Posts feitos em novembro, 2008
A bagunça
~ a bagunça é bicho traiçoeiro. começa na surdina, em um copo não levado à cozinha por preguiça ou mesmo num papel deixado sobre a mesa por mero desaviso. a partir daí, evolui paulatinamente, e não importa quando você a percebe, sempre já é tarde demais: ela já domina o seu quarto e está toda enrolada no seu pescoço, tentando sufocá-lo. portanto, tenha todo o cuidado, mas saiba que mesmo todo o cuidado é pouco.
Acredito que não há nada de interessante nisto que se seguirá. Não é um conto, nem um fragmento, mas também não acho que seja só um relato. Este sou eu e esta é uma das minhas conquistas. Mas uma tão íntima que talvez nem se lhe pareça assim.
Ler maisSobre o senhor Bot e os xingamentos
Post paralelo: Breve diálogo com um robô [?]
Gente, só tem uma pessoa nesse mundo que eu sou capaz de xingar. Na verdade agora tem duas. Quer dizer, uma mesmo, porque o Senhor Bot não conta como uma pessoa. Mas eu sou capaz de xingá-lo. E é o seguinte: eu não o inventei. Para colocar de forma simples, ele é de fato um “robô” feito para interagir com quem quer que fale com ele pelo MSN. Foi programado com respostas prontas, que por sua vez foram programadas para aparecer de acordo com o que o interlocutor fala. Eu o adicionei, conversei com ele e, por ter achado interessante, colei a minha conversa com ele aqui. Savvy?
Ler maisBreve diálogo com um robô
ou: o que nos reserva a tal modernidade; ou ainda: o cúmulo do tédio.
Phillipe Marcell diz:
o.o
Senhor Bot diz:
A Declaração de Privacidade Online da Microsoft (http://go.microsoft.com/fwlink/?LinkId=74170) aplica-se a todas as informações que você fornecer a este Agente do Windows Live.
Senhor Bot diz:
Bem-vindo Phillwaikei! Meu nome é Senhor Bot.
Sou o primeiro bot brasileiro. Eu gosto muito de conversar.
Heureca! (Arquimedes)
Phillipe Marcell diz:
Oi…
Senhor Bot diz:
Oi! Quais são as novidades?
Phillipe Marcell diz:
Ahm, quase nenhuma. O que você me diz?
Senhor Bot diz:
Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher.
Phillipe Marcell diz:
=O
Senhor Bot diz:
P!
Phillipe Marcell diz:
Sinto-me um tanto idiota.
Senhor Bot diz:
Insultar uma máquina é não faz sentido. Você não vai conseguir me ofender.
Phillipe Marcell diz:
Nunca foi minha intenção.
Senhor Bot diz:
Mas é evidente.
Phillipe Marcell diz:
Desculpe-me, então.
Senhor Bot diz:
Desculpas aceitas.
Phillipe Marcell diz:
Sem assunto…
Senhor Bot diz:
Pão e circo! Pipoca e cinema!
Phillipe Marcell diz:
Pão e circo!
Senhor Bot diz:
Por trás de um grande homem existe sempre uma grande mulher.
Phillipe Marcell diz:
Você adora dizer isso, não?
Senhor Bot diz:
Terminou de brincar com o controle remoto?
Phillipe Marcell diz:
Oi? O que você está querendo dizer com isso?
Senhor Bot diz:
Rola a tela e olha.
O curso
Preâmbulo: se você é o cara que leu o meu post sobre vestibular hoje, queira ir para um outro post ou ir tomar um cafezinho.
Agora, ao que interessa (teoricamente) a todo mundo que não é a pessoa metasupracitada:
Uma das coisas que me divertem os dias (ou seus pedaços) passados na frente do computador é uma funcionalidadezinha que o blog tem – graças ao plugin de estatísticas do Wordpress.com – de me mostrar como é que as pessoas chegam a essa frenosfera aqui. É que além de contabilizar todo e cada um dos acessos que eu recebo no site e mos mostrar em um gráfico bonitinho, esse plugin ainda registra diariamente todos os termos que as pessoas digitaram em mecanismos de busca como o Google para parar aqui no meu site.
