele. Se a pessoa não é capaz de defendê-lo, então ela na verdade não acredita que exista algo assim.

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque todas as diferentes facetas do Deus que as pessoas idolatram me ofendem profundamente e as religiões são construídas ao redor do egoísmo. Me enoja quando eu vejo alguém ganhar alguma coisa e exultar, agradecer ao seu Deus, dizer que ele é pai e que ele é bom e que ele é justo, sem pensar que, se x era o número de pessoas que concorreram àquela coisa, existiam x – 1 pessoas pedindo aquela mesma coisa, rezando a mesma reza, desejando tanto ou talvez mais do que ela, necessitando menos ou mais do que ela. Me enoja quando uma pessoa fica feliz pela conquista profissional da outra e diz que aquilo foi um presente de Deus a ela, ignorando assim todo o esforço e toda a dedicação que a pessoa sozinha investiu em si para alcançar aquilo. Me enoja que creditem tudo a Deus, nunca ao homem e à mulher. Me enoja quando uma pessoa medíocre diz para outra pessoa medíocre que ela vai rezar para que a outra passe no concurso, mesmo sabendo que ela está muito longe de ser a pessoa mais adequada ou a mais merecedora do cargo, e que ela acredite que exista a possibilidade desde que ela peça com fé a Deus, que então tiraria a vaga de quem realmente merece para dar ao seu amigo medíocre, mas necessitado de dinheiro e, mais importante, conhecido dela. Me enoja que tanto um padre consolando um fiel que tem um parente moribundo quanto um bandido falando com a quadrilha antes do assalto digam Deus vai nos ajudar e que ambos possam crer com o mesmo fervor nisso. Me enoja quando eu ouço uma pessoa que presenciou um tiroteio dizendo que foi uma graça de Deus que o atirador não a acertou, mas sim a pessoa que estava bem ao seu lado, assim bem perto mesmo, e que foi um milagre ela ter escapado, sem perceber que essa pessoa que foi acertada também era um ser humano tão inocente quanto ela, um ser humano que sentiu a dor do tiro, foi para o hospital e que talvez tenha morrido enquanto ela continua contando a todos os amigos a sua experiência de quase morte e o “milagre” com que foi abençoada com o maior sorriso do mundo. Me enoja quando as pessoas rezam de noite só para não ter pesadelos, e quando elas se reúnem em uma igreja e cada uma delas se fecha em sua própria reza, pedindo a realização dos seus sonhos e dos sonhos de seus parentes e amigos, e pedindo que se resolvam os seus piores problemas. E também me enoja quando elas rezam pela paz mundial ou pela erradicação da fome e acham que, nisso, estão fazendo suas partes, pois as pessoas vêm rezando por isso há muitos séculos e os problemas continuam aqui, muito visíveis e muito palpáveis, o que só pode significar que elas seriam mais úteis se usassem o tempo que elas passam desejando pelas coisas boas para de fato se engajar em alguma causa humanitária e promover com suas próprias mãos as coisas boas. Me enoja quando as pessoas dizem que o Deus delas é justo e bom para todos quando tem tanta gente morrendo para as drogas, para a fome e para o ódio, tanta gente chorando ao mesmo tempo nos mais diversos lugares e pelos mais diversos motivos; quando tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e elas não têm ciência de nem uma pequena fração disso tudo e, mesmo nessas condições, têm a ousadia de dizer que Deus ajuda todos aqueles que merecem. E, por fim, me enoja a própria idéia de rezar – e essa última coisa quem me fez enxergar foi o escritor Rubem Alves. Como ele diz, qual pode ser o sentido de rezar? O Deus das pessoas não é onisciente? As pessoas rezam pedindo as coisas para quê, então? Ele não está prestando atenção?

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque acho tudo muito conveniente. É fácil viver a vida como bem se entende e depois entrar em uma igreja e pedir perdão pelos pecados, ou cuidar da espiritualidade ao estudar o livro que alguém escreveu, ou dar uns pacotes de arroz a uma comunidade pobre e achar que isso compensa qualquer ato mau. É fácil estar no meio das dificuldades imaginando que tem alguém cuidando de você, é fácil ter alguém todo poderoso a quem recorrer nas horas mais difíceis, é fácil imaginar que depois que nós morremos existe algo bom nos esperando como recompensa por tudo. E não acredito porque em tudo vejo hipocrisias. É fácil condenar o suicídio quando não se perdeu o movimento e a sensibilidade de todos os membros abaixo do pescoço, e quando viver a vida não se limita a olhar pela janela de um hospital. É fácil condenar o aborto quando não se vive a agonia de ter na barriga um filho negro que será neto do homem mais preconceituoso e violento do mundo, que seria capaz de espancar a própria filha até a morte. É fácil dizer que é tudo obra de Deus quando não se é judeu e não se vive na época do Holocausto.

