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Do outro lado do muro

line Do outro lado do muro

Ele se sentava em seu fiel banco de três pernas e, do outro lado do muro, um cão gritava. Seus latidos e uivos se arrastavam pela noite como uma súplica, dizendo mil por favores, estava claro, e depois subitamente morriam no ar quente, como cortados por uma faca bem amolada. Nesses momentos o cão apenas choramingava baixinho, aguardando uma resposta chegar de uma das janelas que provavelmente contemplava, esperançoso. Era então que o barulho da cerca elétrica se sobressaía, tão impassível quanto os vizinhos. Tac-tac. Tac-tac. Tac-tac. Ela nunca mudava o seu discurso, só estalava de um jeito ao mesmo tempo lânguido e frenético. O barulho que os grilos faziam em algum lugar – incrível como os grilos são onipresentes, ele pensou – saltava do plano de fundo para o frontal. Não era uma sinfonia de cricris, mas um assovio constante e difuso que poderia passar despercebido com a menor das distrações. Daquela vez o cão tinha parado por um instante mais longo, e ele pôde ouvir um carro atravessar a madrugada da avenida lá longe. Zump.

Tragou lentamente o cigarro e calculou que os vizinhos provavelmente estavam em seus respectivos quartos e camas, dormindo seus agradáveis sonos completamente aversos aos pedidos. Afinal não estava de dia, e também não era natal. E se estava equivocado quanto a isso, só podia estar em um sentido: no lugar de dormindo, estariam ainda remexendo os lençóis, insones, e se afundando cada vez mais abaixo de seus travesseiros, tentando se desligar das reclamações do Rex. Ou do Totó, que fosse.

Rex ou Totó, o provavelmente pequeno animal não desistia. Continuava pedindo que o deixassem entrar em casa, dizendo que não tinha feito nada errado, e que estaria tudo bem se pelo menos alguém viesse brincar com ele para ajudá-lo a vencer aquela noite tão incrivelmente monótona. E tão incrivelmente quente, o rapaz pensava, avaliando que não demoraria muito mais para terminar o cigarro. Então, do outro lado do muro, o melhor amigo das pessoas da outra casa parou de latir e voltou a choramingar, mas agora em grunhidos mais baixos e guturais, afetados de resignação. O homem não soube por que e nem como, mas percebeu o cão se deitando junto ao muro e abaixando as orelhas, lá do outro lado, e sentiu que ele não choramingava mais as suas propostas, mas que estava agora apenas se lamentando. Constatou, um pouco envergonhado, que estava encurvado para a frente no banco em posição de préstimo, aquela posição que a gente assume quando vê um alguém desmaiando bem na nossa frente e se impele naturalmente, quase em um reflexo, a ajudá-lo.

Era uma bênção, ele pensava, que os cães não falassem a língua dos homens. Se tivessem meios de dizer aos seus donos tudo o que sentiam, se entendessem as palavras duras que eles lhes diziam em seus momentos ruins, e se soubessem que aquele silêncio que vinha das janelas era indiferença, então o homem e o cão não teriam nunca sido melhores amigos. Ainda que o fossem, essa amizade só duraria até que o sol se pusesse e o homem tivesse que dormir o seu sono tão justo e o cachorro tivesse que ficar do lado de fora, gritando de um jeito tão irritante e infantil…

Mas aí o cão recomeçou a latir e ele perdeu a linha do pensamento. Também decidiu que não pensaria mais. Filosófico demais para um domingo, porra, ele pensou, e jogou o toco do cigarro no chão. Não o apagou, afinal estava descalço.

- Que bobagem – ele disse, levantando-se do banco de três pernas e jogando no ar a última baforada de fumaça. Tentou fazê-la um círculo, mas não conseguiu. Ainda precisava treinar muito mais, era verdade. Deteve-se por alguns instantes de frente para o muro, esperando que o animal entendesse que seus esforços eram vãos e que ele faria melhor em simplesmente parar de pedir. Mas o cão não entendeu, e ele foi andando até a porta da varanda de mau humor. Coçou a cabeça, preocupado. Agora era ele quem precisava dormir, e o cachorro precisava parar de latir. Abriu a porta e depois ela se fechou atrás dele. Clique. Foi trancada. A varanda ficou sozinha, relegada ao som da eletricidade da cerca, do estridular dos grilos e dos gritos do cão.

4 comentários

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  1. cara, muito foda. sem palavras, eu nao consigo fazer uma narração tão rica assim. só acho que falta uma vírgula aqui:

    Não o apagou, afinal estava descalço.

    obs: vc vai ter que me passar esse plugin que permite a pessoa formatar o comentário :P

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  2. vendo numa questão de vestibular (!), eu vo que não tem (ou não precisa ter) vírgula depois desse “afinal”. mas ainda acho estranho. :P

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  3. Grande Phillipe, obrigado pela visita e pelos comentários no meu blog.
    É um grande estímulo, saiba, saber que tenho leitores sensíveis e inteligentes como você.
    Seu blog está ótimo.
    Voltarei outras vezes para poder ver com mais vagar e fruir as coisas boas que há por aqui.

    Grande abraço!

    elienai

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  4. Vinicius

    Odeio os grilos (e as cigarras) onipresentes, menos do que a cerca elétrica, mas odeio ;/

    Gostei do conto!

    Só mais uma coisa:

    “Grande Phillipe,”

    acho que tem um erro aqui. =/

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