Posts feitos em julho 23rd, 2007

In memoriam

Engraçado como, em certos pontos da vida, uma linha do tempo que parece estender-se infindavelmente longa faz-se tão curta que pode ser vislumbrada e claramente compreendida em um pequeno esforço de memória. Ao matizar uma série de fatos que se ligam comitativamente e considerá-los em separado de todo o contexto em que estão, então o tempo se amotina em um espaço pequeno e facilmente entendível – daí a ilusão de que tudo aconteceu no dia anterior. De fato, agora mesmo, os minutos que precedem o momento em que escrevo isso estão se juntando aos meus outros momentos em contato com a estupenda saga de uma autora que remanescerá, certamente, uma das mais importantes da época na qual nós vivemos. Falo, é claro, de Harry Potter e de J. K. Rowling.

Agora mesmo, lembro-me tão claramente do meu primeiro contato com este mundo fantástico quanto me lembro da última palavra que acabo de ler, em uma página que, por sua importância, me fez chorar – algo de que não me envergonho. Seis anos atrás lá estava eu, caminhando pela área do cinema de um shopping, quando me deparei com o Espelho de Ojesed diminuído, é claro, a uma cópia de papelão armado e uma superfície refletora que me distorcia e que foi capaz de capturar minha atenção por alguns minutos, até que fui alcançado por minha mãe. Acima do espelho, figurava em letras garrafais o título “Harry Potter” e lançava-se sobre mim, por uma força desconhecida, um feitiço atordoador chamado curiosidade, perfeita e até ironicamente bem-descrito, simplesmente, por “encanto”.

Neste mesmo dia encaixam-se as quase duas horas que passei no cinema, maravilhado, naquela idade e naquela condição ainda me questionando sobre a possível verossimilhança da história que absorvia ali, pensando que talvez eu pudesse estar em Hogwarts no ano seguinte, quando eu completaria 11 anos. O primeiro — e talvez maior — mérito da contribuição de J. K. Rowling avultava-se já ali, na minha frente, e eu nem sequer me dava conta disso.

Foi através do disse-me-disse recorrente que eu acabei por descobrir que o filme vinha da história de um livro, do qual já havia ouvido falar vagamente por uma amiga que o tivera lido. Na época não havia ainda me livrado do medo tolo das páginas repletas de letras que andavam em bando e chamavam-se “livros”, e ainda me conservava fatigado por antecipação de me aventurar em um tipo de universo que se mostrava apenas a quem tivesse a paciência e a coragem de se aventurar nele. Disposto a decodificar melhor o univero de Harry — e talvez porque eu realmente queria que ele se tornasse mais real para mim — eis que pedi à minha mãe um exemplar d’A Pedra Filosofal. Seria então com um pacote consideravelmente grosso, ganho, na verdade, do meu pai, que eu teria o meu contato de estréia com aquele universo até então tão adverso ao meu: o universo dos livros. Em minhas mãos, eu recebera os quatro primeiros volumes de uma história que só viria a terminar hoje, seis anos mais tarde, em uma hora da madrugada que, de volta naquela época, eu nem sonhava testemunhar.

Enquanto eu lia cada um dos volumes e crescia, aprendia que era tudo uma história de ficção, e que nada daquilo era real, mas também me esforçava para ser digno da Grifinória, tornando-me mais corajoso do que antes; descobria que não existia Hogwarts no mundo real, mas também descobria que ela era, para os bruxos de J.K., o mesmo que o colégio era para mim. Esta última noção me golpeou, tão longe quanto posso me lembrar, quando a chegada de uma coruja com a minha admissão para uma Escola de Magia e Bruxaria consolidou-se como um não-evento no meu décimo primeiro ano de vida.

De qualquer forma, foi através deles que eu descobri que livros eram o que havia de mais próximo de mágico que eu podia encontrar no mundo real. Mais do que me entreter, Harry Potter me ensinou a gostar das palavras, a extrair o entendimento delas, a ter vontade de usá-las para transformar o meu pensamento em um código compreensível para qualquer um, ou pelo menos muito mais palpável do que pensamentos que flutuam nos confins da minha mente; Harry Potter me incentivou a encontrar todos os outros vários universos paralelos que me rondavam, e os pontos finais todos de cada uma das histórias que passei a ler, que sempre me aguardavam em suas últimas páginas — que tinham de ser conquistadas, caso eu quisesse extrair delas não só as respostas, mas também a moral das histórias que, com algum propósito, desenvolviam.

Nos anos que se passaram entre a publicação dos últimos três livros, envolvi-me cada vez mais naquela história que aprofundava-se e ramificava-se bem diante dos meus olhos, procurando entender melhor os pontos menos claros, apreciar certas minuciosidades, prever o futuro da série e jogar dentro do quebra-cabeça que J. K. Rowling nos apresentara. No caminho percorrido até o sétimo livro, que terminei um átimo atrás, eu me senti tão parte do grande plano quanto Harry, Rony e Hermione, tão afetuoso quanto aos rumos da história quanto a própria autora e, ao mesmo tempo que um personagem, senti-me um espectador, um espectador que se juntou a outros milhares, sentindo-se lisonjeado por testemunhar o desenrolar dos acontecimentos com os próprios olhos, tão senciente ao futuro quanto às personagens, que acabam ganhando vida também.

Eu me orgulho de forma incomensurável, talvez pela grande afeição que desenvolvi pela história, de ter testemunhado a publicação dos sete livros de Harry Potter, e de poder dizer que eu tive a oportunidade de me emocionar com ela em uníssono temporal com o mundo todo. O que eu vi ganhando forma é algo que, tenho por certo, tornar-se-á um clássico do passado, do qual eu, de certa forma, tive o prazer de fazer parte.

Alcancei a última página e nela as respostas, a moral, e, estando absolutamente impressionado por tudo isso, como um conjunto, sinto-me obrigado a dizer algumas palavras, mesmo que ao léu de um vento particular:

À J. K. Rowling, a minha mais profunda admiração; a Harry Potter, o meu adeus. E a ambos, deixo o meu muito obrigado por tudo, tudo mesmo, mas, principalmente, por terem tornado as nossas vidas, de um modo sem precedentes, muito mais mágicas!

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