Posts feitos em janeiro, 2008

O circo no pão

Sozinho, o ser humano é o que chamamos de animal racional. Em sociedade, no entanto, ele se entrega a instintos tão primitivos e abomináveis que se rebaixa a um “animal” assim simplório: sem adjetivações ou mesmo eufemismos que o separem das famintas hienas ou das argutas raposas. Afinal de contas, não foi à toa que Thomas Hobbes uma vez disse que o homem é o lobo do homem.

Testemunhamos, ao longo de nossa história social, a ascensão e a queda de muitas formas de política, que aos poucos construíram os moldes da nossa atual organização. Algumas delas retornam de tempos em tempos, sob novas facetas e novos nomes, com algumas alterações de contexto que as mascaram com perfeição. A política do Big Stick de Roosevelt ressurge, mas desta vez disfarçada no fastuoso poder econômico estadunidense, que oprime não por força bélica, mas pela própria política; o governo populista de Getúlio Vargas repete-se na Argentina de Kirchner, onde medidas que inicialmente pareciam promissoras agora mostram-se a causa de uma consistente ameaça de caos energético, e a política do pão e circo continua a ecoar em todo o mundo. À volta desta, muitos dos nossos problemas gravitam.

Foi em uma Roma intumescida e passível de insurgência que o futuro sofreu o importuno golpe; o império, ao entender a mecânica do homem lobo, descobriu a forma conveniente de dominar o animal racional com eficácia: dar-lhe comida e diversão para distrair-lhe a fome e o desgosto, e assim anestesiar suas demais preocupações. Nascia, então, o panem et circenses: pão e circo para o povo, prosperidade para a pólis; nada mais que uma droga analgésica, cujo efeito é sempre assaz passageiro para não aliviar toda a crise de algia.

Quando a razão iluminista tomou a França por conta e moveu o Terceiro Estado daquele cenário a clamar por mudanças através da revolução, não havia pão ou circo; e foi nesta falha em que morou a causa determinante dos resultados daquela década de reformas, os quais todos conhecem muito bem. Se a classe dominante caiu sob a força opressiva dos dominados foi porque não houve a sagacidade que Maria Antonieta reclamou quando recomendou que, ao povo faminto, fossem dados brioches. Já que, aliada à influência burguesa, a fome foi sem dúvida a âncora de toda a revolução, evitar-se-ia o naufrágio se simplesmente a desatassem por fim. Entrementes, daí enfim se tirou a lição: tudo tende a ficar bem desde que haja o pão, amassado por quem quer que seja. Os dominantes realmente aprenderam — e está aí mais um efeito colateral da Revolução Francesa — a aproveitar-se da fragílima ingenuidade do dominável.

Em sua condição de animal desprovido de adjetivos, o homem configura-se, socialmente, um míope. Sem o devido auxílio, não é capaz de enxergar o que há à sua frente, e assim perde-se em seu próprio meio. Encaixa-se em uma rotina, segue ordens e, por nunca questionar-se os motivos, lança-se em seu próprio buraco e o torna, com essa mesma alienação, cada vez mais profundo.

E não é muito difícil perceber a distração do olhar crítico: ela está em todo lugar em que há passividade. Consideremos o próprio Brasil. Recentemente sediamos os jogos Pan Americanos e enquanto isso, para citar alguns exemplos, o acidente de um avião comercial na metrópole paulista consolidou-se a pior tragédia da aviação brasileira, os aeroportos continuaram caóticos e a novela da corrupção política continuou a se desenrolar sem intervalos, mas ainda assim foi colocada em segundo plano; sua importância eclipsada pelos jogos. Mesmo em face de tais eventos, não houve reação — o circo distrai, o povo canta.

Não é de se espantar que, no nosso Brasil brasileiro, a política do pão e circo até possua um nome: “Fome Zero”. Irônico e ácido. E sob essa perspectiva fica óbvio que os chamados “programas de transferência direta de renda” englobados por este ás, que supostamente acodem as necessidades das massas carentes de nossa demografia, nada mais são do que atalhos convenientes ao mesmo tempo que grandes economias de verbas; são serviços mal prestados, mas muito bem enfeitados.

Afinal de contas, as obrigações do Estado para com o seu povo concernem muito mais do que incentivos como o Bolsa Escola — mais do que oferecer uma módica ajuda financeira mensal e importar-se tão-somente com a educação básica de um indivíduo, deve haver a preocupação com a sua formação crítica, o seu acesso à informação e a sua inserção no mercado de trabalho. As necessidades desta camada vão muito além de cestas básicas e rendas adicionais. Mais que isso, é crucial dar ao povo as condições de obtê-las; seja facilitando acessos, enxugando burocracias ou gerando oportunidades, o enfoque deve estar nas contingências do futuro, e não apenas nas pequenas coisas do presente.

É importante que se perceba que o animal racional e o ser social são diretamente dependentes. O olhar crítico deve unir-se às ambições inatas assim como o instinto deve aguçar a razão, e nunca uma coisa ou outra. Para que se crie uma nação pensante, crítica e capaz de conduzir o presente ao futuro, é preciso que primeiro nasça a racionalidade no homem social, para que depois existam ideais a serem altercados — é somente a partir desta premissa que se engendra o aperfeiçoamento. E isso só tornar-se-á possível quando a nossa Educação não mais refletir a impertinente miopia social e novas óticas surgirem, convergindo para um único ponto com um único foco: o progresso. O progresso através da consciência crítica.

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O mal do século

Vivemos o alvorecer de um novo século, ao qual culminam as ciências do passado e as óticas do presente, que, juntas, sintetizam a apoteose de todos os méritos do homem – infelizmente, nem todos honráveis. Ao passo que nos aproximamos cada vez mais da ficção dos filmes de Spielberg, também nos distanciamos das ficções dos filósofos dos tempos antigos.

Opõem-se, neste cenário futurístico, duas realidades criticamente distintas: se de um lado temos a prosperidade tecnológica, do outro temos o caos social. Enquanto assistimos às conquistas e aos progressos da medicina e da robótica, convivemos com problemas como a fome e a desigualdade que, matizados, criam problemas tão grandes que eclipsam todo o progresso – violência, criminalidade, pobreza de espírito. É por isso que vemos, nos noticiários, muito mais novidades ruins do que boas. Por mais que muito se fale na Educação quando se trata disso, o foco do problema vai muito além: o mal do século é a indiferença. As deficiências da educação científica, moral e ética gravitam em torno disso.

Não se transmite, nas famílias, a educação mais básica de todas – a social –; não se formam, nas escolas, cidadãos críticos, mas se procriam formandos alienados e míopes; não se colhem, nas ruas, possibilidades para o futuro, mas se destroem personalidades e distorcem ideais. Com isso tudo, não é difícil entender por que a juventude deste novo século mostra-se tão caótica. Os governos, as políticas, as escolas e as famílias são, de modo geral, indiferentes, e em um contexto assim vil, não há caminho que leve à solução. Primeiro é preciso que o próprio homem se reforme e se preocupe com o seu futuro, para que depois seja possível construí-lo sob o molde de todas as ficções existentes – os sonhos dos jovens do hoje, os sonhos dos pensadores de outrora.

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