Posts feitos em julho, 2008

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Post paralelo: Perfil do Orkut [?]

Melhor não dissertar sobre mim, posto que não busco me vender como se vendem idéias, sonhos ou carros; não, melhor não me justificar em meus meios e fins, porque seria complicado demais, e é claro que eles também não vêm ao caso. E também é melhor que eu não me descreva aqui como se descrevem personagens de romance (até porque, em se tratando delas, antes prezo os seus descobrimentos), não fazer de mim mesmo o narrador, porque mesmo as minhas impressões podem ser ludibriantes.

Não quero, ainda assim e no entanto, escapar da difícil tarefa que é se descrever recorrendo ao que dizem os outros, porque a) isso já está batido, e b) mostra um incrível nível preguiça; além de auto-desconhecimento… ou talvez só dificuldade de expressão. Esses dois últimos, ao que me consta, não se me aplicam, mas quando se trata daquele outro indício, a preguiça!…

E parece que acabo de, sem muito querer, dar a primeira pista de quem sou: um exímio preguiçoso. Bem, olhe por que tortuosos caminhos esse modo nem-dissertativo-nem-narrativo de se definir pode levar. Comecei por um defeito, e um bastante ruim, diga-se de passagem. Mas que fique aí. Bastaria que você olhasse para o meu blog e isso lhe ficaria evidente, certo?

Ah, claro, eu tenho um blog. E já tive vários deles – a maioria fracassou, e por fracassar eu quero dizer que houve, bem, uma não-aderência de público. Primeiro eles serviam como um passaporte para o mundo pop – sim, eu já passei (com destaque para o tempo verbal) por essa fase de não querer ser o diferente, mas hoje tudo vai bem pelo contrário -, depois como um meio de dar vazão às minhas idéias e alguma espécie de utilidade (um conceito bem relativo) ao meu excepcionalmente longo tempo livre – um quadro que hoje também se inverteu – e, agora mais tarde, no meio de tantas mudanças, tornou-se um portifólio do meu lado que escreve e que a cada lua cheia leva um choque de inspiração e funciona. O sol torrou o elástico que era o meu tempo, e hoje ele é uma coisa miúda e engrunhida com pouca flexibilidade. O blog foi destituído de qualquer fim útil, e eu só espero que não seja um agente desgastante de elástico-tempo.

Bem, agora eu corro o risco de ter falado mais sobre meu blog do que sobre mim em meu próprio perfil. Por agora você já deve ter percebido o quão facilmente eu consigo perder o foco. Bem, bem, ao menos em algum ponto eu percebo isso, o que já é alguma coisa. Mas fazer o quê: funciono bem por impulso, muito mal sob pressão. Como se impulso não fizesse pressão. Mas deixemos isso para lá. Essa parte nem eu entendi.

Aparentemente, a forma que encontrei para me descrever (e estou tendo a impressão de que ela é só o jeito do meu subconsciente de impedir que eu chegue ao ponto) é infinitar. Uma vez fiz uma poesia (muito ruim por sinal) em que criei esse neologismo que significa, basicamente, ficar horas a fio pensando e pensando, levado pelo eterno fluxo de um pensamento que puxa o outro, e esse outro, por sua vez, puxa ainda mais um no ciclo vicioso do fique-acordado-mais-um-pouco. Tenho quase por certo que alguém já havia chegado nele antes de mim, mas também pudera: antes de eu chegar houve 500 anos de Brasil e ainda outras centenas, antes disso, de língua portuguesa. Isso significa muitos milhões de pessoas e muitos bilhões de horas que elas passaram em cima de suas camas ou amontoados de folha pegando uma carona com seus pensamentos para lugares bem distantes do sono. Eu quero dizer, quais as chances de alguém já tiver tropeçado nessa idéia? Muitas mesmo.

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Insone

Maldição! Por que você não simplesmente se desliga? Televisões deveriam ser obedientes aos seus respectivos controles. Acho que a pilha dessa vez realmente acabou. Droga, por que justo agora, no meio da noite, no meio do meu caminho até o sono? Devia bastar bater essa coisa remota contra a quina da cama, quando os elétrons acordariam e fariam seus papéis de se excitar. Não pode ser tão ruim assim, pode? Devia ser tudo assim simples: uma pilha seria só uma clausura de elétrons que eventualmente se cansam de receber ordens e um jogo de paciência seria só um jogo de abaixar e subir cartas; nada que deixasse tão agudamente evidente o quão apressado eu sou, ou que me mostrasse como isso pode foder com a minha vida. São raras as vezes que eu termino o jogo — elas quase só acontecem quando dou sorte. De qualquer jeito, o controle sempre funcionou, mesmo que aos trancos. Preciso trocar a pilha, faço isso amanhã, sim, amanhã será um bom dia. O dia seguinte é sempre mais um deles. Mas é sempre esse maldito botão o ruim, não é mesmo? É essa maldita cerejinha vermelha que nunca funciona. Às vezes penso que é algum tipo de conspiração, os japoneses velhos e baixinhos — o sr. Toshiba e o sr. Mitsubishi — vestidos em ternos caros sentam-se com donos de emissoras e decidem que farão o botão de desligar fácil de estragar, mesmo com o pouco uso que ele recebe, e eu, do outro lado do mundo, tenho que lutar contra o controle por um pouco de paz. É como uma maldição, sim, amaldiçoada seja essa televisão e toda a conspiração e a maquinaria por trás dela. Não, droga, o problema é o controle. Não as pilhas, mas o botão de desligar. Quem sabe o botão timer funcione? Claro. Mas aí seriam no mínimo mais quinze minutos sem conseguir dormir. Pois que se dane, já perdi bem umas duas horas antes disso. Mas espere, não gosto nem um pouco da ironia desse cronômetro se insinuando na tela. Não posso ir com sede demais ao pote, então? Já me basta o jogo de paciência para me lembrar disso. Não, amigo temporizador, eu ainda não cheguei tão fundo na droga do poço-sem-fim que é a minha vida para ouvir isso de você. Não, ainda me resta alguma dignidade.

Descubro-me e sinto meus pêlos se arrepiarem ao toque gélido do ar bem condicionado, coloco-me sentado e depois me levanto. Dou três ou quatro passos pelo quarto e aperto o botão redondo com força. Faz-se um agradável zumbido e o brilho irritante vai morrendo, recolhendo-se em uma pequena réstia horizontal de luz artificial e então por fim sumindo. O quarto se embebe na falta de luz e isso é uma bênção, eu sinto a escuridão completa me envolver, me albergar em seu abraço. O frio que faz aqui dentro combina bastante com ela. Viro e vou andando, tateando o invisível e fazendo meu caminho de volta à cama. Sento-me sobre ela pousando uma mão sobre a coberta, deito a cabeça sobre o travesseiro e me cubro. O silêncio e a escuridão trabalham com o frio em total sigilo, não deixam rastros. Que saudade dos tempos em que paciência não significava nada além de abaixar e subir cartas.

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