Posts feitos em dezembro, 2008

Tempo e outras divagações

ou: a abolição da coesão; ou ainda: stepping out of the ordinary; ou quem sabe: stepping into a madhouse.

O que fazer do tédio? A música vai medindo a passagem do meu tempo, e por não ouvi-la com atenção também não tenho a noção das horas. Acho que elas se metem a andar mais rápido quando não tem ninguém observando. E deve ser isso mesmo, porque o tempo pareceu se dilatar naquelas vezes em que eu peguei o relógio da gaveta e sentei com ele no silêncio, só observando os ponteiros se mexerem. Aliás, deve ser por isso que os minutos costumam demorar tanto pra passar: estamos sempre consultando a que altura estamos na passagem dos segundos. Eu sei que o tempo é só uma percepção. Ele na verdade não existe, não é mesmo? Separamo-lo em dia e noite, duas coisas que só existem do nosso ponto de vista. Que estivéssemos no espaço ou que a Terra não girasse, eu gostaria de saber como mediriam o tempo desde o início – aliás, eu poderia apostar que se nós não envelhecêssemos, ninguém teria jamais inventado o relógio. Essa dependência de circunstâncias (o movimento do planeta e a alternância de dia e noite, a não-localização no espaço), de qualquer forma, só pode significar que ele (o tempo, não o relógio) não existe. Ou isso ou o tempo só vale para a Terra e o resto do universo é atemporal.

Mas se o tempo não existisse, como poderia haver um conceito ou mesmo uma palavra como “atemporal”? A sua existência seria uma hipótese bastante improvável por pelo menos dois motivos. A primeira implicação é gramatical: o “atemporal” derivou-se do “tempo”. Logicamente, portanto, a não-existência deste automaticamente exclui a possibilidade de existência daquele. A segunda é filosófica, de cunho paradoxal: como uma coisa “a” poderia ter a qualidade de ser oposta a uma outra coisa “b”, sendo que essa última não existe? A que “a” estaria se opondo então, ao nada? Então o universo passaria de “atemporal” para “tudo”, o oposto de “nada”? Espera, isso está começando a virar um algo sem sentido que faz sentido, porque, se você pensar o conceito, o universo é “tudo”. E se isso pode ser tomado como verdade, então também se torna verdadeiro o pressuposto (do qual parti) de que o universo de fato é atemporal? Não, espere, não foi isso que eu disse. Eu disse que o universo não é atemporal só porque o tempo na realidade não existe. Mas ao mesmo tempo, se o tempo não existe, então tudo é atemporal. O problema é que eu não tenho meios de dizer isso, já que estaria chegando a uma implicação gramatical e outra filosófica. Então vamos fazer assim: ignoremos as implicações da afirmação. Vou dizer e você vai entender sem encrencar tanto com isso quanto eu estou encrencando: o universo é atemporal. O tempo não existe. Que se faça o sentido.

Ai, como eu sou humano. Estamos sempre tentando encontrar e ratificar explicações tendo como base a lógica da mente humana, não é verdade? Como se ela fosse o parâmetro de todas as coisas. Ah, que infames. Só de pensar que nós raramente entendemos o que se passa em nossas próprias cabeças, cabeças essas que levamos conosco para todos os cantos durante todas as nossas vidas! Somos tão hipócritas a ponto de admitir que não entendemos a psicologia humana mas que, apesar disso, compreendemos o universo. É quase como aquela coisa: você vê uma criança fazendo algo incompatível com a idade dela e aponta o ridículo do fato acusando-a de nem saber limpar a própria bunda.

