Gato de botas

Estava escuro, mas não tão escuro que as pessoas sentadas no bar do outro lado da rua não pudessem enxergá-la. Ela sentiu o carro parar, deixou-se arquear para a frente, depois olhou para o lado. Mas bastou o olhar que (quase não) recebeu de volta para que ela soubesse que despedidas ali seriam dissonantes. Então (quase não) deu um sorriso. Foi uma coisa áspera que escorreu pelo canto da boca e não aliviou em nenhum grau o peso que fazia o rosto todo cair numa expressão fechada, mas legível. Pelo contrário, a entregava. E a luz não ajudava. Porque era bastante. Abriu a porta e deixou o silêncio no ar refrigerado lá dentro. Quando saiu, sentiu uma lufada de subúrbio passar por baixo da saia. O carro partiu e ela sentiu ficar quase nua. Sentiu que todos os olhares (não) encontraram o dela. Espetando, censurando, reprovando. Remexeu o cabelo tingido de loiro como se aquilo pudesse consertar sua postura, ou mesmo restituir algum tipo de certeza que não tivesse máculas. Arrumou a saia. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Não vinha outro carro, mas não conseguiu atravessar a rua. Então se limitou a se sentar no meio-fio da calçada cheia de fuligem ali atrás dela, e se enojou por se sentir em casa. Ignorando os olhares inquisidores (cientes), permitiu-se desabar. Chorou lágrimas quentes, tempestuosas, e elas gotejaram da sua face fina (tão cara) para a sarjeta. Escorreram com o seu orgulho para o bueiro mais próximo, onde se perderam para sempre. Mas ela em si permaneceu, à mostra. Na verdade, ali estava só o seu nome. E todo mundo olhava.

2 pensamentos

  1. daquele jeito que só você e suas palavras sabem me deixar.

    escuta. sábado. eu. você. muriel. lucas. almoço e cinema, ok?

  2. marilyn!
    uma expressão legível…

    (recado de ana, olha só.)

Manifeste-se!