Mas também vejo que é uma tarefa difícil para o ser humano admitir as suas próprias impotências. Reconhecer como verdade aquelas verdades que doem. Que corroem. Não é fácil não acreditar em Deus porque é difícil aceitar que nós estamos todos sozinhos e por nossas contas, que não existe o destino, apenas o acaso, e que quando nós morrermos nada vai acontecer – que o pensamento, que a consciência é química e é biológica e que quando nós morrermos nós simplesmente não seremos capazes de pensar ou perceber. Tudo não será nem preto nem silencioso, será nada. Porque escuridão e silêncio são percepções. Tudo continuará acontecendo como é ao redor dos nossos corpos, mas eles (nós) não reagirão (reagiremos) a nada do que acontecerá. É simples assim. Mas é impossível de se imaginar. E é nesses espaços que as pessoas colocam Deus – para explicar o que é inexplicável -, só que eu prefiro deixar as coisas assim, simplesmente incógnitas. Além da compreensão humana. As coisas que a ciência não consegue explicar não são Deus – são o desconhecido. Muita gente faz essa confusão. E muitas delas ainda não foram explicadas e nem serão porque são simplesmente incompreensíveis. E eu acho mais fácil encarar as coisas como incompreensíveis do que atribuí-las a Deus, porque para mim isso é hipocrisia. É não aceitar que o ser humano não é capaz de compreender todas as coisas. E também é vicioso – porque se aceitamos que é Deus e paramos aí, perdemos a motivação de dar um passo à frente e continuar a tentar entender.

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque as religiões prometem tanta coisa que é difícil não enxergar que é tudo uma farsa. Algumas coisas que ouço pregarem são ofensas à inteligência. Estou falando dos dogmas. E estou falando dos espíritas que dizem que quando morremos após uma vida correta vamos morar em uma colônia onde tudo é perfeito e harmonioso, onde nos preocupamos somente com as nossas saúdes espirituais, e que se nos matamos vamos, ao invés disso, passar anos e anos em um lugar escuro e cheio de sofrimento, ao mesmo tempo que dizem que o seu Deus é misericordioso, a personificação do perdão e do amor. Falo dos muçulmanos que crêem que ao se matarem em nome de Alá numa guerra considerada santa vão para um paraíso repleto de mulheres virgens que os compensarão por seus sacrifícios. Falo dos católicos que dizem que existe Deus e o diabo, e que existem anjos e que existem demônios, e que existe o céu e que há o inferno, e que há atos que definem quem está destinado ao quê, enquanto eles mesmos fizeram coisas no passado – bem sabemos – que certamente garantiriam aos próprios pregadores e aos próprios fiéis um lugar no inferno em que acreditam: queimaram pessoas em praça pública, enforcaram ou silenciaram os donos das mentes mais brilhantes, discriminaram os negros. Discriminam os homossexuais. E eu sei que essas coisas que eu citei agora são muito mais minuciosas do que isso – que os espíritas dizem, por exemplo, que Deus é misericordioso mas todos nós precisamos crescer espiritualmente, e que o suicida é alguém que não o fez e que precisa passar pelo umbrau para evoluir o que não conseguiu em vida, mas eu não quero entrar nessas questões. Até porque esse questionamento tem que partir do leitor – apenas as conclusões que surgirem de suas próprias reflexões poderão ser honestamente adotadas como válidas.

