Posts feitos em junho, 2008

Noir – primeira percepção

Espere. Só por mais um instante, porque desta vez a causa é válida. O vento acabou de mudar de direção — agora vem da orla —, posso sentir o cheiro do mar e tenho a impressão de que o ouço, também. E se eu cerrar bem os olhos, assim, quase enxergo as ondas escuras quebrando na praia, avançando em brumas silenciosas e serpeando de volta à penumbra, levando consigo um pouco mais da encosta. Não, não há dúvida: posso realmente sentir o som espumante. Então estendo os meus braços bem abertos, assim como descerro as minhas pálpebras. Reverencio, uma última vez e com uma breve e comedida mesura, a cidade que se amontoa dentro dos limites da minha visão como um daqueles filmes antigos de que ele tanto gostava: muda e sem cores. Como ele, também; ele e seus sorrisos monocromáticos. Sinto a brisa úmida e cálida tocar-me a pele, acariciar-me os cabelos, preencher-me os ouvidos com um uivo baixo e nada mais. Este silêncio! É tudo que eu sempre busquei; nunca imaginei que o encontraria aqui, e assim tarde. Uma pena. Isso também tem suficientes méritos para que eu me demore mais alguns momentos, só para lhe dedicar alguns destes meus pensamentos finais. Inspiro a tranqüilidade, sentindo-me amortecer. Inclino-me à frente e observo a rua do prédio: há dois carros negros estacionados — deve haver mais embaixo dessas árvores todas —, e um casal está atravessando a rua agora. Ele a segura pela cintura e parece dizer algo em seu ouvido. Minha mente de menina se põe a divagar o que seria. Uma jura, quem sabe? Espere, a direção do vento mudou mais uma vez. Agora ele traz sons distantes de buzinas e o cheiro acre de fumaça. Mais do mesmo, do velho caos; não preciso disso nem por outro minuto. Olho a ruela de novo: o casal já passou, ou talvez apenas se esconda sob a sombra mais densa de alguma das árvores. Olho para trás uma última vez e vejo que não há ninguém, é claro. Abro ainda mais os braços e salto para as buzinas. Tento inspirar a tranqüilidade.

Não sinto cheiro algum.

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Fragmento

Tive um sonho ruim a noite passada, e não posso ainda fechar por uma vez os olhos sem que ele me volte à memória. E lá eu estou de novo, acomodado em uma poltrona grande e azul, vendo através da janela a asa do avião debater-se violentamente. Algo pesa em meu estômago, ao mesmo tempo que não sinto o meu próprio peso, como se eu fosse só um espectro, fora de qualquer campo de gravitação. A não ser o da asa, que chama os meus olhos e não me deixa revolvê-los. É na verdade bem isso: eu tento desesperadamente virar o rosto, mas simplesmente não posso. Atenho-me a vigiar a ponta vibrante da asa, mesmo sabendo que há algo de terrivelmente errado. Soa um estampido rápido e há um breve solavanco. Máscaras amarelas caem ao tempo que soa uma voz distante. Abro meus olhos: embrulhos multicores sobre a mesinha, luz esgueirando-se pela persiana e projetando sombras retangulares sobre o chão branco. Fecho de novo e não vejo mais a asa: agora são os rostos de alguns dos demais viajantes. Eles abrem bem os olhos, como tentando avidamente enxergar tudo o que (não) podem antes de cair — nós temos ciência de que vamos cair. Vemos toda a nossa vida desabando, e os nossos sonhos caindo junto com ela, puxados pelo seu peso. Abrimos bem os olhos porque este momento é tudo que nos resta. Usamo-lo para nos identificarmos, vermos bem quem é que virá com a gente para o outro lado da vida. Será que existe o outro lado? Olhamos uns para os outros tentando descobrir isso também. Você acreditava nessa história? Não pode ser verdade, pode? Onde será que nós estaremos daqui a alguns instantes? Abro os olhos novamente. Presentes continuam na cômoda, sinto-me gélido, ainda me afeta o sentimento de cumplicidade dos passageiros. Volto a fechá-los. Agora não tenho mais peso, nem no meu estômago: sinto apenas uma passagem de vento por dentro de mim, por mais ilógico que tudo seja. Agora vejo o resto das pessoas, e me comunico com elas pelo olhar. Foi bom conhecer vocês, mesmo não conhecendo. O que vai ser agora, hein? Então apego-me a cada uma delas, aproprio-me de suas vidas, inventando numa fração de segundo histórias da vida que não passei com elas. Convenço-me de que o que está ali, caindo comigo, é tudo que me importa. Não estou deixando nada para trás, e portanto não há tristeza, só queda. Ao meu lado, uma mulher está rezando baixo. E continuamos a cair. Abro os olhos: embrulhos na mesa, feixes de luz escapando da persiana e me esquentando o corpo. O chão branco.

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