Insone

Maldição! Por que você não simplesmente se desliga? Televisões deveriam ser obedientes aos seus respectivos controles. Acho que a pilha dessa vez realmente acabou. Droga, por que justo agora, no meio da noite, no meio do meu caminho até o sono? Devia bastar bater essa coisa remota contra a quina da cama, quando os elétrons acordariam e fariam seus papéis de se excitar. Não pode ser tão ruim assim, pode? Devia ser tudo assim simples: uma pilha seria só uma clausura de elétrons que eventualmente se cansam de receber ordens e um jogo de paciência seria só um jogo de abaixar e subir cartas; nada que deixasse tão agudamente evidente o quão apressado eu sou, ou que me mostrasse como isso pode foder com a minha vida. São raras as vezes que eu termino o jogo — elas quase só acontecem quando dou sorte. De qualquer jeito, o controle sempre funcionou, mesmo que aos trancos. Preciso trocar a pilha, faço isso amanhã, sim, amanhã será um bom dia. O dia seguinte é sempre mais um deles. Mas é sempre esse maldito botão o ruim, não é mesmo? É essa maldita cerejinha vermelha que nunca funciona. Às vezes penso que é algum tipo de conspiração, os japoneses velhos e baixinhos — o sr. Toshiba e o sr. Mitsubishi — vestidos em ternos caros sentam-se com donos de emissoras e decidem que farão o botão de desligar fácil de estragar, mesmo com o pouco uso que ele recebe, e eu, do outro lado do mundo, tenho que lutar contra o controle por um pouco de paz. É como uma maldição, sim, amaldiçoada seja essa televisão e toda a conspiração e a maquinaria por trás dela. Não, droga, o problema é o controle. Não as pilhas, mas o botão de desligar. Quem sabe o botão timer funcione? Claro. Mas aí seriam no mínimo mais quinze minutos sem conseguir dormir. Pois que se dane, já perdi bem umas duas horas antes disso. Mas espere, não gosto nem um pouco da ironia desse cronômetro se insinuando na tela. Não posso ir com sede demais ao pote, então? Já me basta o jogo de paciência para me lembrar disso. Não, amigo temporizador, eu ainda não cheguei tão fundo na droga do poço-sem-fim que é a minha vida para ouvir isso de você. Não, ainda me resta alguma dignidade.

Descubro-me e sinto meus pêlos se arrepiarem ao toque gélido do ar bem condicionado, coloco-me sentado e depois me levanto. Dou três ou quatro passos pelo quarto e aperto o botão redondo com força. Faz-se um agradável zumbido e o brilho irritante vai morrendo, recolhendo-se em uma pequena réstia horizontal de luz artificial e então por fim sumindo. O quarto se embebe na falta de luz e isso é uma bênção, eu sinto a escuridão completa me envolver, me albergar em seu abraço. O frio que faz aqui dentro combina bastante com ela. Viro e vou andando, tateando o invisível e fazendo meu caminho de volta à cama. Sento-me sobre ela pousando uma mão sobre a coberta, deito a cabeça sobre o travesseiro e me cubro. O silêncio e a escuridão trabalham com o frio em total sigilo, não deixam rastros. Que saudade dos tempos em que paciência não significava nada além de abaixar e subir cartas.

3 pensamentos

  1. lembra do que eu falei sobre os dois tipos de escritores? era bem isso que eu falava ,)

  2. hmm
    fiquei confuso sobre o tema central. Era sobre paciência, sobre a correria no mundo moderno, sobre como somos controlas pela TV e não vice-versa ou nda?

    Eu achei o texto só fora de contexto. Parecia um daqueles capítulos legais e estranhos de algum romance modernista-realista.

Manifeste-se!