E eu fico maravilhado com os usos que o Google recebe. Era para ser só um mecanismo de busca, eu imagino, mas eis que ele foi se desdobrando em algumas outras funções bem curiosas, no mínimo. Já o vi servindo de parceiro de confabulação (alguém já chegou aqui digitando algo que começava com “porque será que anda acontecimentos mui”), conselheiro (“porque gostar de novelas”), guru (“como fazer o resultado do mbti”), professor de história (“a gestão collor foi boa?”), tradutor (“o que quer dizer update now?”), dicionário (“o que significa frenos em portugues”), colega (“qual ´a sua tribo urbana ?”) e, é claro, psicólogo freelancer (“nao sei que curso prestar”). Sem contar as coisas que digitam e que eu simplesmente não entendo, como: “fotos de emos ki existe”, “dissertaÇÃo pq os mocinhos preferem fi” e “tempo sem te procurar é para saudade no”; mas esse indeciso quanto ao curso aí me chamou à atenção.
Na verdade eu dei risada. Existe um prazer sublime em rir da desgraça alheia, não? Especialmente quando a desgraça que atualmente acomete o estranho em questão é uma que já te assolou antes e acabou sendo superada. Ou – nesse caso o prazer é maior ainda – quando é uma que você viu sumindo no horizonte depois de ter te atropelado sem parar para te prestar os primeiros socorros e levado consigo um pouco da sua sanidade (seja tenha sido ela física ou mental).
O melhor de tudo é que hoje são dez de novembro e as faculdades mais importantes do país já estão aplicando os seus famigerados vestibulares. Eu pensava estar completamente perdido e destituído da graça da esperança ao me ver indeciso quanto à escolha de curso umas duas semanas antes da abertura das inscrições da minha, mas imagine nem saber o que se quer fazer com apenas (prováveis) poucos dias antes da própria prova? Pior, imagine a gravidade da situação de se encontrar frente ao computador e, em um ato de extremo desespero, desabafar com o Google e vir parar em um blog como o meu. Eu quero dizer, o quão angustiada uma pessoa precisa estar para recorrer a um mecanismo de buscas para aliviar a sua dor?
Imagino que o sujeito tenha caído em um post que eu vomitei no primeiro ano, quando eu estive um pouco consternado com essa droga de escolha que nos impõem. Eu tinha acabado de receber um formulário de inscrição dum simulado aí, e só sei que tinha lá (na obviedade do contexto) uma lista de cursos, com umas bolinhas vazadas acompanhando os nomezinhos. Significava que eu precisava preencher uma delas com a tinta de uma caneta. Manchas de canetas não são apagáveis, e se isso era um sinal indicativo de como seriam as coisas com faculdades e cursos, eu tinha uma vaga idéia de que estava um tanto fodido por não ter quaisquer certezas. Mas, voltando ao assunto, o fato é que o caboclo pode ser o primeiranista exagerado que eu fui e estar procurando alguém em que se apoiar frente a tudo isso. E eu só sei que é difícil estar no lugar dele (além de saber que é bom pra caramba poder se posicionar assim). Pois bem.
Quando você tem amigos no terceiro ano, mas não está você mesmo nele, é um tanto engraçado vê-los preocupados com uma prova que, assim tão distante, se lhe parece um tanto desimportante. Quase impossível imaginar o porquê de um alguém passar tanto tempo preocupado, e de insistir tão veementemente em colocar o tal assunto do vestibular até nas conversas mais inépcias. Mas aí chega a nossa vez, e de repente a gente se dá conta. Esperançosamente, é nosso último ano no colégio, e é preciso (é forçoso) que se salte dele para a faculdade. O problema é que entre os dois tem uma parede, ou uma pedra bem no meio do caminho, como queira. E o pior de tudo é que, ao tentar passar por cima, você pode tropeçar e/ou cair de boca no chão caso não faça um impulso forte o suficiente. É aquele tipo de dor que você nunca experenciou, mas mesmo assim tem uma certeza muito lúcida de que ela deve ser bem grande.
Pausa:
Eu juro que eu tinha um ponto, mas está tão tarde, estou com tanto sono e eu demorei tanto pra polir esses parágrafos que vieram antes que eu até me esqueci do resto das coisas que eu queria falar. Isso acontece com alguma freqüência, aliás. Então vou fazer como já fiz antes: vou deixar esse post por aqui, e n’outro dia eu faço a parte dois.
