rss search

Caminhos

line Caminhos

Ao longo de toda a avenida, os semáforos que piscavam em amarelo como luzes de natal, bem como os postes com suas luzes amareladas, começavam a ser ofuscados. As gotículas da garoa, percebeu, refratavam-nas nas sete cores do arco íris. Em algum lugar, pássaros assoviavam cantigas doces que falavam de uma tranqüilidade que ele nunca conhecera na cidade em que sempre vivera — mas agora ela era outra, não era? As árvores frondosas e verdejantes da calçada, e também aquelas da praça que via na distância, dançavam todas ao sabor de um vento aprazível, luzindo orvalhadas. E, se prestasse bem atenção, podia ouvir o farfalhar das suas folhas e um tímido som de movimento. Então um carro passou cortando a outra via, mas não o incomodou. De alguma forma, o ronco do motor parecia uma parte essencial da música da cidade que acordava… Não, ele se corrigiu, ela nunca dorme.

Quando chegou à praça, o céu lá no alto fulgia repleto de nuvens muito brancas. Os raios de sol escapavam por entre as nesgas da brancura e, embebida no alvorecer do dia, a praça abria-se como um venturoso recorte auriverde no esmaecimento da cidade. Já começava a esquentar. O arvoredo, de palmeiras, mangueiras e até uma grande sequóia, projetava sombras oblíquas que se lançavam até quase a metade da larga avenida. Dois senhores, ambos com chapeuzinhos de golfe, sentavam-se a uma mesa quadriculada, jogando xadrez. Próximo dali, havia um banco de madeira voltado para uma rua afluente da avenida. Ali Fernando se deitara, observando as abóbadas das árvores dançarem lá no alto.

Um homem vestido em trapos cinzentos o abordou.

— Este banco é meu — ele disse.

Fernando olhou em volta, como certificando-se de não estar louco. Como pensara, havia dezenas de outros bancos espalhados por todos os cantos imagináveis, todos vazios. Um dos senhores distraiu-se do seu jogo e observou por alguns instantes os dois parados, se olhando, antes de o adversário fazer seu movimento e bater no relógio. Clique-clique. Fernando fitou o rapaz: tinha os olhos ausentes, quase vítreos, e cabelos bagunçados que lhe conferiam um ar de louco. Fernando colocou-se sentado no banco e deslizou para um lado, abrindo espaço. O homem fez-lhe uma careta, desconfiado, mas logo sentou-se ali.

— Só a busca pela felicidade, certo? — Fernando disse baixinho, rindo consigo mesmo.

— Certo — o homem concordou.

Fernando riu de novo, e observou uma moto atravessar o afluente, ganhando a avenida. Aos poucos, mais pessoas começavam a chegar à praça, quase todas vestidas em trajes de cooper. Em alguns minutos, já se ouviam buzinas de carrinhos de picolé e buzinas de carro, que fluíam de um para outro lado. Do outro lado da avenida, sob a marquise de uma loja, viu uma mulher assentar um carrinho verde no qual se lia “Água de Coco”. Remexeu os bolsos da calça jeans enquanto ela tirava copos descartáveis de um compartimento. Encontrou uma surrada nota de um real ao mesmo tempo que ela abriu o guarda-sol verde e branco. Andou até lá demorando-se, sem pressa, deu-lhe o dinheiro e retornou ao banco com uma fruta, caminhando no mesmo passo, bebericando o líquido gelado. Sentou-se.

— Quer? — ele estendeu o coco para o louco sentado ao seu lado, que fez aquela mesma careta mais uma vez, mas aceitou.

Olhou em volta, ainda achando incrível o modo com que os papéis vinham se invertendo o tempo todo aquele dia. Inspirou fundo enquanto o doido sugava o canudo, chiando, com seus olhos girando para os lados quase à espera de alguma ameaça. Fernando cerrou os seus olhos, sentindo-se bem e satisfeito — agora, percebia, os sons da cidade juntavam-se naquela costumeira harmonia de caos. E ele, por outro lado, era de todo placidez.

— Incrível — ele murmurou.

— ‘Crível — o louco ecoou, ainda com o canudo entre os dentes.

1 comentário

line
  1. Felipe Albuquerque

    Parabéns pelo blog! A patir de hoje você tem mais um leitor acíduo.

    line

Deixe um Comentário