O homem tem essa coisa de achar que o universo existe para completá-lo, ou que é o contrário, que ele existe para completar o universo. Mas são igualmente mesquinhos os dois jeitos, o direto e o inverso. Somos aparentemente incapazes de aceitar que pode não haver sentido para tudo. Eu só sei que no início certamente não havia um. Essa coisa de “sentido”, na verdade, só passou a existir quando o homem surgiu no grande vazio das coisas e se viu sem muito o que fazer. Dotado da capacidade de falar dentro de sua cabeça (ou pensar, em um só verbo – como queira), começou a atribuir razões para tudo e até inventou a própria razão, aquela que grafa com a primeira letra maiúscula. Se ele não tivesse esse recurso, se só pudesse falar fora de sua cabeça, para outra pessoa, talvez nada disso tivesse acontecido. Quer dizer, se os bebês de hoje em dia, que são mais espertos do que não sei o quê, ainda não nascem sabendo falar, então o que poderíamos dizer do primeiro ser humano que apareceu na Terra? Um bronco total. Ele nunca teria pronunciado a primeira palavra, não sem a capacidade de pensar. É que se fosse um esforço social, o início da chamada evolução, o nosso egoísmo o teria certamente impedido de vir. Mas o fato é que ela começou por um esforço particular, e eis que esse primeiro sujeito se entediou. E ele podia pensar. O tédio é um mal do homem já há milênios, isso todo mundo sabe, e nessa condição (de entediado) ele tende a divagar (quando não consegue dormir), bem como eu estou divagando agora (já que não consigo dormir). O resultado você já sabe, eu já disse antes: ele começou a encontrar razões, inventou a “Razão” e o tal do sentido. Os que vieram depois dele inventaram a ciência, o suposto ápice da capacidade cognitiva do ser humano. Mas eu ouso dizer, aliás, que todas as ciências que existem nada têm de imparciais. Pelo contrário, foram todas elas influenciadas pela condição de humanidade obviamente inerente a todos nós. E a fragilidade dessa condição é o que, com o perdão da palavra, fodeu com toda a glória da ciência. Não deixa de ser uma idéia bela, de qualquer forma. É mais ou menos como o socialismo de Marx: poderia ter dado certo, não fosse, é claro, a sua dependência de pessoas, que, bem, são humanas.

E, já que estou falando o que eu penso, vou dizer mais. Eu acredito que a vida é só uma passagem, nada mais do que isso. Os poetas árcades viveram e morreram pregando que somos todos efêmeros. E a vida é uma coisa bastante insignificante, se quer saber. Nunca sequer houve mais matéria no universo quando um animal (irracional ou racional) nasceu, tenha sido ele o Einstein ou o Totó. Aliás, o universo tem hoje a mesma quantidade de matéria que tinha antes mesmo do surgimento da Terra. Os átomos que me constituem que constituem você que constituem o seu vizinho são os mesmos que um dia fizeram parte de, sei lá, um planeta bilhões de anos-luz distante daqui que simplesmente explodiu há um tempão atrás. Acredite se quiser.

Mas o mal de ficar viajando nessas coisas ridiculamente grandes e malucas (universo, conceitos, vida, humanidade) é que você pode se distrair muito facilmente do pensamento inicial. Só para ser do contra, eu vou me lembrar do que eu queria dizer antes. É que eu fico pensando: por que é que nós deslizamos pelo espaço sem contá-lo em metros e fazemos isso com o tempo? Que mania chata essa nossa, a de ficar cronometrando a tal da passagem. Passemos, e que seja só isso! As pessoas precisam parar de ser tão antiquadas. Parem de buscar as respostas nas bíblias, alcorões e torás e comprem um livro de física moderna. E para quem não quiser gastar dinheiro, a Wikipedia está a um clique. O único problema é que ela foi feita por humanos e codificada de acordo com a mente deles. Digo, nossa. Nossa mente. Por mais que eu não goste disso, acho que ainda não temos nenhum outro parâmetro no qual nos apoiarmos, por enquanto. Infelizmente.

