Spams e beneficência

Sempre nutri uma certa raiva por esses e-mails do tipo aumenteseupênisematévintecentímetros ou nossasfotinhasnomotel, ainda que a criatividade tanto maliciosa quanto inocente deles, em contrapartida, sempre tenha me divertido. Mas hoje tive um momento de epifania e, como é de se esperar, tudo mudou. Esses e-mails nunca vão me pegar, eu pensei, e o gmail é eficiente o suficiente para levá-los todos para a caixa de spams tão logo eles chegam, de modo que não poluem minha caixa de entrada, mas é fato que sempre existe um número de pessoas que realmente cai na conversa fiada deles – as cabeças nas quais essas balas perdidas buscam se encontrar. Até porque em um mundo tão sujeito a variáveis e circunstâncias como o nosso o resultado não poderia ser outro. Quer dizer, quantos novatos de internet têm o pau pequeno e quantos homens broncos de fato estiveram em um motel recentemente, onde andaram tirando fotos? Sem contar aqueles que vêem um e-mail do tipo nossasfotinhasdomotel e pensam: “a idiota mandou o e-mail pro cara errado, e agora eu vou ver tudo!”. Caras assim simplesmente merecem contrair vírus cibernéticos. E foi então que eu descobri a beleza sublime desses e-mails: eles só contaminam aqueles que verdadeiramente merecem ser contaminados. E isso sem fazer esforço ou precisar de um mecanismo complexo: os próprios merecedores se denunciam clicando nos links e a a punição vem com o ato, como num arco reflexo, com a velocidade de centenas ou milhares de kilobytes por segundo. É a burrice que pede porrada adaptada aos tempos modernos. Essa é a porrada do século vinte-e-um nos acéfalos online: automatizada e, ainda assim, infalivelmente justa.

Os disseminadores de spams maliciosos subiram um ponto no meu conceito. Será possível que exista uma liga de hackers que expede esses e-mails para punir os burros espalhados por esse previsível mundo velho?

Manifeste-se!