rss search

A bagunça

line A bagunça

~ a bagunça é bicho traiçoeiro. começa na surdina, em um copo não levado à cozinha por preguiça ou mesmo num papel deixado sobre a mesa por mero desaviso. a partir daí, evolui paulatinamente, e não importa quando você a percebe, sempre já é tarde demais: ela já domina o seu quarto e está toda enrolada no seu pescoço, tentando sufocá-lo. portanto, tenha todo o cuidado, mas saiba que mesmo todo o cuidado é pouco.

Acredito que não há nada de interessante nisto que se seguirá. Não é um conto, nem um fragmento, mas também não acho que seja só um relato. Este sou eu e esta é uma das minhas conquistas. Mas uma tão íntima que talvez nem se lhe pareça assim.

Passada a tempestade, hora de fazer algumas tarefas. Foi pensando nisso que fui voltando para o quarto, procurando dentro de mim qualquer réstia de coragem que me possibilitasse promover aquelas mudanças tão adiadas, de satisfazer enfim a vontade que já ficara velha e quase debilitada. Não se tratava de nada radical, nada que significasse uma mudança em todo o curso da minha vida. Haha! Na verdade era só um quarto que precisava desesperadamente de ordem. Nada mais simples do que isso.

Parei no umbral da porta, senti a costumeira claustrofobia. Olhei: apostilas empilhadas sobre o teclado, algumas poucas deitadas sobre o lugar correto – a prateleira sobre o monitor -, folhas espalhadas por sobre a cama, a mochila jogada ao pé dela, três livros não lidos sobre o criado-mudo, roupas emboladas sobre a tampa do cesto, meia dúzia de copos próximos do computador – os que tiveram coca-cola apinhados de formigas -, pelo menos três pacotes de biscoito pela metade espalhados pela mesa – estes sem formigas, acho que elas não gostam de passatempo -, os fios dos controles do videogame passando por cima de mais papéis, o próprio videogame caído para o lado, os livros enfileirados todos pendendo, quase caindo da prateleira, o carregador do celular e o do MP4 embolados no outro canto,  a caixinha que antes fora de um relógio agora cheia de pilhas descarregadas, o tubo cheio de mídias virgens logo ao lado, as provas feitas recentemente jogadas por perto, o estojo usado por cima delas, o videogame portátil ali bem próximo, meio fora, meio dentro da capa de proteção, a cama desarrumada, o guarda-roupa entreaberto, a toalha dentro dele, e se insinuando para fora, e eu parado à porta, pensando em todo um ano. Toda a falta de tempo, a correria, o desinteresse pela ordem, tudo impregnado nessa minha bagunça, no caos da falta de tempo, deixando mais difícil respirar. Mas agora que tudo acabou eu posso arrumar isso que adiei tanto. Se eu conseguir superar essa letargia insana, é claro.

Decidi tomar um banho. Imaginei a preguiça como uma coisa grudenta saindo do meu corpo e descendo pelo ralo do banheiro junto com a água gelada. Funcionou. Alheio aos apesares – leia-se: eram sete da noite, eu tinha em mim o cansaço de todo um dia – vesti uma roupa leve, liguei o computador e coloquei uma música. Desliguei o monitor e olhei em volta mais uma vez, antes de começar. Decidi que as coisas da escola seriam as primeiras, ainda que eu tivesse certeza de que isso me tomaria tempo demais. Eu passaria alguns bons minutos sentado entre provas, anotações e lembranças, como já fizera antes, e depois, já sem tempo ou disposição, limitar-me-ia a terminar a arrumação por esconder tudo nas gavetas. Mas, para a minha surpresa, não foi bem isso que aconteceu.

Só juntei todos os papéis (provas, anotações, revisões, exercícios) sem olhá-los por mais que alguns segundos e condicionei-os em uma caixa vermelha de papelão. Quanto à mochila, esvaziei-a. Reencontrei lá dentro, além de papéis de Halls, canetas supostamente perdidas há tempos e provas severamente amassadas, o CD de ópera que uma amiga me dera uns dias antes. Estava guardado em um bolso que eu nunca tive o costume de abrir. Coloquei-o para tocar. À época do lançamento, a garota que o canta tinha uns doze anos, pelo que eu sei. E ela canta como um anjo – como um anjo adulto que estudou a própria voz durante toda uma vida. É o que eu penso sobre Charlotte Church agora.

Enquanto ela cantava Pie Jesu (de um musical do Andrew Lloyd Webber) na interpretação mais doce dessa música que jamais ouvi, eu estudei o guarda-roupa e decidi que ali, naquele compartimento lá no alto, os meus livros escolares teriam o seu novo lugar. Peguei-os todos pelo quarto, coloquei juntos os da mesma matéria, empilhei-os e depois os guardei. Só que de repente o guarda-roupa não me pareceu mais tão adequado. Escolhi o armário onde estava a caixa com as provas, as anotações, as revisões e os exercícios. Fazia muito mais sentido. Transplantei-os para lá.

Voltei-me para as gavetas. Respirei fundo. Seria a primeira vez em alguns bons anos que eu estaria arrumando aquelas. Empurrei a cama de forma que  eu ganhasse mais espaço no chão. Tencionava espalhar por ali tudo que havia lá dentro. Tirei a primeira e assim o fiz. Eu colocaria em um canto tudo que retornaria para ela quando chegasse a hora de recolocá-la em seu lugar, e arremessaria para o outro lado da cama tudo que se destinaria ao lixo. Espantei-me quando me vi jogando para o canto praticamente tudo que havia lá. E era a primeira gaveta! São só as coisas mais importantes as que têm lugar nas primeiras gavetas.

