Posts feitos em janeiro, 2009
O caderninho
A coisa estranha dele era que ele sempre trazia consigo um caderninho e um lápis número 2. Isto é, desde os seus sete anos de idade, quando apanhou até desmaiar por ter colocado uma vela próxima de uma cortina. Mas nem eram ainda esses seus dois inseparáveis companheiros os responsáveis pela estranheza que o tornou digno de nota. É que ele só os usava em uma ocasião: sempre que ouvia uma sentença que vinha antes de algo como “jamais se esqueça disso”, ele a anotava ali. E mantinha e seguia essas suas anotações como se fossem bem uma bíblia, mas eu penso nelas mais como um manual. Todos os seus pensamentos e todas as suas atitudes, emoções e palavras vinham de seu coração, é claro, mas era tudo filtrado e remodelado por e segundo as lembranças perpetuadas naquele caderninho. Nada saía sem antes passar pelo seu crivo, que, sustentado na precisão e impassibilidade das coisas que são escritas, tornara-se indiscutível.
Foi assim que ele nunca se apaixonou, xingou, nem abriu a porta para estranhos, para citar alguns de seus feitos. Nunca se esqueceu do amor do pai e da mãe ou da constante vigília de Deus, e o único dia que passou sem escovar os dentes foi quando foi acampar com uns amigos aos dezoito anos. Mas aí escreveu que jamais deveria se esquecer da escova de dentes ao lado da anotação que o instruía a nunca deixar de escovar os dentes e isso não aconteceu outra vez. E também foi assim que ele entrou em depressão e morreu quando perdeu o caderninho, e só o lápis número 2 sobrou. Sem as suas instruções de como viver, o pobre rapaz se matou. Jamais alguém o advertira para nunca se esquecer do caderninho, de modo que eu tenho que dizer que, portanto, ele um dia fatalmente o esqueceu. E nunca haviam dito nada porque achavam aquilo simplesmente estranho demais.
Ler maisA espera e uma espera
Parando para pensar, é melancolicamente engraçado que eu fique, bem, decompondo o tempo desse jeito quando eu espero. Percebi que, nessas horas, eu sempre me coloco a imaginar os eventos que ele impede de acontecer e os eventos que ele desencadeia – maneiras com as quais o trânsito, a pressa, a falta de pressa, a chuva, a noite, o dia ou o dólar poderiam prolongar ou encurtar a minha espera. E, conforme os minutos passam, fico pensando: bom, se ainda não terminou definitivamente só pode ser por causa disso. Ou talvez…
E me perco. O tempo é cruel: ele analisa tudo isso em uma velocidade com a qual a mente humana simplesmente não pode competir. Pego /ê/ por essa disparidade, faço com que o tempo se estique sob a minha percepção. Acho que é isso que acontece.
Esperar, para mim, é parar num momento de vulnerabilidade, de vergonhosa impotência; ficar ali, estático, braços e pernas atados, e a própria mente firmemente atada na coisa esperada também. Para mim, esperar é se submeter ao mundo em sua crueldade – circunstâncias, prazos, distâncias, velocidades; subjugar-se a todas as avarias e possibilidades, desgastar-se, e ter à própria disposição a faculdade – só, frágil e viciosa – de avaliá-las enquanto o tempo vai tecendo o caminho da realidade através delas. Enquanto o tempo vai escolhendo: agora acontece isso, agora aquilo, e assim vai fazendo tudo progredir.
Sim, para mim é assim porque eu acho que sofro de ansiedade. Quando espero música alguma me acalma, livro nenhum me interessa, e não existe passatempo que cumpra seu papel. Também não fico mais tranqüilo comendo e acredito firmemente que nenhum outro truque funcione comigo. Se bem que, no momento, estou experimentando escrever e, para o meu contento, a minha mania de perfeição que sempre tanto tomou meu tempo e absorveu minha atenção parece estar funcionando. Não se engane – esta foi uma das últimas linhas deste texto que escrevi. Antes de escrevê-la, fiz inúmeros reajustes mais acima e mais abaixo, mas continue lendo.
