As estações de partida
Enigmática, minha vida sempre foi um crime. Ainda não sei dizer ao certo qual é o meu propósito, o porquê de eu ter passado por isso tudo. Eu só sei que vi muito, e então fui impelido a seguir em frente por um trilho que nunca mais terminou; não fiz mais do que ir deslizando ao sabor de suas curvas e retidões esses anos todos. Não fiz muitas escolhas, porque não havia muito o que escolher: no máximo decidi estacionar algumas vezes, quando achei o cenário um pouco mais interessante e quis olhá-lo estático, fotográfico, resgatá-lo desse borrão que engole todas as imagens e as cospe em linhas infinitas e cansativas, em cores sempre iguais. Logo descobri, no entanto, que é melhor permanecer às sombras da ignorância do que sair para a luz do conhecimento: ela é exageradamente intensa, e fere os olhos. Você precisa sentir a dor por um tempo longo demais para se habituar a ela. É um preço que me nego a pagar não porque não posso, mas porque a recompensa na verdade não compensa o sacrifício, não me satisfaz. Foi isso que Cecília me ensinou.
Mas nada disso me interessa — na verdade nem nada daquilo ou mesmo de todo o resto me interessa. Eu só continuo seguindo em frente, mantendo os olhos virados para aquela velha direção. Mal posso esperar pela hora em que vou estar observando e de repente me dar conta de que não está mais lá o trilho, mas um precipício silencioso e profundo que o engoliu. Aí sim eu
finalmente
fecharia os olhos e esperaria. Afinal de contas, eu só os mantive abertos a viagem toda para ver bem esse momento chegar.
