Posts feitos em dezembro 18th, 2009

Eu não acredito em Deus

Hoje ouvi mais uma vez alguém perguntar aos sussurros se eu não acreditava em Deus. Mais uma vez eu me limitei a ouvir dizerem não em resposta evitando falar muito alto por talvez pensar estar participando de uma heresia. E mais uma vez fiquei sentado, em silêncio, apenas imaginando as coisas que eu diria para fazer aquele olhar de desgosto desaparecer, revisitando o discurso que está quase sempre pronto, mas nunca tem motivos suficientes para ser pronunciado. Só que eu percebi que eu já cansei de fazer isso. Ainda assim não o disse, pois qualquer coisa que eu dissesse seria ignorada tão logo a próxima palavra viesse, mas me levantei e vim escrever o que penso. Assim quem sabe o esforço seja menos vão.

Esta é a resposta a essa pergunta que até hoje eu só vos dei em minha cabeça:

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque tanto mais eu investigo os discursos que o defendem, mais inconsistências e mais contradições parecem emergir. Não acredito porque – e essa é apenas uma das razões – acreditar em Deus significa aceitar que existe o destino. O que é impossível para mim, porque eu sempre fico simulando na minha cabeça esta pequena história que, apesar de poder não ter acontecido, pode perfeitamente acontecer numa dessas segundas ou quartas-feiras quaisquer: quando um avião com 170 passageiros a bordo está caindo, em rota de colisão com um prédio de uma cidade, será que morrer nessa situação poderia ser o destino dos recém-casados voltando mais apaixonados do que nunca de sua lua-de-mel e do casal de idosos atrás deles que ganhou uma viagem dos seus filhos e da criança viajando sozinha nos primeiros assentos com um crachá dependurado no pescoço e da aeromoça solteira que deixou seu filho em outra cidade aos cuidados da irmã e do rapaz viajando a trabalho e a contra-gosto e do piloto brilhante que sonhava em voar desde menino e da moça grávida de oito meses (e do bebê de oito meses dentro da barriga da moça grávida) e da menina cheia de esperanças voltando do vestibular que fez fora de sua cidade natal e da senhora que tem medo de voar indo visitar o seu filho e terminando de rezar o terço… que tudo faz parte do grande plano que Deus elaborou para cada um deles? Sem falar das pessoas que trabalham no prédio com que o avião vai colidir e daquelas que dormem nas casas próximas sobre as quais ele vai desabar, ou das famílias de todas as pessoas envolvidas pelo desastre, que têm tantos planos, tantas esperanças e, acima de tudo, tanto amor. O que sobra é só a a tristeza. E os destroços. Eu me recuso a acreditar que exista o destino porque a vida é cruel demais para ter sido arquitetada aos mínimos detalhes por alguém – ainda mais alguém que supostamente é Amor. E o engraçado é que em face dessas circunstâncias até aqueles que dizem acreditar no destino passam a não acreditar por um momento, porque dizem: é uma fatalidade. Não! Para que se diga que se acredita em destino, há que se defender que essa situação também é a manifestação dele. Se a pessoa não é capaz de defendê-lo, então ela na verdade não acredita que exista algo assim.