O que eu quero dizer é que eu não acredito porque acho tudo muito bobo. E depois de certo ponto fica tudo tão óbvio. Quem é ateu o é porque percebe a conveniência que ronda Deus e as religiões – quem é ateu percebe que não é só uma coincidência que justamente as coisas que as sociedades normalmente discriminam em determinado tempo (a ciência no Renascentismo e o homossexualismo até os dias atuais, por exemplo) sejam aquelas que recebam as censuras mais duras e sejam ditas motivos válidos para as punições mais temíveis. É por isso que existem tantas religiões quanto existem códigos morais. Porque cada religião atende aos pensamentos de uma determinada sociedade. A religião é, afinal de contas, um instrumento. E um de muitas utilidades: um instrumento que a sociedade usa para fazer valer as suas regras morais, e para justificar a repressão de quem não segue essas regras; um instrumento de que algumas pessoas más se utilizam para explorar as outras, conseguir dinheiro, crédito e satisfação; um instrumento de que as pessoas se utilizam como desculpa para se aproximar das outras e não se sentirem sozinhas; um instrumento que as pessoas utilizam para aliviar suas dores e calar suas dúvidas; um instrumento que as pessoas dão a outras para comandá-las.

Eu não acredito em Deus, mas não é como se eu não tivesse princípios, como se eu negasse a existência dele só porque quero, porque tenho birra ou algo parecido – só por eu não gostar dessa e daquela religiões. Eu nego porque eu acredito em outras coisas. Coisas que não têm nomes ou rótulos. Eu acredito no que eu penso e no que eu sinto, e as minhas teorias podem não ser as mais acertadas, mas eu me orgulho muito de poder dizer que elas são minhas, que ninguém as colocou na minha cabeça por mim. Tenho orgulho de que eu tenha me tornado capaz de investigar o mundo que me cerca do meu próprio jeito, sem deixar que o lugar comum (ou o olhar de desaprovação das pessoas) interfira nas minhas crenças. Porque eu acredito que eu estou certo (todos nós sempre acreditamos que nós estamos certos, não é mesmo?) e que as minhas razões são todas válidas. É por isso que eu digo essas coisas com a mesma naturalidade com que as outras pessoas dizem acreditar. Portanto eu gostaria que vocês aceitassem o fato de que é assim que eu penso, e vissem que há uma razão para eu pensar assim, e gostaria de dizer que a posição que vocês tomam, as coisas em que vocês crêem e as coisas que vocês dizem não me convencem e nem me fazem sentir culpado, burro, perdido nem qualquer uma das outras coisas que vocês tentam dizer com esses olhares de repúdio que me dirigem quando descobrem que eu não sou exatamente do jeito que vocês assumiam que eu fosse.

E pela última vez sim, eu não acredito em Deus, e como eu poderia? Não acredito porque ele é uma invenção humana. Nada mais.

Adendo: aos proficientes na língua inglesa, recomendo a leitura desta matéria (seus comentários, na verdade).


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Neste pequeno quarto

Absurdo que um quarto assim tão grande possa parecer tão opressivo e claustrofóbico dessa maneira. Inacreditável que possa haver tantos significados em tal profundo silêncio, em tal ausência de palavras (ditas ou pensadas). Tanta densidade em tão pouca matéria. Os sentimentos se tornam coisas concretas, quase pensantes em si, flutuam por conta própria, e eu me torno um pára-raio, ou quem sabe eu só seja humano. Eu sinto que termino em cada aresta que te define mas ainda assim não me conjugo, e acho que nos fizemos grandiosos demais por uma causa demasiado fútil, bem menos extraordinária do que pensáramos. Talvez até mesmo mundana. Nós colidimos e, de tão opostos, fizemos cair uma tempestade. Essa tensão toda é apenas parte do vendaval.

Se pudéssemos apenas voltar ao que éramos antes, quando os nossos egos não estavam assim inflamados dessa doença de pós-amor, talvez pudéssemos consertar o tamanho desse quarto, e caberíamos os dois no mesmo mundo como se fôssemos sol e pássaro, calmaria. Quem sabe se nós nos abraçássemos, preencheríamos esse lugar de sons, e então o silêncio daria lugar não a uma perturbação, mas ao equilíbrio. Seríamos duas pessoas num quarto se amando, e nada mais que isso. Sol e pássaro. Ordinários como o dia que vem após outro, e descomplicados.


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Cadáveres

Se quer um conselho, não leia o que vem depois do segundo ponto final. Se há algo útil nesse post, é que ele serve para mostrar que sim, eu continuo vivo.

