Posts feitos em agosto, 2008
Um buraco
Por não encontrar mais saídas, refugiei-me no impossível — seria difícil demais, o outro caminho. Acovardei-me e me escondi do mundo no mais sórdido e improvável dos seus cantos, aonde, mesmo que alguém porventura sentisse a falta minha e tentasse me encontrar, esse alguém sequer cogitaria ir. Um lugar de onde eu poderia partir não precisando de uma grande coragem, mas de uma covardia ainda maior do que essa que me trouxe até aqui; uma que, eu sabia, não me seria nem um pouco difícil de alcançar. Um lugar capaz de abafar todos os meus soluços, de modo que ninguém poderia saber que eu estaria chorando quando a dor viesse de novo, e um lugar tão escuro que, mesmo depois que não houvesse mais lágrimas, ninguém poderia olhar a minha cara e ver, através da vermelhidão desses meus olhos azuis, a enfermidade da minha alma. Um lugar assim, tão esquecido, que faria com que eu me desligasse até mesmo de mim, e que poderia me anestesiar para eu não ter que sentir que ainda vivo atrás desses olhos azuis que sempre ardem em chamas invisíveis, e não percebê-las também.
Um buraco. Esse lugar em que me escondi era alguma sorte de buraco; um que atendia a todos os meus anseios, e que eu podia cavar ficando de braços cruzados. O fim, que brincava de roda em algum lugar próximo com o tempo e o começo, chegaria mais e mais perto sem que eu precisasse fazer qualquer esforço. Eu podia ouvir a música que eles cantavam — um tamborilar difuso que ia crescendo aos poucos —, e, enquanto eu ouvia, ia tendo a certeza de que a hora da partida vinha chegando: a covardia atava-me os braços atrás das costas. O buraco crescia e eu descia mais fundo, e quem sabe alguém estivesse me procurando. Só que eu tinha me escondido nas arestas do impossível, e ali perto o fim brincava de roda.
Ler maisAs estações de partida
Enigmática, minha vida sempre foi um crime. Ainda não sei dizer ao certo qual é o meu propósito, o porquê de eu ter passado por isso tudo. Eu só sei que vi muito, e então fui impelido a seguir em frente por um trilho que nunca mais terminou; não fiz mais do que ir deslizando ao sabor de suas curvas e retidões esses anos todos. Não fiz muitas escolhas, porque não havia muito o que escolher: no máximo decidi estacionar algumas vezes, quando achei o cenário um pouco mais interessante e quis olhá-lo estático, fotográfico, resgatá-lo desse borrão que engole todas as imagens e as cospe em linhas infinitas e cansativas, em cores sempre iguais. Logo descobri, no entanto, que é melhor permanecer às sombras da ignorância do que sair para a luz do conhecimento: ela é exageradamente intensa, e fere os olhos. Você precisa sentir a dor por um tempo longo demais para se habituar a ela. É um preço que me nego a pagar não porque não posso, mas porque a recompensa na verdade não compensa o sacrifício, não me satisfaz. Foi isso que Cecília me ensinou.
Mas nada disso me interessa — na verdade nem nada daquilo ou mesmo de todo o resto me interessa. Eu só continuo seguindo em frente, mantendo os olhos virados para aquela velha direção. Mal posso esperar pela hora em que vou estar observando e de repente me dar conta de que não está mais lá o trilho, mas um precipício silencioso e profundo que o engoliu. Aí sim eu
finalmente
fecharia os olhos e esperaria. Afinal de contas, eu só os mantive abertos a viagem toda para ver bem esse momento chegar.
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