Posts feitos em setembro, 2008
trabalho
estive pensando
sobre você, é claro
e olha que engraçado
isso que pensei.
sou o atrito da sua vida:
tento fazer você ficar
e você só me despreza
em todos os problemas
como todos os demais.
aplica uma força
sempre bem maior que a minha
mas sabe que só anda
sempre que precisa
por poder me usar.
o pior é que tudo se encaixa
e o melhor é que o nosso encaixe
acontece muito bem.
Descontínuo
— Cale-se – ela disse, suspendendo por um instante os pesos todos e as tensões todas que voavam de um para o outro lado do pequeno quarto. Por um instante, havia só a poeira sendo filtrada pela luminosidade frágil que entrava pelos pequenos furos da janela de mogno. Tudo era amarelo, lânguido, morto. Mas não ela. Ainda não. Ela deixou uma das mãos afundar nos cabelos longos e os acariciou brevemente, jogando-os para trás da cabeça bem devagar. O sol faiscou em sua face quando seu rosto expôs-se à ínfima claridade, e a lágrima única que descia a refratou. Mesmo naquele embate de luz e sombra a sua tez, muito alva, brandia vida. Mesmo em contraste com aqueles olhos claros e brilhantes não de esperança, mas de tristeza. No entanto mesmo as sombras oblíquas daquele lugar contavam que, ainda que restasse um pouco de vida, essa mesma vida desmoronava ao passo que a tristeza brilhava mais e o contraste aos poucos se transformava em matiz.
Embora acolhida nos braços frios do silêncio, ela podia sentir tudo se deslocar à sua volta; palavras ásperas ainda ecoavam, e, tenazes, ainda reverberavam por baixo do papel de parede sépia e do carpete de carmesim, ondulando sem nunca perder a força. A luz do sol languescia, e o caos alastrava-se de dentro para fora dela. A janela aos poucos entreabria-se, rangendo bem baixinho, deixando a brisa entrar dançando pela crescente fresta. E então houve uma réstia de sol poente cruzando o chão do quarto. Primeiro esguia. A música de seu pranto agora ofendia o silêncio — que escolhera então deixar o quarto à Solidão — e confundia os ecos e vibrações que voavam, misturando-os, difundindo-os, transformando-os todos em uma torrente cálida, um tornado que chega, abala os alicerces da mais forte das construções e a derruba, deixando para trás nada além de destroços. Era assim que ela se sentia. Seus sentimentos tiveram sido tomados por assalto, e agora restava-lhe uma mente tanto ausente quanto confusa.
— Você está bem? — de repente uma voz grave juntou-se a todos aqueles ecos, e o turbilhão retornou mais forte, fazendo tudo girar rápido no lusco-fusco. O Sol estava se pondo. Ou será que já se pusera? Não, a pergunta era outra: “está bem?” . Daquilo ela tinha consciência — havia uma resposta bem clara flutuando em algum lugar entre aqueles pensamentos escuros. E a resposta era não; nada estava bem. Mas isso esperaria, porque ela se perguntava o que estava acontecendo com a luz, pois mesmo a linha esguia que cruzava o carpete não parecia muito real. O amarelo perdia-se no vermelho do carpete. Alguns segundos atrás ela enxergava todas as coisas, mas agora não podia distinguir muito mais que uma sombra contra o papel de parede de listras em tons de amarelo. Não, já não havia cores. Havia um espectro contra cor nenhuma. Quanto tempo já se passara desde a última vez que aquela voz soara? E quanto ainda lhe restava para dizer? Talvez ainda houvesse força, em algum lugar dentro do seu caos particular.
— Eu… – sua voz frágil oscilou. A energia que concentrara antes talvez tivesse sido tudo que lhe restava, ela avaliava agora. Agora já não podia dizer nada, e talvez já não havia mesmo mais nada a dizer. Neste momento, em algum lugar lá fora, pássaros de algum bando grasnaram e saíram em revoada. Ela olhou para a janela e aguardou por um momento, acariciando o cabelo novamente e ignorando a presença do espectro. E o vento, como que consciente do seu desejo, por fim abriu as duas folhas da janela por completo, revelando um céu alaranjado e mais incontáveis espectros de prédios altos e distantes que o maculavam. Era um anoitecer bonito. Além das sombras da cidade, nuvens róseas e avermelhadas assomavam-se discretamente, iluminadas pelos últimos e ínfimos raios de sol. Aquém de tudo isso, no isolamento daquele monte silencioso, lá estava ela, observando tudo por trás de uma moldura de mogno.