O avião caiu e eu fiquei pensando em destino. Cheguei à conclusão de que a única coisa a que estamos todos destinados mesmo é a sermos um cadáver. Surgimos da pureza de um suposto milagre (o da vida, assim dizem) apenas para terminarmos na insignificância dessa palavra ominosa, volta e meia inspiradora de arrepios, caminhando eternamente pela inexistência tendo o completo esquecimento como apenas o primeiro estágio filosófico. Na verdade nem é essa a palavra mais adequada, cadáver. Quer dizer, acho que todo o campo lexical está incorreto. Estamos todos na verdade predispostos a essa condição final, assim supostos pelas observações empíricas que apontam para o fato de que todo ser humano (ou, numa análise mais geral, tudo que vive) eventualmente morre. Temos uma natureza tão incerta que falar do desaparecimento de cada um de nós, como indivíduos, é tão complicado como falar dos nossos surgimentos. Afinal, em que momento estaria, precisamente, aquele em que passamos a existir? Alguns diriam que passamos a existir quando saímos à luz do mundo (ou à artificialidade da luz de uma sala de cirurgia), e há outros que dirão que existimos assim que somos promovidos a feto, oito semanas após o coito. Há ainda outra linha de pensamento que defende que, naquele exato momento em que ocorre a união de um óvulo e um espermatozóide, já existimos; que surgimos da formação do embrião, e não do suspiro de agonia. Mas sejamos mais criativos. E se na verdade existimos mesmo antes disso, só que em duas existências distintas no espaço e perdidas nas probabilidades – uma nos vinte e três cromossomos de um entre os bilhões de espermatozóides dos nossos pais, uma nos vinte e três cromossomos de uma das dezenas de óvulos das nossas mães? Poderia ser essa a unidade mínima da existência? Não seria possível que cada uma dessas existências estivesse antes dividida em outras duas, ou quem sabe quatro, no tempo indivisível e no espaço (de certa forma) infinitesimal das células? E essas pequenas existências brotando de outras oito, ou quem sabe dezesseis existências engolfadas pelo tempo que, de tão dividido, nem é tempo, e num espaço em que cada átomo em seu formato e posição desempenha a mais crucial das importâncias? E, ainda antes disso, dezesseis ou trinta e duas existências originais confinadas em ainda uma outra unidade, infinitas vezes menor do que essa unidade que supostamente conhecemos, contendo, cada uma delas, outros milhares de existências, ou quem sabe universos inteiros repletos de existências? Quantas são, exatamente, as variáveis que nos definem? Quantas elas precisariam ser, matematicamente, para que nos milhares de anos em que o ser humano existe, não tenha havido nunca um indivíduo exatamente igual ao outro? E, se passar a existir é isso mesmo, o que seria exatamente morrer? O inverso? A princípio faz sentido, pois, após culminarem-se tantas existências distintas numa só, passamos anos e anos como uma só existência, aparentemente muito finita e definida. E em certo ponto definhamos, é claro, viramos uma existência puída, cada vez mais vaporosa, para depois enfim passarmos ao curioso estado (será que posso dizer assim, “estado”?) da inexistência e voltarmos à questão do cadáver. Dizem que os nossos cadáveres tecnicamente evaporam (só que, como são mais complexos que a água, são ditos como objetos de um processo mais complicado e detentor de um nome mais pomposo) e/ou são consumidos por outras existências, umas que vivem debaixo da terra, aonde geralmente vamos parar depois de uma vida cheia de glórias ou cheia de desonras, pouco importa, e aquilo que nos tornara uma vez unos (o corpo e todo o seu volume atômico) vai se repartindo entre milhões de indivíduos microscópicos que eventualmente morrerão e serão absorvidos por coisas ainda menos visíveis ou mesmo diferenciáveis. Então chegamos a algo parecido com o statu quo ante, ao início de algo novo e provavelmente diferente. Voltamos (ou será que devo dizer “volta-se”? Quem sabe “procede-se”?) às milhões de quase-existências que um dia se juntarão para formar uma nova (repito, uma), que então morrerá (ou, mais objetivamente, se redividirá) e então repetirá o processo apenas para se tornar um cadáver outra vez.

(Eu avisei e não foi à toa.)


