Posts feitos em fevereiro, 2010
Pergunta
Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.
Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.
- Filhote?
E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:
- Oi.
- Em que você tanto pensa?
Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.
- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.
- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.
- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?
E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.
A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.
Deixou-se voar.
Ler maisUm pouco de otimismo, por favor.
Sim, o ENEM como sistema de seleção unificado foi nada menos que outorgado, a UFMT foi naturalmente a mais procurada, posto que foi uma das poucas que tiveram a coragem de adotá-lo logo de cara, e, também naturalmente, tanto o ENEM quanto a UFMT não satisfizeram a maioria. Os corações matogrossenses que se partiram hoje são incontáveis. Quer dizer, é o que nós achamos, porque ninguém tem meios ainda de saber qual é a porcentagem das vagas que asseguramos. Mas agora que encaramos a dura realidade, a de que é provável que a maioria dos nossos estudantes não foi capaz de competir com os estudantes vindos de outros estados, queremos entender o porquê, é claro. A reação mais imediata, como não podia ser diferente, é a de acusar o governo por ter feito tudo às pressas, e a reitoria da universidade por ter aprovado essa loucura em nosso estado sem consultar previamente a comunidade matogrossense. Agora dedos são apontados e a grande questão é levantada (pergunta-se com aquele ar de eu-te-avisei): será realmente possível que tenhamos mudado para melhor?
O sentimento coletivo que percebo me diz que não, não mudamos. Do jeito que andam falando, a concorrência parece ser má como o calor desses últimos dias e as vagas parecem ser todas destinadas, como que por direito divino, aos nossos próprios estudantes, de modo que vê-las preenchidas por aqueles nascidos em outros estados parece ser um crime pelo qual tanto o SiSU quanto a UFMT devem urgentemente ser crucificados. O protecionismo, tão velho e criticado em outros contextos, está em alta por aqui. A universidade é federal mas isso quer dizer muito pouco, pois aparentemente não pertence ao país. O sistema unificado parece estar mais para um vestibular da UFMT aplicado em escala nacional do que qualquer outra coisa. Os reprovados serão abalados além do reparo, os aprovados virão sugar o conhecimento da nossa instituição e dos nossos professores para depois irem buscar os seus êxitos profissionais alhures. Está tudo errado, um caos ético-político. Certo?
Duvido.
Para mim, a resposta é não.
Queiramos sair do óbvio, sim? Injetemos um pouco de otimismo nesta história toda, e tentemos, por favor, observar sem sermos aqueles que perderam as vagas, aqueles que têm que consolar os filhos por perderem as vagas, ou aqueles pessimistas que só sabem olhar para os aspectos ruins da coisa, caso isso seja possível. Comecemos por enunciar, de uma vez, o que é consensual, coisas com que até eu mesmo concordo:
A prova do ENEM em si não foi satisfatória. Noventa questões objetivas a serem respondidas, uma redação a ser feita e um gabarito para ser preenchido em, o quê, quatro horas e meia, cinco horas? parece não menos do que sobre-humano (eu bem me lembro do último ano do vestibular aplicado pela própria UFMT, em que responder a oitenta questões em quatro horas já parecia um trabalho hercúleo). E também é indefensável a celeridade com que tudo foi resolvido: que o ENEM passaria a testar todos os estudantes do Brasil e determinar se cada um deles iria ou não entrar na faculdade que gostaria de prestar, e que estava ao critério dessas faculdades aceitar ou não tal mudança, mas que tal critério deveria ser esclarecido em questão de uns poucos meses.
Mas o que me fez apoiar o vestibular unificado desde o início – desde o primeiro rumor pouco esclarecido que ouvi a respeito – foi a idéia por trás dele. Tão só. Dadas as circunstâncias, já naquele momento eu previa (junto com todo o país, tenho certeza) de que a prova não agradaria, poucas instituições adeririam de imediato e que, depois que a prova fosse aplicada e os resultados divulgados, haveria um contingente enorme de pessoas mudando-se de cidade para preencher a vaga conquistada em algum lugar distante. Bem, aqui estamos. Tudo que prevíamos se confirmou, e a histeria está chegando. Tentemos manter a calma e, principalmente, pensar no futuro.