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque todas as diferentes facetas do Deus que as pessoas idolatram me ofendem profundamente e as religiões são construídas ao redor do egoísmo. Me enoja quando eu vejo alguém ganhar alguma coisa e exultar, agradecer ao seu Deus, dizer que ele é pai e que ele é bom e que ele é justo, sem pensar que, se x era o número de pessoas que concorreram àquela coisa, existiam x – 1 pessoas pedindo aquela mesma coisa, rezando a mesma reza, desejando tanto ou talvez mais do que ela, necessitando menos ou mais do que ela. Me enoja quando uma pessoa fica feliz pela conquista profissional da outra e diz que aquilo foi um presente de Deus a ela, ignorando assim todo o esforço e toda a dedicação que a pessoa sozinha investiu em si para alcançar aquilo. Me enoja que creditem tudo a Deus, nunca ao homem e à mulher. Me enoja quando uma pessoa medíocre diz para outra pessoa medíocre que ela vai rezar para que a outra passe no concurso, mesmo sabendo que ela está muito longe de ser a pessoa mais adequada ou a mais merecedora do cargo, e que ela acredite que exista a possibilidade desde que ela peça com fé a Deus, que então tiraria a vaga de quem realmente merece para dar ao seu amigo medíocre, mas necessitado de dinheiro e, mais importante, conhecido dela. Me enoja que tanto um padre consolando um fiel que tem um parente moribundo quanto um bandido falando com a quadrilha antes do assalto digam Deus vai nos ajudar e que ambos possam crer com o mesmo fervor nisso. Me enoja quando eu ouço uma pessoa que presenciou um tiroteio dizendo que foi uma graça de Deus que o atirador não a acertou, mas sim a pessoa que estava bem ao seu lado, assim bem perto mesmo, e que foi um milagre ela ter escapado, sem perceber que essa pessoa que foi acertada também era um ser humano tão inocente quanto ela, um ser humano que sentiu a dor do tiro, foi para o hospital e que talvez tenha morrido enquanto ela continua contando a todos os amigos a sua experiência de quase morte e o “milagre” com que foi abençoada com o maior sorriso do mundo. Me enoja quando as pessoas rezam de noite só para não ter pesadelos, e quando elas se reúnem em uma igreja e cada uma delas se fecha em sua própria reza, pedindo a realização dos seus sonhos e dos sonhos de seus parentes e amigos, e pedindo que se resolvam os seus piores problemas. E também me enoja quando elas rezam pela paz mundial ou pela erradicação da fome e acham que, nisso, estão fazendo suas partes, pois as pessoas vêm rezando por isso há muitos séculos e os problemas continuam aqui, muito visíveis e muito palpáveis, o que só pode significar que elas seriam mais úteis se usassem o tempo que elas passam desejando pelas coisas boas para de fato se engajar em alguma causa humanitária e promover com suas próprias mãos as coisas boas. Me enoja quando as pessoas dizem que o Deus delas é justo e bom para todos quando tem tanta gente morrendo para as drogas, para a fome e para o ódio, tanta gente chorando ao mesmo tempo nos mais diversos lugares e pelos mais diversos motivos; quando tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e elas não têm ciência de nem uma pequena fração disso tudo e, mesmo nessas condições, têm a ousadia de dizer que Deus ajuda todos aqueles que merecem. E, por fim, me enoja a própria idéia de rezar – e essa última coisa quem me fez enxergar foi o escritor Rubem Alves. Como ele diz, qual pode ser o sentido de rezar? O Deus das pessoas não é onisciente? As pessoas rezam pedindo as coisas para quê, então? Ele não está prestando atenção?

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque acho tudo muito conveniente. É fácil viver a vida como bem se entende e depois entrar em uma igreja e pedir perdão pelos pecados, ou cuidar da espiritualidade ao estudar o livro que alguém escreveu, ou dar uns pacotes de arroz a uma comunidade pobre e achar que isso compensa qualquer ato mau. É fácil estar no meio das dificuldades imaginando que tem alguém cuidando de você, é fácil ter alguém todo poderoso a quem recorrer nas horas mais difíceis, é fácil imaginar que depois que nós morremos existe algo bom nos esperando como recompensa por tudo. E não acredito porque em tudo vejo hipocrisias. É fácil condenar o suicídio quando não se perdeu o movimento e a sensibilidade de todos os membros abaixo do pescoço, e quando viver a vida não se limita a olhar pela janela de um hospital. É fácil condenar o aborto quando não se vive a agonia de ter na barriga um filho negro que será neto do homem mais preconceituoso e violento do mundo, que seria capaz de espancar a própria filha até a morte. É fácil dizer que é tudo obra de Deus quando não se é judeu e não se vive na época do Holocausto.

Mas também vejo que é uma tarefa difícil para o ser humano admitir as suas próprias impotências. Reconhecer como verdade aquelas verdades que doem. Que corroem. Não é fácil não acreditar em Deus porque é difícil aceitar que nós estamos todos sozinhos e por nossas contas, que não existe o destino, apenas o acaso, e que quando nós morrermos nada vai acontecer – que o pensamento, que a consciência é química e é biológica e que quando nós morrermos nós simplesmente não seremos capazes de pensar ou perceber. Tudo não será nem preto nem silencioso, será nada. Porque escuridão e silêncio são percepções. Tudo continuará acontecendo como é ao redor dos nossos corpos, mas eles (nós) não reagirão (reagiremos) a nada do que acontecerá. É simples assim. Mas é impossível de se imaginar. E é nesses espaços que as pessoas colocam Deus – para explicar o que é inexplicável -, só que eu prefiro deixar as coisas assim, simplesmente incógnitas. Além da compreensão humana. As coisas que a ciência não consegue explicar não são Deus – são o desconhecido. Muita gente faz essa confusão. E muitas delas ainda não foram explicadas e nem serão porque são simplesmente incompreensíveis. E eu acho mais fácil encarar as coisas como incompreensíveis do que atribuí-las a Deus, porque para mim isso é hipocrisia. É não aceitar que o ser humano não é capaz de compreender todas as coisas. E também é vicioso – porque se aceitamos que é Deus e paramos aí, perdemos a motivação de dar um passo à frente e continuar a tentar entender.

Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque as religiões prometem tanta coisa que é difícil não enxergar que é tudo uma farsa. Algumas coisas que ouço pregarem são ofensas à inteligência. Estou falando dos dogmas. E estou falando dos espíritas que dizem que quando morremos após uma vida correta vamos morar em uma colônia onde tudo é perfeito e harmonioso, onde nos preocupamos somente com as nossas saúdes espirituais, e que se nos matamos vamos, ao invés disso, passar anos e anos em um lugar escuro e cheio de sofrimento, ao mesmo tempo que dizem que o seu Deus é misericordioso, a personificação do perdão e do amor. Falo dos muçulmanos que crêem que ao se matarem em nome de Alá numa guerra considerada santa vão para um paraíso repleto de mulheres virgens que os compensarão por seus sacrifícios. Falo dos católicos que dizem que existe Deus e o diabo, e que existem anjos e que existem demônios, e que existe o céu e que há o inferno, e que há atos que definem quem está destinado ao quê, enquanto eles mesmos fizeram coisas no passado – bem sabemos – que certamente garantiriam aos próprios pregadores e aos próprios fiéis um lugar no inferno em que acreditam: queimaram pessoas em praça pública, enforcaram ou silenciaram os donos das mentes mais brilhantes, discriminaram os negros. Discriminam os homossexuais. E eu sei que essas coisas que eu citei agora são muito mais minuciosas do que isso – que os espíritas dizem, por exemplo, que Deus é misericordioso mas todos nós precisamos crescer espiritualmente, e que o suicida é alguém que não o fez e que precisa passar pelo umbrau para evoluir o que não conseguiu em vida, mas eu não quero entrar nessas questões. Até porque esse questionamento tem que partir do leitor – apenas as conclusões que surgirem de suas próprias reflexões poderão ser honestamente adotadas como válidas.

O que eu quero dizer é que eu não acredito porque acho tudo muito bobo. E depois de certo ponto fica tudo tão óbvio. Quem é ateu o é porque percebe a conveniência que ronda Deus e as religiões – quem é ateu percebe que não é só uma coincidência que justamente as coisas que as sociedades normalmente discriminam em determinado tempo (a ciência no Renascentismo e o homossexualismo até os dias atuais, por exemplo) sejam aquelas que recebam as censuras mais duras e sejam ditas motivos válidos para as punições mais temíveis. É por isso que existem tantas religiões quanto existem códigos morais. Porque cada religião atende aos pensamentos de uma determinada sociedade. A religião é, afinal de contas, um instrumento. E um de muitas utilidades: um instrumento que a sociedade usa para fazer valer as suas regras morais, e para justificar a repressão de quem não segue essas regras; um instrumento de que algumas pessoas más se utilizam para explorar as outras, conseguir dinheiro, crédito e satisfação; um instrumento de que as pessoas se utilizam como desculpa para se aproximar das outras e não se sentirem sozinhas; um instrumento que as pessoas utilizam para aliviar suas dores e calar suas dúvidas; um instrumento que as pessoas dão a outras para comandá-las.

Eu não acredito em Deus, mas não é como se eu não tivesse princípios, como se eu negasse a existência dele só porque quero, porque tenho birra ou algo parecido – só por eu não gostar dessa e daquela religiões. Eu nego porque eu acredito em outras coisas. Coisas que não têm nomes ou rótulos. Eu acredito no que eu penso e no que eu sinto, e as minhas teorias podem não ser as mais acertadas, mas eu me orgulho muito de poder dizer que elas são minhas, que ninguém as colocou na minha cabeça por mim. Tenho orgulho de que eu tenha me tornado capaz de investigar o mundo que me cerca do meu próprio jeito, sem deixar que o lugar comum (ou o olhar de desaprovação das pessoas) interfira nas minhas crenças. Porque eu acredito que eu estou certo (todos nós sempre acreditamos que nós estamos certos, não é mesmo?) e que as minhas razões são todas válidas. É por isso que eu digo essas coisas com a mesma naturalidade com que as outras pessoas dizem acreditar. Portanto eu gostaria que vocês aceitassem o fato de que é assim que eu penso, e vissem que há uma razão para eu pensar assim, e gostaria de dizer que a posição que vocês tomam, as coisas em que vocês crêem e as coisas que vocês dizem não me convencem e nem me fazem sentir culpado, burro, perdido nem qualquer uma das outras coisas que vocês tentam dizer com esses olhares de repúdio que me dirigem quando descobrem que eu não sou exatamente do jeito que vocês assumiam que eu fosse.

E pela última vez sim, eu não acredito em Deus, e como eu poderia? Não acredito porque ele é uma invenção humana. Nada mais.

Adendo: aos proficientes na língua inglesa, recomendo a leitura desta matéria (seus comentários, na verdade).

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