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Anoitece

Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a textura da noite ali como se fosse a primeira vez que a provasse. Podia-se ficar realmente vazio ali, não se podia? E não é senão o espaço desprovido de luz, o aparente vazio, aquele que costuma ser o palco mais propício ao teatro da mente? Não era de se espantar, afinal de contas, que quando menino ele ficasse à janela procurando por sinais de vaga-lumes. E não é como se ele se lembrasse, mas é que ele ainda hoje ouvia, de vez em quando, que tinha sido uma criança imaginativa. E isso o levava a pensar que quando os insetos luminosos dançavam diante de seus olhinhos inocentes em piruetas irregulares, era provável que, análogo ao modo com que nisso remexiam o ar como fazendo cócegas em sua onipresença, também afastassem, com suas pequenas centelhas, quaisquer figuras e personagens que pudessem porventura vagar em algum lugar no interstício de suas retinas e o fundo de sua cabeça, onde a dança é de vultos repletos de significados abstratos e nunca únicos. E muitas vezes terríveis, também.

De repente se viu debruçado na janela, o único lugar daquela velha casa que ainda aparecia com clareza em suas lembranças. Agora mirava o jardim lá fora, quase que todo afogado na escuridão, não fosse por um retângulo amarelado da luz que escapava da janela da sala de estar lá embaixo. Já não havia mais vaga-lumes para se ver ou se contar, era verdade. Para onde será que eles tinham se mudado, hein? E então, quando levantou os olhos, espantou-se com o céu como se fosse a primeira vez que o visse. E, enganado por sua memória que tinha um gosto por esquecer-se de imagens vistas há tempo demais, ele inocentemente acreditou que talvez fosse a primeira vez mesmo. Era tão diferente. A infindável abóboda lá no alto, ele viu, era uma explosão de cores, o que fez com que ele se questionasse se não tivera sempre aquela certeza de que estrelas sempre tinham sido brancas. Bem, se antes tivessem sido, agora claramente não eram mais. Via luzes vermelhas e azuis cintilando em seus pequenos pontos do céu, e essas eram apenas alguns exemplos.

Baixou os olhos para a linha do horizonte, mas não viu linha alguma. Os morros que guarneciam o prado tinham sumido no escuro, tendo se misturado com o próprio céu. Até as árvores do bosque ali próximo à sede ficavam debaixo do frágil espectro azulado que os reflexos do sol na lua minguante produziam. Ficavam ambíguas. As nuances o fizeram pensar no espaço daquele pequeno rasgo de tempo como uma substância vaporosa que pairava na existência sem um formato definido ou mesmo uma cor muito certa. E então, quando ele olhou mais uma vez, tudo se transformou em céu. Precisamente aí, sentiu-se leve, tão leve, que foi como se tivesse flutuado até a cama, de onde tirou lindos e silenciosos sonhos sobre cometas viajando devagar, talvez no ritmo de sua própria respiração, num espaço sideral tingido de vermelho, alaranjado, branco e azul.


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Gato de botas

Estava escuro, mas não tão escuro que as pessoas sentadas no bar do outro lado da rua não pudessem enxergá-la. Ela sentiu o carro parar, deixou-se arquear para a frente, depois olhou para o lado. Mas bastou o olhar que (quase não) recebeu de volta para que ela soubesse que despedidas ali seriam dissonantes. Então (quase não) deu um sorriso. Foi uma coisa áspera que escorreu pelo canto da boca e não aliviou em nenhum grau o peso que fazia o rosto todo cair numa expressão fechada, mas legível. Pelo contrário, a entregava. E a luz não ajudava. Porque era bastante. Abriu a porta e deixou o silêncio no ar refrigerado lá dentro. Quando saiu, sentiu uma lufada de subúrbio passar por baixo da saia. O carro partiu e ela sentiu ficar quase nua. Sentiu que todos os olhares (não) encontraram o dela. Espetando, censurando, reprovando. Remexeu o cabelo tingido de loiro como se aquilo pudesse consertar sua postura, ou mesmo restituir algum tipo de certeza que não tivesse máculas. Arrumou a saia. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Não vinha outro carro, mas não conseguiu atravessar a rua. Então se limitou a se sentar no meio-fio da calçada cheia de fuligem ali atrás dela, e se enojou por se sentir em casa. Ignorando os olhares inquisidores (cientes), permitiu-se desabar. Chorou lágrimas quentes, tempestuosas, e elas gotejaram da sua face fina (tão cara) para a sarjeta. Escorreram com o seu orgulho para o bueiro mais próximo, onde se perderam para sempre. Mas ela em si permaneceu, à mostra. Na verdade, ali estava só o seu nome. E todo mundo olhava.