O ano de 2009 foi um mal necessário. Foi apenas o primeiro ensaio. Tudo tem que começar de algum jeito, e bem sabemos que nada nasce já perfeito, apenas surge e de imediato entra num processo de aperfeiçoamento do qual, com alguma esperança, jamais sairá. O ENEM deste ano com toda a certeza será melhor do que o do passado, e mais faculdades optarão por usá-lo – é o curso natural das coisas. Em 2011 o mesmo poderá ser dito. Mas o que eu quero chamar à atenção dos meus conterrâneos é que não é só o vestibular unificado que tem melhorias a perseguir. Nós, matogrossenses, também temos a nossa parcela de culpa e, obviamente, um compromisso a assumir. Mas, antes de falarmos sobre essa culpa que compartilhamos, quero trazer uma pequena reflexão ao pensamento.
O que não desiste de martelar na minha cabeça, caro leitor, é o estado de São Paulo. Eu não conheço qualquer outro estado cujas instituições de ensino superior recebam estudantes de origens mais distintas do que esse. E tenho uma convicção muito forte de que, mesmo nessa adversidade, os estudantes paulistas não se sentem ameaçados ou injustiçados por tal concorrência. Bem, é claro que o nível da educação paulista é um dos melhores, mas a que isso se deve? Provavelmente à própria concorrência. Visto que o Brasil inteiro aspira a uma vaga na USP, na Unicamp, na Unesp, etc. (a lista continua), o estado se vê na obrigação de preparar os seus estudantes da melhor forma possível, de modo que a estadia deles ali seja possível, e que seus estudos possam continuar sem maiores alterações. O que faz investindo na educação.
A nossa culpa é a de termos nos acostumado ao fato de que a UFMT não está entre as mais visadas do país, e de que a competição pelas vagas acabava por se dar entre nós mesmos. Bem, este não é mais o caso. Este ano estivemos no centro das atenções, o que abalou o estado psicológico dos vestibulandos, que foram tomados pela surpresa estarrecedora de que competiriam com todo o Brasil. O ENEM cumpriu o seu papel, que era o de selecionar os melhores. O problema foi simples: os melhores não somos nós. O nosso ensino não estava preparado para competir com o ensino dos outros estados, está claro, e é precisamente aí que está o compromisso que temos que assumir. Não apenas o estado e a iniciativa privada, que devem investir mais na qualidade dos professores e repensar os métodos atuais de ensino, mas também os próprios estudantes. A postura precisa ser mudada. Os estudos precisam ser encarados com seriedade, porque é exatamente assim que os paulistas conseguem garantir suas vagas.
E eu prevejo que eles acabarão sendo levados a sério, porque mais e mais pessoas deixarão de conseguir entrar na UFMT sem passar pelo cursinho, e tanto os colégios quanto os alunos perceberão que precisam urgentemente melhorar. O ENEM, afinal de contas, é uma grande oportunidade, um grande incentivo, para a melhoria da educação em nosso estado e em todos aqueles em que se vive a mesma história que vivemos. Antes de tudo, precisamos parar de reclamar do estado atual das coisas e tomar providências que de fato produzam algum efeito. Os vestibulandos precisam tomar a UFMT pelo que ela é, não o que era, tornarem-se competitivos, e garantirem suas vagas em nossa universidade por meio de seus próprios méritos. As escolas precisam entender o novo vestibular, procurar os melhores meios de ensinar os seus alunos a raciocinarem (que se tornou o grande foco com o novo vestibular), e os professores precisam tomar um papel ainda mais ativo nesse processo, que é de transição.
O ideal será quando o ENEM se tornar uma prova sóbria, com uma metodologia acima de tudo democrática e um tempo sensato, e quando todas as grandes universidades do país o adotarem como sistema de seleção. Estamos longe disso, mas precisamos admitir que, uma vez que chegarmos lá, nos tornaremos um país menos restrito, mais dinâmico e, por conseqüência, mais forte. Nós só chegaremos neste ponto (isto é, se um dia chegarmos) se abandonarmos a postura pessimista que vejo a maioria das pessoas adotando agora, que só fará retardar o processo de aperfeiçoamento do ENEM e do SiSU, e tentarmos, ao invés disso, acelerar a velocidade com que perseguimos este futuro. Apontemos os erros, sim, isso é essencial, mas depois disso, ao invés de fecharmos a mão num punho e cruzarmos os braços, procuremos usar o mesmo dedo para apontar as possíveis soluções. Temos que ter um olho à frente do nosso tempo, no futuro ideal, e nos empenharmos para torná-lo a realidade. As coisas definitivamente não vão acontecer se não quisermos que aconteçam.
Agora, tudo falha se o que criticam é a própria idéia do vestibular unificado, e não simplesmente a sua execução. Não é a estes que falo aqui, nem com quem argumento – essa é outra discussão.
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