Posts feitos em agosto, 2008
Pelas personagens abortadas, parte II: o parágrafo suprimido
(Segue o parágrafo que não tive coragem de postar, mas que me perturbou o dia inteiro e que agora aqui está).
E assim cheguei à conclusão de que sou um dos autores ruins. [repare como eu já começo me refugiando] Acho que ainda não estou maduro o suficiente, ou suficientemente liberto, para exteriorizar todas as minhas personagens, porque tenho medo de que algumas delas realmente sejam eu mesmo, em meus extremos. [olhe só o que eu acabei de te dizer subliminarmente: nenhuma dessas personagens dos textos que publiquei aqui até agora são meus reflexos] Acho que vou guardá-las até que chegue um momento em que eu não me identifique com nenhuma delas, e portanto não me sinta constrangido ou exposto demais traduzindo o que elas sentem, e nisso acabar traduzindo os meus próprios extremos. É óbvio que, se esses extremos não se tornaram realidade, é porque achei melhor que eles continuassem não existindo. [quando eu escrevo isso, eu estou mentindo não só para você, leitor, mas também para mim mesmo: na verdade, eu estou começando a achar que escrever essas personagens foi o modo que encontrei de exteriorizar as minhas angústias e me livrar delas, e tenho medo de que alguém ache que todo e cada um dos sentimentos delas possam ter vindo de mim. Isso realmente não é verdade. O que há da minha essência nessas personagens é, geralmente, só a fagulha que faz com que elas surjam. O resto vai saindo sem que eu perceba — eu gosto de pensar que eu capto as personagens de uma dessas possibilidades que invento na minha cabeça e, depois disso, vou tentando percebê-las enquanto coisas recém-criadas e pensantes. Basicamente, as personagens se concretizam e se transformam em pessoas reais e complicadas que eu tenho que interpretar.] {Você não acha que seria possível que eu faço as coisas fazerem pouco sentido só para fazer com que poucas das pessoas que lêem realmente entendam o que eu quero dizer?}
(Segue o parágrafo que não estava planejado para entrar nesse texto até poucos segundos atrás).
Acho que estou ficando louco.
Ler maisUm buraco
Por não encontrar mais saídas, refugiei-me no impossível — seria difícil demais, o outro caminho. Acovardei-me e me escondi do mundo no mais sórdido e improvável dos seus cantos, aonde, mesmo que alguém porventura sentisse a falta minha e tentasse me encontrar, esse alguém sequer cogitaria ir. Um lugar de onde eu poderia partir não precisando de uma grande coragem, mas de uma covardia ainda maior do que essa que me trouxe até aqui; uma que, eu sabia, não me seria nem um pouco difícil de alcançar. Um lugar capaz de abafar todos os meus soluços, de modo que ninguém poderia saber que eu estaria chorando quando a dor viesse de novo, e um lugar tão escuro que, mesmo depois que não houvesse mais lágrimas, ninguém poderia olhar a minha cara e ver, através da vermelhidão desses meus olhos azuis, a enfermidade da minha alma. Um lugar assim, tão esquecido, que faria com que eu me desligasse até mesmo de mim, e que poderia me anestesiar para eu não ter que sentir que ainda vivo atrás desses olhos azuis que sempre ardem em chamas invisíveis, e não percebê-las também.
Um buraco. Esse lugar em que me escondi era alguma sorte de buraco; um que atendia a todos os meus anseios, e que eu podia cavar ficando de braços cruzados. O fim, que brincava de roda em algum lugar próximo com o tempo e o começo, chegaria mais e mais perto sem que eu precisasse fazer qualquer esforço. Eu podia ouvir a música que eles cantavam — um tamborilar difuso que ia crescendo aos poucos —, e, enquanto eu ouvia, ia tendo a certeza de que a hora da partida vinha chegando: a covardia atava-me os braços atrás das costas. O buraco crescia e eu descia mais fundo, e quem sabe alguém estivesse me procurando. Só que eu tinha me escondido nas arestas do impossível, e ali perto o fim brincava de roda.
Ler maisPelas personagens abortadas
Hoje estava pensando e cheguei à conclusão de que as melhores personagens já vistas só vieram dos melhores autores porque apenas eles têm a coragem de encarná-las. Os demais — e estes são os autores ruins — têm vergonha de materializar as personagens que imaginam, porque sabem que elas são, essencialmente, as possibilidades que eles em algum ponto imaginaram para eles mesmos, em suas situações reais, e têm medo de que as pessoas saibam que aquilo que as suas personagens fazem são tudo aquilo que eles poderiam ter feito mas, por medo, não fizeram. O bom autor está liberto disso, porque se ele não colocá-las no papel então não terá uma história, e por conseqüência não será um autor. E os bons autores querem continuar o sendo.
Ler maisAs estações de partida
Enigmática, minha vida sempre foi um crime. Ainda não sei dizer ao certo qual é o meu propósito, o porquê de eu ter passado por isso tudo. Eu só sei que vi muito, e então fui impelido a seguir em frente por um trilho que nunca mais terminou; não fiz mais do que ir deslizando ao sabor de suas curvas e retidões esses anos todos. Não fiz muitas escolhas, porque não havia muito o que escolher: no máximo decidi estacionar algumas vezes, quando achei o cenário um pouco mais interessante e quis olhá-lo estático, fotográfico, resgatá-lo desse borrão que engole todas as imagens e as cospe em linhas infinitas e cansativas, em cores sempre iguais. Logo descobri, no entanto, que é melhor permanecer às sombras da ignorância do que sair para a luz do conhecimento: ela é exageradamente intensa, e fere os olhos. Você precisa sentir a dor por um tempo longo demais para se habituar a ela. É um preço que me nego a pagar não porque não posso, mas porque a recompensa na verdade não compensa o sacrifício, não me satisfaz. Foi isso que Cecília me ensinou.
Mas nada disso me interessa — na verdade nem nada daquilo ou mesmo de todo o resto me interessa. Eu só continuo seguindo em frente, mantendo os olhos virados para aquela velha direção. Mal posso esperar pela hora em que vou estar observando e de repente me dar conta de que não está mais lá o trilho, mas um precipício silencioso e profundo que o engoliu. Aí sim eu
finalmente
fecharia os olhos e esperaria. Afinal de contas, eu só os mantive abertos a viagem toda para ver bem esse momento chegar.
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