Febre
Estou com febre, estou com febre e o mundo também.
Ninguém quer que você ouse. Todo mundo não quer apenas te ver estático – quer te prever. O que é imprevisível também é uma ameaça, afinal; ao atual estado das coisas, à organização e ao fluxo delas. Àquilo a que já se acostumou. Todos têm medo do desconhecido – sim, não é a morte que as pessoas temem. É a nossa total ignorância acerca dela. As pessoas incapazes de surpreender não gostam de ser surpreendidas, essa é a verdade. Assim como aquelas que se acomodaram a tal ponto, afundaram de um jeito tal em suas tocas, que atrofiaram em suas faculdades físicas, e talvez até mesmo nas mentais. E as automatizadas, que foram pegas e devoradas pelos mecanismos dos quais fazem parte e aos quais provêem o gás, digo, o petróleo. Nenhuma delas quer que você ouse ser diferente.
Está com febre? Estou! O mundo também está!
Mesmo a Coca-Cola não quer. Ela quer que você seja igual a todo um mundo que consome aquele mesmo produto, o dela, e só quer que você ouse trocar por ele os dois reais que você poderia economizar para o próximo item da sua lista de desejos. A única ousadia desejada é a da compra. Os professores querem que você repita padrões, faça uso constante da borracha, gaste muito grafite, dedique os seus dias aos estudos que tantas pessoas já fizeram antes de você. O vestibular quer que você se subjugue aos seus professores, aos seus livros, e quer que você produza uma redação de início, meio e fim, aos quais correspondam, respectivamente, introdução, desenvolvimento e conclusão. Nunca um texto como este aqui. Talvez seja essa a sua raison d’être: eu quero poder escrever fora dos moldes.
Estamos com febre – eu numa cama, o mundo na outra.
O mundo te diz: seja simples, tenha poucos desejos. Eu estou morrendo e eu sou a sua casa. Se o teto cair, portanto, vai ser em cima de você. E os ambientalistas concordam. Polua menos, eles dizem. Os vegetarianos dizem: não coma carne. As crianças dizem: não quero verdinhos! Os adultos dizem: queremos as verdinhas! Mas não prestam atenção ao fato de que essa expressão pertence aos estadunidenses, cuja moeda de papel é verde. Está tudo errado, está percebendo? O problema não é o gás carbônico, a violência ou a miséria. O problema é esse: as pessoas estão falando demais, de modo que elas estão se perdendo dos seus objetivos, razões e convicções. Eu também tenho muito o que falar, mas não encontro a ordem! Por onde começo? E onde termino?
Febre, febre, febre. Temo que já tenhamos passado dos cinqüenta graus. Mas não disseram que isso era impossível?
Os pais dos meus amigos os chamam de católicos, mas eles mesmos não sabem do que se chamar. Os jovens estão perdidos mas não no sentido de estarem sem esperança – no sentido de terem perdido a visão da trilha, terem feito trekking na mata fechada e de repente terem se dado conta de que não havia ninguém por perto e a mata estava fechada demais. Todo mundo tem muita coisa pra dizer. Eu não acredito em muita coisa que eles dizem, eu acredito é no cérebro. Todo um potencial, ele tem. Muitos elétrons-volt, é verdade! Teve uma questão de física que envolvia sódio e potencial que eu errei no vestibular. Ou foi num simulado?
Ai, como arde. Ó, desconforto! Je suis malade! Nous sommes malades! Tout le monde! Non! Le monde en soi! Le monde et moi…
Estudei francês mas não sei por quê. Se as pessoas não me entendem nem na minha língua, por que é que eu quero saber outra? Talvez para poder falar de um jeito simples: eu moro na casa verde, como é o teu nome?, eu estou doente!, adeus!.
Se o meu olho está vermelho, a Terra continua azul. Mas ainda assim eu sei – está tão quente! Temos febre, sim, senhor.
