Cadeira de balanço
Estou feliz. Comprei o meu Cadeira de balanço pela internet e agora ele está do meu lado. Isso me dá uma sensação estranha de realização, de conquista, não sei. Acho que esse livro me contagiou – passar do ódio à admiração é uma experiência bastante curiosa. Foi essa por que passei quando saí do colégio e redescobri Carlos Drummond de Andrade. Dessa vez como o prosista, e não o poeta.
Mas nem tudo são flores. Antes disso, eu tinha seguido o caminho inverso: conheci um Rubem Alves fantástico no colégio, aí comprei o Ostra Feliz Não Faz Pérola e acabei encontrando ali um escritor um tanto infantil no uso das palavras. Ainda assim, o livro tem lapsos de uma maturidade que o tempo se encarregou de trazer, mas nada a ver com intrincácia do uso da língua. No fim das contas, acho que é isso o que me atrai nos autores. Mas é claro que eu não julgo o escritor de tantos livros por um só – essa talvez até tenha sido a intenção desse que eu comprei. De todo jeito, isso não altera o fato de que me decepcionei.
E até a aquisição tem outra faceta: por outro lado, ela também me deixa um tanto claustrofóbico. A conta de livros que estão sendo lidos acaba de subir para seis. Minha avó sempre diz que quando a coisa é demais, muito não basta. Mentira, eu acho que acabei de inventar isso. Faz algum sentido? Eu gosto da sonoridade. Acho que, se alguém me o dissesse desse jeito, como eu disse, eu provavelmente acreditaria se tratar de um ditado popular.
Spams e beneficência
Sempre nutri uma certa raiva por esses e-mails do tipo aumenteseupênisematévintecentímetros ou nossasfotinhasnomotel, ainda que a criatividade tanto maliciosa quanto inocente deles, em contrapartida, sempre tenha me divertido. Mas hoje tive um momento de epifania e, como é de se esperar, tudo mudou. Esses e-mails nunca vão me pegar, eu pensei, e o gmail é eficiente o suficiente para levá-los todos para a caixa de spams tão logo eles chegam, de modo que não poluem minha caixa de entrada, mas é fato que sempre existe um número de pessoas que realmente cai na conversa fiada deles – as cabeças nas quais essas balas perdidas buscam se encontrar. Até porque em um mundo tão sujeito a variáveis e circunstâncias como o nosso o resultado não poderia ser outro. Quer dizer, quantos novatos de internet têm o pau pequeno e quantos homens broncos de fato estiveram em um motel recentemente, onde andaram tirando fotos? Sem contar aqueles que vêem um e-mail do tipo nossasfotinhasdomotel e pensam: “a idiota mandou o e-mail pro cara errado, e agora eu vou ver tudo!”. Caras assim simplesmente merecem contrair vírus cibernéticos. E foi então que eu descobri a beleza sublime desses e-mails: eles só contaminam aqueles que verdadeiramente merecem ser contaminados. E isso sem fazer esforço ou precisar de um mecanismo complexo: os próprios merecedores se denunciam clicando nos links e a a punição vem com o ato, como num arco reflexo, com a velocidade de centenas ou milhares de kilobytes por segundo. É a burrice que pede porrada adaptada aos tempos modernos. Essa é a porrada do século vinte-e-um nos acéfalos online: automatizada e, ainda assim, infalivelmente justa.
Os disseminadores de spams maliciosos subiram um ponto no meu conceito. Será possível que exista uma liga de hackers que expede esses e-mails para punir os burros espalhados por esse previsível mundo velho?