Mas eu ainda prefiro pensar em buracos negros, realidades alternativas e expansão do universo do que ficar imaginando se eu vou para o céu ou para o inferno quando morrer. Mesmo que seja tudo mentira, viagem total, isso pelo menos me ajuda a abrir a mente e me faz ver que eu não sei absolutamente nada. Aliás, se tem um cara que um dia falou algo realmente verdadeiro, esse cara foi Sócrates – isto é, se ele realmente existiu. Só não vou citar a frase dele porque eu detesto fazer citações, acho algo extremamente cafona, e além do mais não quero dar esse gostinho para o tal cara (se ele tiver existido) – tudo bem que ele já morreu (novamente, admitindo que ele viveu). Mas que fique subentendida a tal frase, então, e ficará tudo bem assim. Qualquer coisa eu não sei de nada. Aliás, eu não sei mesmo. Ó, vida.

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Desglobalizar-me-ei

Agora vou ser antiquado, já decidi. Não correrei mais junto ao tempo e nem contra ele, o que sempre achei um tanto estúpido. Se ele me deixar para trás, tudo permanecerá tão bem quanto sempre esteve. Vou respeitar toda e qualquer regra que eu estabelecer para mim mesmo, sem importar se segui-la vai me tomar tempo demais ou se no fim das contas isso acabar se mostrando desnecessário.

Não mandarei outro e-mail – quando se fizer preciso, recorrerei às cartas ou ao telefone. Isso se não for possível caminhar até a pessoa com a mensagem, é claro, ocasião depois da qual caminharei em companhia dela até um café com nenhum outro intuito a não ser o de colocar os assuntos em dia.

Por falar nisso, vou começar a acordar bem cedo e tomar o meu desjejum na varanda, apreciando a luz do sol a se espalhar pelo céu. Também vou fazer um lanche quando vierem as tardes e jantar quando estiver de noitinha. E vou fazer isso em todos os dias, sejam eles santos ou não. Aliás, eu vou dizer “de noitinha”, além de “paquerar” e “discoteca”. Se bem que não vou mais a nenhuma boate, digo, discoteca: quando eu quiser ouvir música, vou convidar alguns amigos para beber vinho e tocar violão, mas só quando e se estiver bem frio. E vou comprar uma vitrola, para quando eu não estiver me sentindo muito social. Ah! E vou chegar tão longe quanto exclamar “homessa!” quando alguém me contar algo e isso me deixar espantado. E, quer saber? De vez em quando vou usar dos partitivos, da mesóclise, dos futuros não-compostos e dos hipérbatos.

Substituirei meu computador por uma máquina de escrever e uma calculadora, tanto em casa como no trabalho. E caminharei até a empresa, mas pegarei o carro quando for à chácara, nos fins demana, porque penso que não há outro jeito. E quando eu estiver lá, ficarei no rio a tarde toda, para depois descansar no balanço de uma rede bem confortável.

E, por fim, eu ousarei ser romântico. Hei de freqüentar um bar calmo, onde poderei encontrar alguns novos bons amigos, que saibam tocar instrumentos como violino e bandolim, e que de quando em vez vão comigo fazer uma serenata ao pé de uma janela no subúrbio. Tomarei aulas de canto lírico.

E vou amar você, já disse. Amar-te-ei intensamente, e por muito tempo. Com você eu não quero a rapidez daquele verbo insano, o tal do “ficar”, que quer dizer tanto não ir como ir. Vou te amar à moda antiga, munido do direito aos galanteios todos, e aos planos para o futuro. Sim, eu vou ousar pensar no futuro.

Quero me deitar com você numa cama confortável, e quero que possamos ficar abraçados por tanto tempo quanto quisermos, sem que precisemos nos preocupar com horários de chegada, de partida, pensamentos alheios e fachadas. Quero poder afundar com você no silêncio do isolamento sempre que quisermos, e compartilhar com você a experiência docílima do que é a solitude quando se está acompanhado. Quero ousar redescobrir o amor ao seu lado. E quero isso tudo neste século maluco, o vinte-e-um. Tudo que eu quero do tempo é a liberdade que com ele se acumulou, e mais nada.

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