Dissensão
Sustentava-se em seu próprio silêncio, nas alturas do seu sofrimento. Encarava o abismo e sentia o vento bater contra seu rosto, arrastar seus cabelos para o sem-cor agridoce do céu, trazer para os seus ouvidos a música tranqüila que fazia na escuridão lá de baixo, falando de alívios e recompensas em uivos e sussurros tão dissonantes. Difundiam-se por toda a parte, os sentidos e os sons, e ecoavam na fragilidade da linha do horizonte, de onde voltavam com menos força, como se houvessem lá conhecido alguma verdade pesada demais. O verde-musgo dos morros de algum jeito se confundia com a profundidade da escuridão da quase-noite, o crepúsculo nos céus. Ela mesma se confundia no meio daquilo. Era só o frio contra sua pele, e a sensação de que seu corpo não era mais que o seu meio particular de mergulhar no mundo. Ali era como se, do contrário, o próprio mundo mergulhasse para dentro dela, e os limites de sua carne passassem a não carregar importâncias nem constrangimentos. Tudo se alinhava à sua volta – era para ela que convergiam as energias vibrantes do desfiladeiro, todas em conformidade com uma só sintonia.
Sentia, através da névoa que não a deixava ver o que havia lá embaixo, a vegetação mover-se com calma em uma dança tão inocente quanto a valsa do despencar das águas no outro lado, que cintilavam debilmente nas nuances do cinza, nas sugestões do fim do mundo. Abraçava o próprio corpo, sentia a doçura de seu próprio toque. Em comunhão com a vastidão da existência, deixava-se enfim tomar pelo transe sublime que vinha se insinuando desde um lugar bem profundo, desde tanto e tanto tempo, no âmago de sua própria alma. Subia acima de sua cabeça, invertia o corpo e o expandia, tocava o céu e apertava as nuvens, sentindo os grãos de areia escaparem-lhe por entre os pensamentos, caindo contra o chão opaco e produzindo milhares de sons, como de martelo contra vidro. E ia decompondo todos os cheiros. Água pura, água turva, folhas, folhas e mais folhas; terra úmida, pedra fosca, lusco-fusco, os pêlos molhados de algum bicho selvagem. Voava além e aquém, irradiava-se para todas as direções, subia e descia conforme a geografia incerta das colinas, das várzeas e das depressões, todas dispersas por muitos planos. Tão semelhante a ela…
Dançava. Rodopiava e pulava, depois abaixava um pouco e girava mais uma vez; batia o pé e fazia o subir pó. Tossia, tossia e depois ria, ria, gritava, ouvia gritos parecidos viajando longe e viajando de volta; sons de liberdade, de fúria, de medo jovialmente alegre. Já não se sustinha mais, ia deixando invadir-lhe a loucura. Ninguém estava vendo, nem ela mesma estava tão atenta, só sabia que havia algo que crescia e crescia, que ia se expandindo para além de todos os seus limites. Nada fazia mal. Chamava os pássaros, cantava aos bichos que se amotinavam à sua volta para vê-la. Convidava, respeitava, e batia para ver se havia alguém em casa.
De repente tropeçou.
Seus olhos se abriram sem que ela precisasse mandar. O sorriso ausentou-se num átimo, sem deixar traços ou recado. Ela tombou na areia, a poeira anuviou-se em seu redor, o pescoço ficou pendendo bem à beira do precipício. Sentiu a leveza das nuvens e o peso do susto se assomarem em sua nuca; suas mãos comprimiam pedrinhas agudas contra o solo poroso, ou talvez, e mais provavelmente, fosse o contrário. Ela encarava as alturas de cima para baixo, o seu cabelo ameaçando despencar para sempre. Arregalou os olhos, sentiu os seios comprimidos contra o chão, percebeu seu centro de gravidade bem seguro aquém da beirada e resfolegou ousadamente. Sentiu o ar preencher seus pulmões, carregado de alguma poeira. Nada que fosse grave. Tossiu. Tossiu e foi sentindo, agradecida, o sangue pulsar no pescoço e depois circular pela cabeça. Via toda a sua vida se desenrolar na névoa lá embaixo, ao som das batidas cadentes do seu coração.
Soluçou, mas rapidamente se aquietou, observando. Recuou um pouco o corpo e apoiou a cabeça sobre as duas mãos, ainda resistindo à ingratidão das pedras e do chão batido. Ainda deitada, entrelaçou a perna e cruzou os pés, como para certificar-se de que permaneceria ali, infalivelmente parada. Ficou olhando o sol terminar de se pôr enquanto sua respiração se regulava de novo e ela aguardava a escuridão total. Sentiu os olhos arderem e algumas lágrimas se precipitarem pelas maçãs do seu rosto. Queria ver as estrelas no céu multicores, como diziam que elas eram em lugares ermos como aquele. Quer dizer, elas eram coloridas sempre, mas é difícil vê-las diferentes de branco quando se tem tantas e tão artificiais luzes por perto. Mas a noite parecia não cair nunca, de modo que dormiu antes que ela enfim chegasse, ali em cima das pedras e embaixo do céu cheio de cinzas. Dormiu como há muito não dormia e sonhou algo bonito, mas nunca pôde dizer com certeza o que foi. Só soube que acordou já no outro dia, levantou-se e foi caminhando de volta, meio tonta e meio lúcida. Desceu pela encosta, entrou no carro quando o encontrou, e então partiu cantando junto ao rádio.
3 pensamentos

posso ver muito de uma certa pessoa nessa personagem ,)
vontade doida de entrar nesse carro!
como posso dizer?
fantástico?
isso me fez viajar.
Oii… eu não te conheço pessoalmente, mas por este blog, conheci sua imensa habilidade com as palavras! É interessante e satisfatório saber que ainda existem jovens que apreciam “letras bem dispostas” que expressam os pensamentos e as opiniões mais secretas [o que é muito dificil nessa era de msn e orkut!]. Também amo as palavras, seja em versos, ou em prosa; e pretendo visitar mais vezes o seu blog, e até quem sabe compartilhar textos. Até a próxima e, Parabéns. Ingrid Daiane Silva