A solitude daquele lugar a agradava, e era por isso que ela continuava voltando para aquele mesmo quarto daquele mesmo hotel sempre que sua alma pedia por alguns instantes de placidez para se recompor. Ali era só o burburinho dos ventos que vinham subindo pelo outeiro, e o barulho dos trens que eventualmente chegavam e partiam. O trilho passava ali bem perto, e a estação não ficava mais de um quilômetro distante. Havia algo de mágico em ver os vagões azuis passando com velocidade contra o poente, perfurando a luz em um fenômeno tão singular quanto belo.
Alheia à presença do espectro, ela se debruçou sobre o parapeito e avaliou as circunstâncias. Ela planejara aquela rota de fuga já havia algum tempo, e se lembrava de tê-la traçado com uma certeza que não era sua, em um dia nublado, mas ainda assim não sem um certo receio misturado a uma euforia inexplicável; e agora a revisitava mentalmente. Esperara com tanta lucidez pela chegada daquele momento que, agora que se via imersa nele, presa dentro dele, não se sentia enjoada como achara que ficaria, e também não tremia. Agora já não achava que hesitaria. Ela tinha chegado, enfim, àquele ponto em que nem mesmo a quietude daquelas quatro paredes podiam conter suas angústias e comprimi-las o suficiente para que ela pudesse acondicioná-las novamente em alguma camada bem profunda de seu espírito.
Virou o rosto para o homem e avaliou que um sorriso era dispensável. Infundado, quem sabe. Apenas encontrou seus olhos no crepúsculo do dia que findava, então, e procurou se comunicar com eles através daquelas incríveis ondas de sentimentos que gravitavam em torno de seus corpos. Quando achou que tinha dito o suficiente, ela se virou, e de alguma forma soube que ele estava se virando também. Era como se ela pudesse ouvir o ar se deslocando para abrir-lhe passagem.
Sentindo o vento bagunçar os fios vermelhos de seus cabelos, ela se apoiou com uma das mãos no parapeito da janela e inclinou-se para a frente. Segurou com a outra o fino e branco tecido de seu vestido e ergueu delicadamente um dos pés, empenhando-se em transpor a janela. Em um movimento lépido e suave, pisou a terra fofa e úmida ali de fora. Atrás dela, ouviu o espectro dizer mais alguma coisa sem importância antes de sair e bater a porta atrás de si. Não deu ouvidos, pois tinha certeza de que aquilo não era mais do que uma despedida qualquer, só por intuição. “Eu te vejo amanhã”, era o que a voz dele certamente dissera, ainda sem se livrar daquela falta de emoção que adquirira já havia algum tempo.
Ela caminhou para longe da janela, procurando distraidamente pelos pássaros que costumavam empoleirar-se ali perto do pequeno hotel, e que sempre saíam em revoada mais ou menos por aquela hora. Identificou-os voando na direção da estrada, o que só podia significar uma coisa. Ela seguiu o caminho dos trilhos com os olhos e sorriu um sorriso frouxo. Acariciou o próprio rosto, limpando as lágrimas que escorriam dos seus olhos claros e brilhantes em um gesto gracioso. Caminhou mais alguns passos, parou e então se sentou sobre a calidez do metal dos trilhos, contemplando os últimos esgares do sol que se punha e os últimos vislumbres das nuvens rosas, roxas e vermelhas. Interessou-se pela silhueta de uma grande antena de rádio e se manteve observando-a durante todo o tempo que aguardou.
Quando o sol enfim caiu atrás das chapadas e tudo escureceu, um novo grupo de pássaros passou voando. Foi bem quando ela sentiu a madeira e o ferro embaixo dela começarem a vibrar e zumbir em um som desagradável aos ouvidos e gratificante à alma. Em poucos segundos tremiam com grande força, e um facho de luz projetava-se em sua direção, inundando o seu rosto e atrapalhando sua visão da cidade. Foi então que ela decidiu fechar os seus olhos, ainda tão claros e tão brilhantes, para nunca mais abri-los para contemplar as torres ou chorar algumas de suas mágoas. Todas descontínuas.
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