Caminhos
Desceu-a só por descer, e encontrou ali um grupo de pessoas vestidas em trapos escuros. Eram cinco, talvez, não sabia dizer — estavam amontoadas demais em volta da máquina de refrigerantes. Ou era o mapa itinerário o centro das suas atenções? Não importava. Despreocupado, ele sentou-se em um banco e cruzou os braços, observando a escuridão do túnel. Então fechou os olhos e deixou-se estar, com o burburinho daquelas pessoas distantes ecoando em seus ouvidos.
— … E também não nos ouve — repentinamente uma voz feminina fez-se ouvir, perto demais. Sentiu um frio cortar-lhe o estômago e abriu os olhos, sobressaltado. As cinco pessoas estavam paradas à sua frente agora, e ele nem ao menos notara o movimento. Teria cochilado?
— Ei, gente boa, está tudo bem — isto foi um homem quem disse. Ele não conseguiu focar-se nas feições dele. — Não queira enxergar o interior através da superfície, as pessoas não são como água. Você parece perdido…
— Em mim mesmo — ele replicou, sentindo sua garganta doer um pouco. Era a primeira vez que falava em um longo tempo —, quem sabe?
Percebeu que estava reclinado no banco. Trouxe as costas de volta ao encosto e empertigou-se. Massageou a garganta e olhou para o homem mais uma vez: tinha a barba por fazer, e havia alguns fios brancos nela, bem como havia em seus cabelos curtos. Mas ainda assim percebia algo de muito jovial ali. Os olhos, talvez — eles brilhavam como uma estrela recém-nascida. E ele sorria um sorriso cativante, também. Via pureza e sinceridade ali.
— Achei que fossem pedintes, mas parece que errei — ele disse, passando os olhos pelos demais.
— Mendigos metidos em trapos refugiando-se na solitude de um metrô. Foi o que viu? — ele identificou naquela voz aquela que o acordara momentos antes. Pertencia à mulher de olhos verdes. Havia ainda uma outra mulher no grupo, que os tinha negros.
— Precisamente.
— Nós podíamos ter visto um drogado neste rapaz com olhos vermelhos que dormia em um metrô suburbano, não é mesmo? — ela indagou, sorrindo. — Aí não nos importaríamos em deixá-lo sozinho aqui embaixo e subiríamos sem te incomodar.
— E, de sua imparcialidade, o que foi que você viu?
— O ápice de uma grande decisão. Foi o que vi. Um garoto absorto em seus pensamentos convulsos, inconsciente de tudo em seu redor mas cônscio da vida futura. Agora estou vendo com mais clareza: um idealista incompreendido mas introspectivo, que se diz diferente para não se dizer superior. Vai, me diz, estou correta?
Ele permaneceu silente por longos instantes, apenas fitando-a, tentando entender como tinha deixado tanto do seu ser transparecer no não-dito. Se era um alguém assim tão fácil de se entender, por que só agora tinha encontrado alguém que o fizesse? Mas o mais intrigante era aquela facilidade. Deus, a facilidade! Toda a sua complexidade decomposta a tão poucas e acertadas palavras, e no espaço de tão pequenos instantes…
Escutou um barulho metálico longínquo escapar da escuridão do túnel lá do outro lado, e depois viu uma luz despontar dali, antecedendo o grande carro de ferro. Agora fazia-se ouvir o som do atrito dos freios da máquina contra o metal dos trilhos. Faíscas amarelas voavam. Quando elas desapareceram e os barulhos cessaram, ele voltou os olhos para os próprios pés.
— Em que ponto do meu pranto me tornei lágrima? — ele perguntou, com uma voz tenra e trêmula. Era uma pergunta para ele mesmo, que permaneceu assim particular por mais algum tempo de silêncio, até que aquele primeiro homem que falara a compreendeu.
— Você não é como água, amigo, fique tranqüilo — disse ele, pousando-lhe a mão no ombro. — Mas Sofia enxerga além do que os mortais como nós enxergam.
— Não fale asneiras, Roberto. Intuição feminina. — e então ela voltou-se para o garoto mais uma vez. — Qual o seu nome?
— Fernando — ele respondeu, com a mesma voz frágil —, meu nome é Fernando.
— Por que não se levanta, Fernando? — ela lhe estendeu a mão. — Por que não se levanta e vem andar conosco? Acho que temos muito o que compartilhar.
Sem se dar conta, Fernando aquiesceu. E foi levado de volta à superfície.
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