Crianças
Uma idéia que eu queria ter tido: anotar os meus achismos num caderno desde quando aprendi a escrever. Aí hoje eu poderia pegá-lo e ficar folheando até achar algo apropriado para contar. É que muito fica perdido, flutuando em algum lugar da memória. Achar lembranças num caderno seria muito mais fácil. Isso me renderia tantos textos! Eu citaria essa coisa que eu refleti uma vez, explicaria que foi algo que sempre achei, e depois faria um comentário a respeito. Os encaminhamentos possíveis seriam dois: “mas então percebi…”, ou então “e é verdade…”. Acho que fui uma criança interessante. A minha mãe me disse que uma vez perguntei a ela: “mãe, se a gente vive depois que morre, como é que sabe se não está morto?” Ela até hoje não conseguiu a minha resposta, e eu também não consigo pensar em nada plausível. Ser criança é algo mágico porque significa morar em um mundo diferente, em que os mares não têm fim e todos os seres humanos habitam uma única ilha. A imaginação da criança é solo fértil. O seu pensamento, por ser inocente, é tanto simples quanto engenhoso. Pobre de quem o acha ingênuo. A mente infantil é lúcida, põe clareza no enxergar. Sem palavras demais na cabeça, perder-se nelas se torna difícil. A criança às vezes expressa algo que está muito longe de corresponder à verdade, mas de qualquer jeito é aceitável, mesmo razoável, se avaliado segundo a sua lógica prematura. De algum jeito, faz sentido. Mas, de qualquer forma, a criança tem a liberdade de cometer erros porque tem a seu favor a escusa da inexperiência. Ela desvenda o mundo em suas aparências, e para tanto tem a seu dispor não mais do que a curiosidade, um desejo inato que não é uma gana por conhecer ou dominar, mas simplesmente vontade de entender. Ninguém julga o que uma criança diz porque todo mundo pressupõe que ela ainda não tenha a menor idéia do que seja a tal verdade. Quer dizer, nenhum de nós realmente sabe, mas o problema conosco, os crescidos, é que nós temos uma convicção muito grande de que sabemos. Isso afeta os nossos achismos e os transmuta em certezas particulares. É por isso que a mágica da criança que todos nós fomos acaba por se perder com o tempo: à medida que adquirimos experiência, vamos perdendo o direito à desculpa de não termos o conhecimento de mundo, e somos obrigados – por nós mesmos! – a pensar com método, a maquinar os pensamentos, elaborá-los e apresentá-los entre conjunções explicativas, adversativas, conclusivas, comparativas, conformativas, consecutivas, integrantes, causais e todo o arsenal que não acaba. Por termos que recorrer às coisas concretas o tempo todo, os nossos pés ficam grudados no chão e as nuvens ficam distantes. O mar termina onde recomeça e todas as coisas têm nomes e explicações. O raciocínio lógico nos torna corriqueiros.
1 pensamento

‘Mas, de qualquer forma, a criança tem a liberdade de cometer erros porque tem a seu favor a escusa da inexperiência.’
decidi. nunca mais vou fazer nada repetido, somente coisas novas e sempre que errar, uso essa desculpa.