Caminhos
Fazia mais frio do que antes. Era inverno, ele se lembrava agora. Um dos homens a quem não dirigira ainda a palavra percebeu isso, esfregou as mãos e virou-se para o outro.
— Trouxe um isqueiro?
Ele nem respondeu. Puxou do bolso uma caixa de fósforos, tirou lá de dentro um palito e o riscou, enquanto o outro tirava um Carlton de um pacotinho amassado. Colocou a mão em concha sobre o cigarro, protegendo-o do vento frio que soprava, acendeu-o e arremessou o palito em uma cesta de lixo do outro lado da rua. Errou. Os dois riram e comentaram qualquer coisa. O homem com o cigarro virou-se, de repente, e seus olhos voltaram-se diretamente para o garoto.
— Eu podia te ensinar os caminhos da fumaça, se isso te apetece a alma. — tirou o maço do bolso mais uma vez e sacudiu-o em sua direção, sugerindo. Fernando sorriu e balançou a cabeça. Não, obrigado. O homem sorriu de volta, e então se virou e juntou-se ao que ia na frente.Os outros três começaram a caminhar também, e por um momento Fernando ficou para trás, parado próximo à escadaria do metrô. Depois olhou em volta, encurvou-se um pouco para se proteger do vento e os alcançou. Por longos minutos, compartilhou do silêncio deles, esperando que a qualquer momento alguém falasse alguma coisa. Como está frio, não? Mas não houve qualquer comentário e ele enfiou as mãos nos bolsos, deixou que seus olhos encontrassem o céu negro lá no alto e permitiu que sua mente iniciasse a viagem para dentro dele mesmo mais uma vez. Sem estar muito consciente disso, foi andando por quilômetros, talvez, de concreto, passando por um grado em que a quietude da cidade era cada vez maior, mas no qual o silêncio que aquelas pessoas faziam permanecia constante e completo. Por trás de seus olhos, reflexos de seus sentimentos ainda continuavam a desfilar…
— Garoto — alguém o chamou, depois do que lhe pareceu horas —, o que há com você?
Primeiro não entendeu. Fazia tanto tempo que somente os uivos do inverno enchiam seus ouvidos que a intromissão de uma voz humana soava destoante, estranha; como apenas um eco dos rumores etéreos de um precipício. Uma pergunta fora feita — fora a mulher dos olhos negros quem a fizera. Ele apenas a fitou, meio confuso. Havia perplexidade no rosto dela também, por algum motivo; curiosamente, era algo próximo de indignação.
— Esteve o tempo todo olhando para dentro. Por que não dá uma olhada aqui fora? Quem sabe a resposta que você procura tão insistentemente esteja aqui, e não confinada em seu peito?
— Quer dizer nesses prédios cinzentos, ou nessa gente vazia que os enche? — ele replicou com arrogância na voz. Detestava quando falavam com ele daquele modo, como se ele não soubesse pensar sozinho.
Sentiu vergonha da forma com que dissera aquilo, mas não se arrependeu de todo. Mesmo assim, não quis fitá-la — já tinha problemas demais por enquanto. Desviou a atenção para os seus arredores: estavam passando por um cruzamento agora, e não havia nem sinal de faróis em qualquer uma das direções. A garoa, uma das coisas que haviam feito famosa aquela cidade tão indigna, caía agora. Ele girou nos tornozelos e começou a andar de costas.
Viu Roberto e Sofia que, não muito distantes, conversavam em um volume tão baixo que mesmo o silvo do zéfiro frio e constante, tão brando, sobrepunha as suas vozes. Quando falavam, uma fumaça saía de suas bocas, rodopiava no ar e desaparecia.
— Tem uma coisa que ainda não perguntei —ele gritou para que os dois ouvissem. — Qual é a razão disso?
Roberto olhou dele para Sofia, sorriu para ela e, como se tivesse imbuído este sorriso de uma breve despedida, em seguida deixou-a para trás — acelerou o passo e alcançou Fernando.