Só sei que derramei uma lágrima nessa agonia – era isso que eu queria contar -, mas agora não sei se é de ansiedade ou de agouro; se é só sinônimo de derrota ou uma estranha sintonia me transmitindo notícias ruins que o meu corpo entende, mas a minha mente não. Estou mortificado, tudo dói, bem como se eu tivesse envelhecido uns sessenta anos nesses últimos sessenta segundos. O que seriam essas lágrimas, afinal? Só minha fraqueza diluída em água e sal?
Sofrer de ansiedade é se meter embaixo de um peso insuportável, e essa espera não quer findar. A casa está em silêncio, as notícias também não chegam. O celular só dá fora de área e eu só queria estar fora de órbita. Esperar no escuro da insipiência é a pior claustrofobia.
A minha única sorte é que sou resiliente — que ele chegue dando um fim a tudo isso, eu retomo o statu quo ante. Ou assim espero.
Ler maisA metafonia
Aproveitando a quebra de hábito, uma pausa para publicidade.
Sondei uma nova terra, assentei-me nela e fundei ali um blog não faz muito tempo. Foi batizado “Metafonia”, esse novo domínio, e somos eu e outros cinco amigos os seus primeiros (e únicos, suponho) habitantes. Ali, a terra tem textura e aparência de fértil, e planejamos lá cultivar por tanto tempo que conseguirmos alguns bons textos e, com alguma ajuda, colher umas boas dúzias de comentários. O endereço é este: http://metafonia.freehostia.com/. O trajeto é bem simples: pode ser desta página para a próxima. Você é bem-vindo(a) para nos fazer uma visita quando dispuser do tempo e da disposição que toma uma pequena viagem. E, caso tenha ainda alguma dúvida, pare no posto de informações mais próximo. Receio, no entanto, que haja um só.
Agora, o porquê do campo lexical utilizado eu realmente desconheço.
Ler maisSilêncio
O medo de começar a falar e, na excitação de fazê-lo, se atropelar nas palavras e acabar seguindo o caminho oposto do desejado é o que faz do tempo silencioso, vazio de expressão e cheio de reticências. Perder-se nessa mudez, na inexpressão da incerteza, é como ver a vida do fundo de um lago turvo onde, mesmo que se possa ouvir uma pedra caindo longe na superfície, e que se possa ver a luz entrando quando é dia e perceber a noite quando ela vem, não se pode gritar e se fazer ouvir, emitir sinal luminoso e nem ao menos se fazer noite, tranqüilo e completo. É como estar em uma espécie de útero – albergue sombrio, misterioso e coloidal – apenas flutuando em volta de si mesmo, sem direção nem sentido, e sem senti-lo também; ficar apenas ouvindo murmúrios e sugestões de vida alheia e verdadeira lá fora. E também é como estar nesse desconcerto, na eterna repetição de um ato que vai ficando cada vez mais distante nas ondas do tempo que começa a parecer ser qualquer coisa, exceto linear.
Sinceramente não sei do que estou falando, mas também não quero me atrever a fazer sentido nesse mundo que dele tanto carece; por enquanto não quero falar de nada que alguém possa entender, porque entender é o que vem antes de questionar. E o problema de ser questionado é que você pode não ter resposta, e o que dizer de argumento. Ou, se tiver, pode ser algo duro demais, com peso insustentável. Algo como – você quis brincar de não saber se expressar e acabou se esquecendo. Tu te tornas aquilo que cativas, pequeno.
A falta de sentido seduz, tão-somente porque é caminho bem menos árduo. Escrever com sentido é lida demais. Mas o problema maior nem é isso: o que me mata é a preguiça. É ela quem me faz pensar assim. Ou seria não pensar?
Não, acho que seria só pensar preguiçosamente: tudo pela metade. Ou pelo início, pelo fim, tanto faz. Nessas horas e condições a ordem realmente não interessa.
De forma resumida, acho que é isso: estou com preguiça demais. Só mais dez minutos.
Aliás, alguém quer me dar o ‘Cadeira de balanço’, do Carlos Drummond de Andrade?
P.S.: Ou talvez no momento eu só esteja com sono.
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