Anoitece
Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a textura da noite ali como se fosse a primeira vez que a provasse. Podia-se ficar realmente vazio ali, não se podia? E não é senão o espaço desprovido de luz, o aparente vazio, aquele que costuma ser o palco mais propício ao teatro da mente? Não era de se espantar, afinal de contas, que quando menino ele ficasse à janela procurando por sinais de vaga-lumes. E não é como se ele se lembrasse, mas é que ele ainda hoje ouvia, de vez em quando, que tinha sido uma criança imaginativa. E isso o levava a pensar que quando os insetos luminosos dançavam diante de seus olhinhos inocentes em piruetas irregulares, era provável que, análogo ao modo com que nisso remexiam o ar como fazendo cócegas em sua onipresença, também afastassem, com suas pequenas centelhas, quaisquer figuras e personagens que pudessem porventura vagar em algum lugar no interstício de suas retinas e o fundo de sua cabeça, onde a dança é de vultos repletos de significados abstratos e nunca únicos. E muitas vezes terríveis, também.
De repente se viu debruçado na janela, o único lugar daquela velha casa que ainda aparecia com clareza em suas lembranças. Agora mirava o jardim lá fora, quase que todo afogado na escuridão, não fosse por um retângulo amarelado da luz que escapava da janela da sala de estar lá embaixo. Já não havia mais vaga-lumes para se ver ou se contar, era verdade. Para onde será que eles tinham se mudado, hein? E então, quando levantou os olhos, espantou-se com o céu como se fosse a primeira vez que o visse. E, enganado por sua memória que tinha um gosto por esquecer-se de imagens vistas há tempo demais, ele inocentemente acreditou que talvez fosse a primeira vez mesmo. Era tão diferente. A infindável abóboda lá no alto, ele viu, era uma explosão de cores, o que fez com que ele se questionasse se não tivera sempre aquela certeza de que estrelas sempre tinham sido brancas. Bem, se antes tivessem sido, agora claramente não eram mais. Via luzes vermelhas e azuis cintilando em seus pequenos pontos do céu, e essas eram apenas alguns exemplos.
Baixou os olhos para a linha do horizonte, mas não viu linha alguma. Os morros que guarneciam o prado tinham sumido no escuro, tendo se misturado com o próprio céu. Até as árvores do bosque ali próximo à sede ficavam debaixo do frágil espectro azulado que os reflexos do sol na lua minguante produziam. Ficavam ambíguas. As nuances o fizeram pensar no espaço daquele pequeno rasgo de tempo como uma substância vaporosa que pairava na existência sem um formato definido ou mesmo uma cor muito certa. E então, quando ele olhou mais uma vez, tudo se transformou em céu. Precisamente aí, sentiu-se leve, tão leve, que foi como se tivesse flutuado até a cama, de onde tirou lindos e silenciosos sonhos sobre cometas viajando devagar, talvez no ritmo de sua própria respiração, num espaço sideral tingido de vermelho, alaranjado, branco e azul.
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quanta luz~