E joguei quase todas as coisas das outras três, também. Eu as havia guardado antes sob a escusa de que elas me haviam sido preciosas no passado. Bem, o meu critério dessa vez foi simples: se nunca mais haverá préstimo para qualquer uma delas, então por que deixá-las ocupando espaço e se empoeirando? Para começar, eu sou alérgico à poeira, então por que não?

Abri o guarda-roupa. Tirei a toalha lá de dentro e pendurei-a noutro lugar. Arranjei cabides novos e aliviei, com o uso desses, os que estavam sobrecarregados; escolhi deixar os cintos dependurados na arara. Peguei os potes de gel, vi que estavam todos vencidos já fazia dois anos e os atirei para o outro lado da cama também. Foi o mesmo com os cremes que eu nunca usei. Também me livrei das caixinhas dos perfumes.

Agora estava perto do fim. Coloquei tudo que tinha resistido à minha inspeção de volta nas gavetas, e estas, por suas vezes, foram colocadas de volta em seus trilhos. Voltei a cama ao seu lugar. Assustei-me com o tamanho da pilha de lixo que se acumulara perto da porta do quarto. Fui pegar sacos plásticos nos fundos da casa. O primeiro encheu rápido. Queria saber de quantos litros era a sua capacidade para te passar uma idéia do volume, mas eu só sei dizer que era um daqueles sacos pretos (que às vezes são azuis) que parecem existir em todo lugar do mundo. Tão comuns quanto aqueles cobertores vermelhos ou azuis que sempre me deram alergia e que têm um padrão quadriculado. “Seca poço”, acho que é assim que o chamam por aqui. Você com certeza também tem um.

De qualquer forma, feito isso eu parti para o lado do computador. Foi relativamente fácil. Peguei os controles do videogame, desembolei os fios e os coloquei em uma das gavetas que tinham ficado vazias. Recoloquei o videogame em seu suporte. Amassei os papéis que estavam embaixo e em volta do teclado. Arremessei-os para o saco de lixo mas errei. Deixei assim, por enquanto. Encontrei mais provas e simulados. Levei-os para aquela caixa de provas, anotações, revisões e exercícios que eu já mencionei antes. Só que entre eles tinha o vestibular que eu acabara de fazer, então preferi deixar este ao meu alcance.

Estava chegando mais perto ainda do fim. Quase, quase. Agora faltava reendireitar os livros na prateleira em cima do computador, e fazer o mesmo com as gramáticas e dicionários que ficavam na prateleira do outro lado. Além disso, precisava deixar só um livro no criado-mudo. Depois de fazer tudo isso, revistei uma latinha que havia numa das prateleiras. Encontrei ali uns brinquedinhos brilhantes que foram parte de uma promoção da Coca-Cola uma vez, eu acho. Não me recordo o nome, mas posso dizer que são bonequinhos pequenos que parecem extraterrestres de filmes estadunidenses. Havia adesivos, também. Estes eu colara nas fitas do meu falecido Nintendo 64. Eu me lembro disso.

Tirei-os da latinha e os coloquei na prateleira mais alta da minha mobília, onde eu não os poderia ver à noite. Sempre tivera medo deles, disso também me lembro muito bem. É que os olhos deles são brancos e brilham mais do que o resto do corpo, que é de um plástico translúcido e um tanto brilhante. Causavam-me pesadelos, é verdade.

Por fim, peguei todas as roupas que estavam em cima do cesto e coloquei-as embaixo do braço. Com a outra mão, tirei a tampa. Lá dentro não havia nada. Joguei as roupas ali e voltei a tampa ao lugar. Agora sim. Juntei tudo mais que havia perto dos sacos de lixo (as bolas de papel que eu errara e alguns outros papéis que haviam caído) e apliquei-lhes um nó. Coloquei-os na varanda dos fundos.

Voltei, peguei os copos vazios infestados de formigas e os pacotes de biscoitos pela metade sem formigas e levei-os todos para a cozinha. Voltei e parei no umbral da porta. Olhei: a cama sem nada em cima, o guarda-roupa bem fechado, o preto e branco do teclado totalmente visível, assim como estava o azul da pátina da mesa do computador. Os últimos livros da fileira ainda estavam meio tortos. Anotei em um post-it que precisava comprar um daqueles suportes e colei no monitor. Perto do monitor, aliás, não tinha papéis nem copos nem pacotes de qualquer coisa. Só o teclado do computador e o microfone. Em cima dele tinha a câmera, também. Guardei o CD da Charlotte Church na prateleira adequada e me joguei na cadeira. Girei nela e olhei em volta mais uma vez. Tudo limpo. Dever cumprido, garoto, eu me disse, mas não com essas palavras. Também pensei algo como você se livrou do vestibular e da bagunça do seu quarto. Não vou mentir que pensei algo bonito e lírico. Este simplesmente não sou eu.

Quando a cadeira terminou de girar, liguei o monitor — vim compartilhar o fato. Sinto-me leve, aliás.

4 comentários

line
  1. esse alívio eu ainda não sinto. então pra disfarçar, acumulo mais sujeira no meu quarto, um vicio cá e outra acolá também ajuda ,)

    line
  2. Ingrid

    Mal [não tão mal], de todo vestibulando: a “íntima” bagunça dos papéis e livros pelo quarto! Parabéns pra vc que superou a descoragem e hoje sente-se aliviado; eu adiei para amanhã ! O.o Amei a crônicaa !

    line
  3. “Nada mais simples do que isso.”
    Bela frase, muito bem colocada, encaixa-se perfeitamente ao contexto, e, devo dizer, nada confusa.
    hahahaha ;D

    line
  4. Lucas Fonseca(Pooh)

    Adorei novamente.
    “era um daqueles sacos pretos (que às vezes são azuis) ” hasuhsau
    muito boa essa parte.

    line

Deixe um Comentário