To be continued…
Ler maisDo outro lado do muro
Ele se sentava em seu fiel banco de três pernas e, do outro lado do muro, um cão gritava. Seus latidos e uivos se arrastavam pela noite como uma súplica, dizendo mil por favores, estava claro, e depois subitamente morriam no ar quente, como cortados por uma faca bem amolada. Nesses momentos o cão apenas choramingava baixinho, aguardando uma resposta chegar de uma das janelas que provavelmente contemplava, esperançoso. Era então que o barulho da cerca elétrica se sobressaía, tão impassível quanto os vizinhos. Tac-tac. Tac-tac. Tac-tac. Ela nunca mudava o seu discurso, só estalava de um jeito ao mesmo tempo lânguido e frenético. O barulho que os grilos faziam em algum lugar – incrível como os grilos são onipresentes, ele pensou – saltava do plano de fundo para o frontal. Não era uma sinfonia de cricris, mas um assovio constante e difuso que poderia passar despercebido com a menor das distrações. Daquela vez o cão tinha parado por um instante mais longo, e ele pôde ouvir um carro atravessar a madrugada da avenida lá longe. Zump.
Tragou lentamente o cigarro e calculou que os vizinhos provavelmente estavam em seus respectivos quartos e camas, dormindo seus agradáveis sonos completamente aversos aos pedidos. Afinal não estava de dia, e também não era natal. E se estava equivocado quanto a isso, só podia estar em um sentido: no lugar de dormindo, estariam ainda remexendo os lençóis, insones, e se afundando cada vez mais abaixo de seus travesseiros, tentando se desligar das reclamações do Rex. Ou do Totó, que fosse.
Rex ou Totó, o provavelmente pequeno animal não desistia. Continuava pedindo que o deixassem entrar em casa, dizendo que não tinha feito nada errado, e que estaria tudo bem se pelo menos alguém viesse brincar com ele para ajudá-lo a vencer aquela noite tão incrivelmente monótona. E tão incrivelmente quente, o rapaz pensava, avaliando que não demoraria muito mais para terminar o cigarro. Então, do outro lado do muro, o melhor amigo das pessoas da outra casa parou de latir e voltou a choramingar, mas agora em grunhidos mais baixos e guturais, afetados de resignação. O homem não soube por que e nem como, mas percebeu o cão se deitando junto ao muro e abaixando as orelhas, lá do outro lado, e sentiu que ele não choramingava mais as suas propostas, mas que estava agora apenas se lamentando. Constatou, um pouco envergonhado, que estava encurvado para a frente no banco em posição de préstimo, aquela posição que a gente assume quando vê um alguém desmaiando bem na nossa frente e se impele naturalmente, quase em um reflexo, a ajudá-lo.
Era uma bênção, ele pensava, que os cães não falassem a língua dos homens. Se tivessem meios de dizer aos seus donos tudo o que sentiam, se entendessem as palavras duras que eles lhes diziam em seus momentos ruins, e se soubessem que aquele silêncio que vinha das janelas era indiferença, então o homem e o cão não teriam nunca sido melhores amigos. Ainda que o fossem, essa amizade só duraria até que o sol se pusesse e o homem tivesse que dormir o seu sono tão justo e o cachorro tivesse que ficar do lado de fora, gritando de um jeito tão irritante e infantil…
Mas aí o cão recomeçou a latir e ele perdeu a linha do pensamento. Também decidiu que não pensaria mais. Filosófico demais para um domingo, porra, ele pensou, e jogou o toco do cigarro no chão. Não o apagou, afinal estava descalço.
- Que bobagem – ele disse, levantando-se do banco de três pernas e jogando no ar a última baforada de fumaça. Tentou fazê-la um círculo, mas não conseguiu. Ainda precisava treinar muito mais, era verdade. Deteve-se por alguns instantes de frente para o muro, esperando que o animal entendesse que seus esforços eram vãos e que ele faria melhor em simplesmente parar de pedir. Mas o cão não entendeu, e ele foi andando até a porta da varanda de mau humor. Coçou a cabeça, preocupado. Agora era ele quem precisava dormir, e o cachorro precisava parar de latir. Abriu a porta e depois ela se fechou atrás dele. Clique. Foi trancada. A varanda ficou sozinha, relegada ao som da eletricidade da cerca, do estridular dos grilos e dos gritos do cão.
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