— Achei que nunca iria fazer essa pergunta. Queria vir falar com você logo, mas Sofia viu em você o tipo que gosta de estar no comando. Ela nunca erra, aquela sabida.
E o homem sorriu, descontraído, e esfregou as mãos de um jeito que lembrava aquele com que o outro esfregara as suas, no início da caminhada. Fernando buscou os dois sujeitos com os olhos, e identificou-os longe além do cruzamento.
— Eu só queria que você sentisse o ritmo da nossa andança, Fernando, e que percebesse os nossos olhares sempre à espreita.
Por alguns instantes, Fernando apenas o observou.
— E por que tudo isso? Quem são vocês?
— Bem — ele começou, inspirando profundamente —, eu sou advogado, Sofia, psicóloga, e os outros três são todos empresários. Nós, como os estereótipos que existem nas cabeças de todo mundo, deveríamos estar, numa hora dessas, em nossas confortáveis casas, preparando-nos para a jornada que o sol seguinte vai trazer. Se bem que as pessoas costumam imaginar empresários como pessoas que fazem o próprio horário, não é? Mas isso é outra estória…
Ele riu de um jeito comedido, e seus olhos resplandeceram com aquele brilho jovial. Fernando sorriu, e depois deixou seus olhos se recaírem sobre um prédio que observara perifericamente. O homem voltou a falar.
— Nós, como nós mesmos, por outro lado, andamos em noites como essa simplesmente para fugirmos das nossas rotinas, na busca pelos incomuns que se perdem nos nossos dia-a-dias. Tem muita gente que se abisma, Fernando, gente que cai ante esse caos todo e acha que a vida aqui é um saco, que é tudo um inferno, um concerto de rock quando tudo o que se quer é calma… — e ele parou de falar um pouco, como se recobrasse algumas memórias distantes e agridoces. — Eu confesso que, quando enfim aceitei a sugestão que Sofia insistia dia após dia em fazer, estava bastante cético. Não fazia nem uma hora que caminhávamos e eu só queria chegar em casa logo, porque meus pés estavam me matando, fazia frio como faz agora e eu tinha esquecido meu casaco. Como eu poderia saber que ia passar a madrugada andando por essas ruas que patrolo todo dia com meu carro? Estava desapontado, se quer saber. Fiquei calado, bem como você ficou, e, quando eu finalmente me manifestei, bem como você fez, ela me disse um monte de coisas, bem parecidas com essas que eu estou dizendo agora. Mas o que me fez abrir os olhos, gente boa, foi uma coisa que ela disse e que nunca mais esqueci…
— E o que foi? — Fernando perguntou.
Roberto não respondeu de imediato, mas Fernando não protestou — permaneceu reticente e deixou que o homem continuasse a falar.
— Li um artigo no jornal, ontem — ele começou, adotando o tom prosaico de quem joga conversa fora —, sobre um médico que mora na zona sul do Rio, como tantos outros, só que na favela, como só ele. Lá na Rocinha, já ouviu falar?…
De início, Fernando achou uma idéia pouco crível. Conversa fiada, foi precisamente o que ele pensou. Ser um médico carioca exigia um certo nível intelectual, e até econômico, e estes eram dois níveis redondamente incompatíveis com os de uma favela. Mas, conforme ouvia os detalhes, o sentido começava a aparecer. Primeiro só uma fração, mas depois…
— … E ele respondeu que se mudara para lá só porque queria viver a vida que merecia — Roberto dizia. — Não é fantástico? Minha mulher acha que é só mais uma das massagens de coração de sempre. É assim que ela chama as notícias boas que os jornais enfiam nas edições, você sabe, pra ninguém dizer que eles não falaram das flores… Vírgulas que eles colocam entre as notícias ruins pra gente poder respirar um pouco. Mas eu não sei, não, Fernando, só sei que é fantástico. Que humildade, não? Minha vó diria que por agora já teria visto de tudo. Mas…
Mas Fernando parou de prestar atenção. Só soube que Roberto voltara o discurso para as favelas. Algo sobre matizes e contrastes, talvez; ele estava imerso em pensamentos de novo, mas dessa vez perscrutava os prédios que erguiam-se altos em todos os cantos. Um médico na favela, ele pensava, e na favela porque é ali que está a vida que ele merece. Talvez, ele ponderava, o meio fosse necessário, talvez um chão firme onde pisar fosse a sustentação que ele procurava, de que ele precisava para parar de cair, de se deixar iludir…
Um prédio comercial lhe chamou a atenção. Alto, imponente, cinza. Lia-se Bamerindus em sua fachada, em tipos grandes e verdes. A esplanada do edifício era toda feita em mármore, e canteiros bem-cuidados suntualizavam o caminho até as grandes portas de entrada que, àquela hora, estavam trancadas por grades. Um guarda sentava-se sobre uma cadeira de plástico em um canto, sorvendo uma bebida fumegante de um copo e observando. Fernando desviou o olhar.
