O caderninho
A coisa estranha dele era que ele sempre trazia consigo um caderninho e um lápis número 2. Isto é, desde os seus sete anos de idade, quando apanhou até desmaiar por ter colocado uma vela próxima de uma cortina. Mas nem eram ainda esses seus dois inseparáveis companheiros os responsáveis pela estranheza que o tornou digno de nota. É que ele só os usava em uma ocasião: sempre que ouvia uma sentença que vinha antes de algo como “jamais se esqueça disso”, ele a anotava ali. E mantinha e seguia essas suas anotações como se fossem bem uma bíblia, mas eu penso nelas mais como um manual. Todos os seus pensamentos e todas as suas atitudes, emoções e palavras vinham de seu coração, é claro, mas era tudo filtrado e remodelado por e segundo as lembranças perpetuadas naquele caderninho. Nada saía sem antes passar pelo seu crivo, que, sustentado na precisão e impassibilidade das coisas que são escritas, tornara-se indiscutível.
Foi assim que ele nunca se apaixonou, xingou, nem abriu a porta para estranhos, para citar alguns de seus feitos. Nunca se esqueceu do amor do pai e da mãe ou da constante vigília de Deus, e o único dia que passou sem escovar os dentes foi quando foi acampar com uns amigos aos dezoito anos. Mas aí escreveu que jamais deveria se esquecer da escova de dentes ao lado da anotação que o instruía a nunca deixar de escovar os dentes e isso não aconteceu outra vez. E também foi assim que ele entrou em depressão e morreu quando perdeu o caderninho, e só o lápis número 2 sobrou. Sem as suas instruções de como viver, o pobre rapaz se matou. Jamais alguém o advertira para nunca se esquecer do caderninho, de modo que eu tenho que dizer que, portanto, ele um dia fatalmente o esqueceu. E nunca haviam dito nada porque achavam aquilo simplesmente estranho demais.
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ana seccato
