O perdão

O perdão não é um ato. É um fenômeno, que, por sê-lo, é involuntário, que só se desencadeia a partir daquele que necessita perdoar e que quer dizer tanto liberdade quanto leveza. Você pode dizer ou pensar que perdoa, querer ou tentar perdoar, mas você não terá perdoado enquanto o seu coração não consentir. Eu sempre acreditei nisso. A necessidade do perdão surge de uma falta, uma falta que abre uma ferida. O perdão não tem o poder de fechar a ferida nem nenhum outro poder: ele é só um sinal, uma evidência. O ser humano, por extensão, também não tem esse poder – a ele só cabe a dissimulação e a indiferença. Ele pode, sim, fingir para os outros que não há dor, e, num esforço maior, pode até fingir para ele mesmo que ela não existe – pode ignorá-la, morder o lábio e simplesmente suportá-la sem dizer um ai. Mas, ainda assim, senti-la no nível da alma é-lhe inescapável. Ele não pode obliterá-la por querer. Há um ditado muito acertado que diz que querer não é poder: querer acabar com a dor não tem o poder de exterminá-la. Portanto, o perdão não carrega consigo esse poder restaurador que tanto se fantasia. Todos sabem disso mas não querem aceitar.

Gosto de imaginar a coisa assim: existe entre as pessoas um laço a que chamam de afeto. Esse laço é uma simbiose sensível, o que significa que, pela ação dele, as pessoas se conectam emocionalmente, ficando assim sincronizados os seus sentimentos. Assim, quando uma pessoa “a” falta com respeito, com sinceridade, com compaixão, ou com qualquer outro sentimento que se espera numa relação de afeto a uma pessoa “b”, abre nela uma ferida e, como está intimamente ligada a ela, vê abrir em si mesma uma ferida também. Nela, a ferida se chama culpa. Na outra, decepção. É desse evento que surge a necessidade do perdão, como já disse. Enquanto a ferida da outra não se fechar, também não se fechará a sua própria, e sendo assim não importa que se diga e que se ouça “eu te perdôo”, que as coisas não vão se consertar. É preciso ter paciência. O perdão só vem quando não há mais dor. Se é verdade que a sua necessidade surge da dor, a sua consolidação surge do alívio – não é o alívio que surge da consolidação do perdão, mas o contrário. Quando chega o dia em que a falta não faz mais pesar na alma daquele que, com o ato, foi ferido, então o fenômeno do perdão acontece. E, como ele significa – reitero: significa – tanto liberdade  quanto leveza, atesta, à decepção, a descontração, e à culpa, finalmente, aquilo que conhecíamos antes como o perdão: a cura.

Manifeste-se!