Posts feitos em junho 17th, 2008
Noir – primeira percepção
Espere. Só por mais um instante, porque desta vez a causa é válida. O vento acabou de mudar de direção — agora vem da orla —, posso sentir o cheiro do mar e tenho a impressão de que o ouço, também. E se eu cerrar bem os olhos, assim, quase enxergo as ondas escuras quebrando na praia, avançando em brumas silenciosas e serpeando de volta à penumbra, levando consigo um pouco mais da encosta. Não, não há dúvida: posso realmente sentir o som espumante. Então estendo os meus braços bem abertos, assim como descerro as minhas pálpebras. Reverencio, uma última vez e com uma breve e comedida mesura, a cidade que se amontoa dentro dos limites da minha visão como um daqueles filmes antigos de que ele tanto gostava: muda e sem cores. Como ele, também; ele e seus sorrisos monocromáticos. Sinto a brisa úmida e cálida tocar-me a pele, acariciar-me os cabelos, preencher-me os ouvidos com um uivo baixo e nada mais. Este silêncio! É tudo que eu sempre busquei; nunca imaginei que o encontraria aqui, e assim tarde. Uma pena. Isso também tem suficientes méritos para que eu me demore mais alguns momentos, só para lhe dedicar alguns destes meus pensamentos finais. Inspiro a tranqüilidade, sentindo-me amortecer. Inclino-me à frente e observo a rua do prédio: há dois carros negros estacionados — deve haver mais embaixo dessas árvores todas —, e um casal está atravessando a rua agora. Ele a segura pela cintura e parece dizer algo em seu ouvido. Minha mente de menina se põe a divagar o que seria. Uma jura, quem sabe? Espere, a direção do vento mudou mais uma vez. Agora ele traz sons distantes de buzinas e o cheiro acre de fumaça. Mais do mesmo, do velho caos; não preciso disso nem por outro minuto. Olho a ruela de novo: o casal já passou, ou talvez apenas se esconda sob a sombra mais densa de alguma das árvores. Olho para trás uma última vez e vejo que não há ninguém, é claro. Abro ainda mais os braços e salto para as buzinas. Tento inspirar a tranqüilidade.
Não sinto cheiro algum.
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