Posts feitos em dezembro 7th, 2008

Desglobalizar-me-ei

Agora vou ser antiquado, já decidi. Não correrei mais junto ao tempo e nem contra ele, o que sempre achei um tanto estúpido. Se ele me deixar para trás, tudo permanecerá tão bem quanto sempre esteve. Vou respeitar toda e qualquer regra que eu estabelecer para mim mesmo, sem importar se segui-la vai me tomar tempo demais ou se no fim das contas isso acabar se mostrando desnecessário.

Não mandarei outro e-mail – quando se fizer preciso, recorrerei às cartas ou ao telefone. Isso se não for possível caminhar até a pessoa com a mensagem, é claro, ocasião depois da qual caminharei em companhia dela até um café com nenhum outro intuito a não ser o de colocar os assuntos em dia.

Por falar nisso, vou começar a acordar bem cedo e tomar o meu desjejum na varanda, apreciando a luz do sol a se espalhar pelo céu. Também vou fazer um lanche quando vierem as tardes e jantar quando estiver de noitinha. E vou fazer isso em todos os dias, sejam eles santos ou não. Aliás, eu vou dizer “de noitinha”, além de “paquerar” e “discoteca”. Se bem que não vou mais a nenhuma boate, digo, discoteca: quando eu quiser ouvir música, vou convidar alguns amigos para beber vinho e tocar violão, mas só quando e se estiver bem frio. E vou comprar uma vitrola, para quando eu não estiver me sentindo muito social. Ah! E vou chegar tão longe quanto exclamar “homessa!” quando alguém me contar algo e isso me deixar espantado. E, quer saber? De vez em quando vou usar dos partitivos, da mesóclise, dos futuros não-compostos e dos hipérbatos.

Substituirei meu computador por uma máquina de escrever e uma calculadora, tanto em casa como no trabalho. E caminharei até a empresa, mas pegarei o carro quando for à chácara, nos fins demana, porque penso que não há outro jeito. E quando eu estiver lá, ficarei no rio a tarde toda, para depois descansar no balanço de uma rede bem confortável.

E, por fim, eu ousarei ser romântico. Hei de freqüentar um bar calmo, onde poderei encontrar alguns novos bons amigos, que saibam tocar instrumentos como violino e bandolim, e que de quando em vez vão comigo fazer uma serenata ao pé de uma janela no subúrbio. Tomarei aulas de canto lírico.

E vou amar você, já disse. Amar-te-ei intensamente, e por muito tempo. Com você eu não quero a rapidez daquele verbo insano, o tal do “ficar”, que quer dizer tanto não ir como ir. Vou te amar à moda antiga, munido do direito aos galanteios todos, e aos planos para o futuro. Sim, eu vou ousar pensar no futuro.

Quero me deitar com você numa cama confortável, e quero que possamos ficar abraçados por tanto tempo quanto quisermos, sem que precisemos nos preocupar com horários de chegada, de partida, pensamentos alheios e fachadas. Quero poder afundar com você no silêncio do isolamento sempre que quisermos, e compartilhar com você a experiência docílima do que é a solitude quando se está acompanhado. Quero ousar redescobrir o amor ao seu lado. E quero isso tudo neste século maluco, o vinte-e-um. Tudo que eu quero do tempo é a liberdade que com ele se acumulou, e mais nada.

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