— Incrível como eles se balanceiam, não é, Fernando? — ele percebeu que, de alguma forma, também estava prestando um pouco de sua atenção ao que Roberto dizia. Tinha uma vaga impressão de que ele ainda falava sobre contrastes. As diferenças abissais entre todos os tipos de pessoas que existiam nas cidades, e naquela em que viviam, principalmente. Era, era isso, sim.
Não tinha certeza sobre como sabia daquilo, mas de qualquer maneira se pegou meneando a cabeça, concordando. Ao mesmo tempo, continuava a absorver os detalhes da cidade. Era incrível, de fato, como os borrões da janela do carro eram, afinal de contas, não apenas muros e concreto, mas um painel em que se refletia o rosto da própria cidade. Bastava que se olhasse, e não apenas se visse. Nos muros sujos da fachada de uma clínica, alguém pichara os dizeres “A Vale é nossa”. Ele ficou boquiaberto por alguns instantes. Como podia uma pessoa que picha ser assim inteirada e assim crítica quanto a coisas tão omissivas?
— Nas cidades, são os carros e as gentes passantes as engrenagens que movem os próprios dias, não é mesmo?
E Fernando sempre aquiescia, admirando a nova cidade que ia surgindo. Observava as centenas de janelas verde-esmeralda de um prédio branco e imaginava quantos e tantos tipos de famílias podiam viver detrás delas. Quantos Fernandos observavam esverdeado o céu negro e sem estrelas através delas? Ele parou de pensar por um instante, porque teve a impressão de que Roberto voltava a falar daquela coisa que Sofia lhe dissera, em sua primeira vez naquela andança.
— Sabe o que faz de tudo assim tão frenético? É o que eu te indago, bem como ela me fez. Sabe o que move estes fluxos todos? Mesmo quando ela me dirigiu uma pergunta, eu continuei calado, bem como você ficou esse tempo todo em que eu falei. Mas agora eu sei, Fernando, como você também vai saber, e agora eu vejo isso em todo lugar…
Fernando parou de andar e encarou-o. Roberto também o encarou, mas não parou de caminhar. Seguiu andando no mesmo passo comedido e disse, da distância:
— É a busca pela felicidade, Fernando, a todo instante. Que mal pode haver nisso? — ele concluiu, e depois acenou brevemente. —Já está quase amanhecendo, nos separamos aqui. Espero te encontrar mais vezes, sim?
Fernando ficou ali, parado, apenas sentindo a brisa constante acariciar os seus cabelos. Depois sacudiu a cabeça e girou nos tornozelos, vendo que agora eram as duas mulheres do grupo que estavam atrás.
— Acho que ainda temos muito o que compartilhar — ele ouviu a voz de Sofia dizer quando passaram um pelo outro. Sem parar de caminhar, ele virou o rosto e acenou para ela. Depois olhou para o céu; as nuvens começavam a tingir-se de cores. No leste, uma coroa alaranjada de luz se fazia ver por trás dos montes.
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