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Meia-noite

Então passou da meia-noite, mas cadê a diferença? O que é que mudou em mim que agora eu posso assistir àquele filme de terror que eu não podia ver há umas três semanas atrás? Passou da meia-noite e de repente eu virei dono do meu próprio nariz. Ainda que a minha mãe não realmente queira dizer o mesmo, é assim que a Justiça me vê agora. Imputável. Palavra austera. Acho que não combina comigo. Mas o que fazer? Era um contrato que estabeleceram (o sujeito semanticamente indeterminado tem total razão de ser) exatamente quando eu nasci, e que, apesar de não levar assinatura minha ou de um juiz da enésima vara de sei lá que esfera, tem o poder e a credibilidade de um postulado. Um sujeito abstrato que talvez possamos chamar, com pelo menos algum grau de acertamento, de praxe ou senso comum, determinou: “esse menino será considerado cidadão legal no primeiro segundo do dia 25 de março de 2009!” Eis que o dia chegou, e para mim ele é quase fatídico. Cumpriu-se a parte do tempo no pacto: dezoito anos se passaram desde então. Será que eu sou mais maduro agora do que eu era, não sei, no último dezembro? Provavelmente, eu ouso dizer. Afinal, a partir de hoje eu não posso tirar uma licença de direção? Sem falar que, para todos os efeitos (os legais principalmente), também a partir deste dia eu posso consumir bebidas alcoólicas mesmo que eu ainda preserve a cara de criança. Isso para não falar da permissão que eu acabei de ganhar de entrar em boates. Quanto poder num número! Cruzar essa tênue linha que há entre duas idades é uma experiência peculiarmente curiosa. Tanto mais quando se a cruza pela décima oitava vez. É um gosto estranho esse que estou levando comigo para a cama agora. Enfim é a minha vez. Pelo menos por enquanto não estou sentindo nada diferente – estou quase certo disso. Se, quando eu acordar de novo, eu sentir que sou praticamente outra pessoa, aviso vocês. Mas nem por isso pensem que eu acho que isso não é nada demais. O sistema me modulou direitinho para que eu pense justamente o contrário, de modo que eu absolutamente não poderia dizer algo muito distante disso ou de um jeito muito diferente desse: dezoito anos, porra!


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Remédio santo

A notícia é velha, mas o Fantástico me refrescou a memória num dia que está para atualizações.

Parece que descobriram os criminosos responsáveis pelos amores que não dão certo e pelos amores que dão, e eles estão em via de ser presos em pequenas cápsulas edíveis. Os cientistas andam dizendo que são dois hormônios chamados oxitocina e vasopressina. O mercado farmacêutico já os investiga. E querem saber de uma coisa? Vou fazer uma profecia aqui, só entre nós. A utilidade é dupla: se ela não se confirmar, ninguém vai ficar sabendo, mas, se por acaso acabar se confirmando, então você vai poder dizer para todo mundo que conheceu alguém que já dizia isso havia tempos.

Vai ser assim: a Igreja Católica vai convocar secretamente para uma assembléia extraordinária os mais tradicionais arcebispos do mundo e das câmaras subterrâneas do Vaticano vai subir a decisão de que o Papa e a Igreja endossam as pílulas porque <insira aqui uma desculpa esfarrapada embasada em obscuros estudos teológicos entremeados com constância pelas palavras “Deus” e “Providência”>. A partir desse histórico evento, a revolução virá a jato: novos cargos surgirão nas cerimônias matrimoniais: os porta-pílulas, que entrarão antes dos porta-alianças, trazendo nas mãos dois comprimidos para os pombinhos. Eles os tomarão com água benta, jurando que querem pela vontade que é livre e espontânea

(sempre me perguntei se existiria outra)

ficar juntos para todo o sempre, e então trocarão alianças. O padre casamenteiro ficará então encarregado de visitá-los a cada <insira aqui a duração dos futuros remédios> para realizar a Santíssima Reconsagração do Matrimônio que os críticos do catolicismo chamarão de Utilíssima Reincidência do Medicamento. Permanentemente dopados com níveis de oxitocina nas alturas, nunca se divorciarão, e a Igreja enfim andará feliz e saltitante de mãos dadas com a Ciência.

Quem diria que dois delinqüentes poderiam mudar tanto o mundo?…

Espera, eu ainda não posso falar desse jeito. Afinal, o Papa ainda não se pronunciou sobre o assunto.


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Hoje ouvi mais uma vez alguém perguntar aos sussurros se eu não acreditava em Deus....
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