A crise não é econômica. A da economia é só uma evidência, o primeiro passo – o trajeto leva a um precipício, tenhamos cuidado! (Eu tenho uma personagem que vaga por ali, e eu sei dizer que o lugar é repleto de vozes, ventos, e quase sempre é noite. Ou quase noite: é crepúsculo.) Depois vai se consolidar a crise dos alimentos, em seguida a crise existencial. Primeiro a minha, depois a do mundo.
Salvem os seus netos! Desmatem menos! Desculpe, esse foi o mundo. Ele está delirando ali, na cama ao lado.
Agora que se falou em netos, eu queria dizer que não penso em ter netos e também não penso em ser só mais um. Quando eu me recuperar dessa febre e for capaz de organizar meus pensamentos, eu vou separá-los e acondicioná-los em parágrafos, com tampas bem coesas. Na verdade, vou fazer muitos textos com eles, mas sem misturá-los demais. Eu estava quase achando o fio da meada, mas aí veio essa febre e eu o perdi. Mas eu vou reencontrá-lo, dou minha palavra escrita, essa bem aqui: eu vou!
É excruciante! Será que alguém teria Tylenol? Para mim serve, mas quanto ao mundo…
As temperaturas no mundo só fazem subir, não é verdade? O calor é transferido pro mercúrio dos termômetros antigos e lá vai subindo o líquido pelo túbulo. Não sei como é que funcionam os termômetros eletrônicos, mas não deve ser nada muito complicado. Afinal, eles são bem baratos e de grande disponibilidade. Só não se vende pela internet, o que seria um tanto estranho. Ou será que se vende? Afinal, o mundo anda tão estranho, de qualquer jeito…
Alguém mais está com febre? Espero que não seja contagioso.
Tenho muita inveja daqueles que escrevem livros. Mais ainda dos que os publicam. Eles mantêm um ritmo que os vai levando até o fim, o ponto final final. E aí as pessoas lêem o que eles escrevem e tudo simplesmente faz sentido. Uma vez eu fui assim, mas aí comecei a pensar demais e escrever de menos. Aí as coisas foram se acumulando na minha cabeça de forma que comecei a encontrar dificuldade para expressá-las, uma por uma. Então elas ficam na fila e ficam impacientes, se é que você me entende. Aí se empurram, roubam os lugares umas das outras, e vão saindo na primeira oportunidade, todas de uma vez, por vezes até pisoteando as mais fracas. Um caos.
Acho que o mundo acabou de desmaiar. Ou foi só a noite que caiu?
Uma descarga cerebral – é como vou chamar isso tudo. Mas não vai ser o título desse texto, porque o título eu já escolhi há uns cinco parágrafos. O título há de ser “febre”, porque eu não quero que tomem esse texto como parâmetro para me julgar como escrevente – sim, porque eu não posso dizer “escritor”, ou as pessoas vão fazer confusões. Ninguém pode levar a sério as palavras de um homem febril.
Acho que às vezes a pessoa precisa fazer algo assim – se permitir a loucura, já que ela insiste tanto assim em se libertar, alfinetando sem nunca perder a energia. Deixá-la dar uma volta pelo mundo de fora, distorcer as palavras até que se canse. Depois disso ela se recolhe em um canto longínquo da alma por conta própria e então adormece, dando lugar à lucidez. Aí a lucidez pode chegar e organizar os pensamentos: pra que essa fila? Voltem já para os seus quartos! Andem, andem! E a consciência do escrevente fica em paz. Quando ele quer falar sobre uma coisa, ele simplesmente a chama e ela vem, de cabeça baixa, transparente, leve e obediente.
Daqui pra frente, vai ser assim. Esta foi a última descarga cerebral. A minha meta é fazer sentido, como agorinha eu havia prometido que ia fazer.
Como eu ia dizendo, ninguém quer que a gente ouse. Mas eu sou do tipo que ousa. Ser diferente, escrever diferente, e ainda colocar tudo isso num blog. Eu não era assim, mas felizmente agora eu sou.
Acho que a minha febre está passando. Mas o mundo ainda me parece doentio.
