Posts feitos em abril, 2008

Caminhos

De muito chorar, os seus olhos ardiam-lhe. Agora já estava calmo, mas enxergava turva a nesga do céu negro e sem estrelas que os fios metálicos da grade da janela lhe permitiam ver. Sentia um forte cheiro de camomila invadindo seu quarto e era quase como se, ao mesmo tempo que estivesse sentado em sua cama, também estivesse na cozinha, o cômodo ao lado. Podia ver a cena: sua mãe, ao fogão, preparando o chá e tentando conter as lágrimas, e seu pai às costas dela, debruçado sobre a bancada com o rosto afundado nas mãos, ainda murmurando, com a respiração pesada, palavras mistas de arrependimento e desgosto.

O abatimento dela, a cólera dele, tudo pesava sobre seus ombros com o peso do mundo. Palavras e imagens sucediam-se em um turbilhão por trás dos seus olhos vazios e opacos. Como se houvesse parado para deleitar-se da soturnidade que se abatia sobre aquela casa, o tempo passava devagar — os segundos pareciam demorar-se minutos inteiros antes de terminarem suas contagens. Ouviu um som de passos vindo do outro lado da parede e no mesmo instante enxergou a sua mãe entornando, com resignação, o chá na xícara ante o seu pai, e ele lançando-lhe um olhar reprovador, deixando bem claro de quem era a culpa.

No quarto, Fernando colocou-se em pé. Respirou profundamente e foi tomado por uma calma que não era sua, e um momento de clareza elucidou-lhe o que faria em seguida. Ficou surpreso consigo mesmo ao perceber que tinha clara agora a decisão que vinha avultando-se aos poucos em sua mente. Havia saída, sim, uma única e óbvia: fugir. Fugir e esquecer, ao menos por enquanto, ele pensou. E depois passou a agir quase inconscientemente.

Caminhava rapidamente, mas sua mente divagava em outro ritmo, e por um mundo de todo adverso àquele que pisava. A cidade dormitava — era só o silêncio da ausência dos passantes e as luzes amareladas dos postes intermitentes. E ele, por outro lado, era de todo caos. Não era intrigante o modo com que os papéis se invertiam de uma para outra hora?…

Quando se deu conta, estava na calçada de alguma rua que não pôde identificar e havia uma corrente de ar quente soprando em sua face. Parou. Na memória, apenas uma vaga lembrança de ter passado pela sala de estar do apartamento, e ter-se visto dentro do elevador pouco antes de passar pela cabina do porteiro — a sensação de que o homem o observava por trás do vidro fumê ainda era bastante viva. Voltou-se, por uma vez, ao exterior, e achou-se frente à escadaria do metrô, donde escapava o ar quente que o envolvia.

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