Um pouco de otimismo, por favor.

Sim, o ENEM como sistema de seleção unificado foi nada menos que outorgado, a UFMT foi naturalmente a mais procurada, posto que foi uma das poucas que tiveram a coragem de adotá-lo logo de cara, e, também naturalmente, tanto o ENEM quanto a UFMT não satisfizeram a maioria. Os corações matogrossenses que se partiram hoje são incontáveis. Quer dizer, é o que nós achamos, porque ninguém tem meios ainda de saber qual é a porcentagem das vagas que asseguramos. Mas agora que encaramos a dura realidade, a de que é provável que a maioria dos nossos estudantes não foi capaz de competir com os estudantes vindos de outros estados, queremos entender o porquê, é claro. A reação mais imediata, como não podia ser diferente, é a de acusar o governo por ter feito tudo às pressas, e a reitoria da universidade por ter aprovado essa loucura em nosso estado sem consultar previamente a comunidade matogrossense. Agora dedos são apontados e a grande questão é levantada (pergunta-se com aquele ar de eu-te-avisei): será realmente possível que tenhamos mudado para melhor?

O sentimento coletivo que percebo me diz que não, não mudamos. Do jeito que andam falando, a concorrência parece ser má como o calor desses últimos dias e as vagas parecem ser todas destinadas, como que por direito divino, aos nossos próprios estudantes, de modo que vê-las preenchidas por aqueles nascidos em outros estados parece ser um crime pelo qual tanto o SiSU quanto a UFMT devem urgentemente ser crucificados. O protecionismo, tão velho e criticado em outros contextos, está em alta por aqui. A universidade é federal mas isso quer dizer muito pouco, pois aparentemente não pertence ao país. O sistema unificado parece estar mais para um vestibular da UFMT aplicado em escala nacional do que qualquer outra coisa. Os reprovados serão abalados além do reparo, os aprovados virão sugar o conhecimento da nossa instituição e dos nossos professores para depois irem buscar os seus êxitos profissionais alhures. Está tudo errado, um caos ético-político. Certo?

Duvido.

Para mim, a resposta é não.

Queiramos sair do óbvio, sim? Injetemos um pouco de otimismo nesta história toda, e tentemos, por favor, observar sem sermos aqueles que perderam as vagas, aqueles que têm que consolar os filhos por perderem as vagas, ou aqueles pessimistas que só sabem olhar para os aspectos ruins da coisa, caso isso seja possível. Comecemos por enunciar, de uma vez, o que é consensual, coisas com que até eu mesmo concordo:

A prova do ENEM em si não foi satisfatória. Noventa questões objetivas a serem respondidas, uma redação a ser feita e um gabarito para ser preenchido em, o quê, quatro horas e meia, cinco horas? parece não menos do que sobre-humano (eu bem me lembro do último ano do vestibular aplicado pela própria UFMT, em que responder a oitenta questões em quatro horas já parecia um trabalho hercúleo). E também é indefensável a celeridade com que tudo foi resolvido: que o ENEM passaria a testar todos os estudantes do Brasil e determinar se cada um deles iria ou não entrar na faculdade que gostaria de prestar, e que estava ao critério dessas faculdades aceitar ou não tal mudança, mas que tal critério deveria ser esclarecido em questão de uns poucos meses.

Mas o que me fez apoiar o vestibular unificado desde o início – desde o primeiro rumor pouco esclarecido que ouvi a respeito – foi a idéia por trás dele. Tão só. Dadas as circunstâncias, já naquele momento eu previa (junto com todo o país, tenho certeza) de que a prova não agradaria, poucas instituições adeririam de imediato e que, depois que a prova fosse aplicada e os resultados divulgados, haveria um contingente enorme de pessoas mudando-se de cidade para preencher a vaga conquistada em algum lugar distante. Bem, aqui estamos. Tudo que prevíamos se confirmou, e a histeria está chegando. Tentemos manter a calma e, principalmente, pensar no futuro.

O ano de 2009 foi um mal necessário. Foi apenas o primeiro ensaio. Tudo tem que começar de algum jeito, e bem sabemos que nada nasce já perfeito, apenas surge e de imediato entra num processo de aperfeiçoamento do qual, com alguma esperança, jamais sairá. O ENEM deste ano com toda a certeza será melhor do que o do passado, e mais faculdades optarão por usá-lo – é o curso natural das coisas. Em 2011 o mesmo poderá ser dito. Mas o que eu quero chamar à atenção dos meus conterrâneos é que não é só o vestibular unificado que tem melhorias a perseguir. Nós, matogrossenses, também temos a nossa parcela de culpa e, obviamente, um compromisso a assumir. Mas, antes de falarmos sobre essa culpa que compartilhamos, quero trazer uma pequena reflexão ao pensamento.

O que não desiste de martelar na minha cabeça, caro leitor, é o estado de São Paulo. Eu não conheço qualquer outro estado cujas instituições de ensino superior recebam estudantes de origens mais distintas do que esse. E tenho uma convicção muito forte de que, mesmo nessa adversidade, os estudantes paulistas não se sentem ameaçados ou injustiçados por tal concorrência. Bem, é claro que o nível da educação paulista é um dos melhores, mas a que isso se deve? Provavelmente à própria concorrência. Visto que o Brasil inteiro aspira a uma vaga na USP, na Unicamp, na Unesp, etc. (a lista continua), o estado se vê na obrigação de preparar os seus estudantes da melhor forma possível, de modo que a estadia deles ali seja possível, e que seus estudos possam continuar sem maiores alterações. O que faz investindo na educação.

A nossa culpa é a de termos nos acostumado ao fato de que a UFMT não está entre as mais visadas do país, e de que a competição pelas vagas acabava por se dar entre nós mesmos. Bem, este não é mais o caso. Este ano estivemos no centro das atenções, o que abalou o estado psicológico dos vestibulandos, que foram tomados pela surpresa estarrecedora de que competiriam com todo o Brasil. O ENEM cumpriu o seu papel, que era o de selecionar os melhores. O problema foi simples: os melhores não somos nós. O nosso ensino não estava preparado para competir com o ensino dos outros estados, está claro, e é precisamente aí que está o compromisso que temos que assumir. Não apenas o estado e a iniciativa privada, que devem investir mais na qualidade dos professores e repensar os métodos atuais de ensino, mas também os próprios estudantes. A postura precisa ser mudada. Os estudos precisam ser encarados com seriedade, porque é exatamente assim que os paulistas conseguem garantir suas vagas.

E eu prevejo que eles acabarão sendo levados a sério, porque mais e mais pessoas deixarão de conseguir entrar na UFMT sem passar pelo cursinho, e tanto os colégios quanto os alunos perceberão que precisam urgentemente melhorar. O ENEM, afinal de contas, é uma grande oportunidade, um grande incentivo, para a melhoria da educação em nosso estado e em todos aqueles em que se vive a mesma história que vivemos. Antes de tudo, precisamos parar de reclamar do estado atual das coisas e tomar providências que de fato produzam algum efeito. Os vestibulandos precisam tomar a UFMT pelo que ela é, não o que era, tornarem-se competitivos, e garantirem suas vagas em nossa universidade por meio de seus próprios méritos. As escolas precisam entender o novo vestibular, procurar os melhores meios de ensinar os seus alunos a raciocinarem (que se tornou o grande foco com o novo vestibular), e os professores precisam tomar um papel ainda mais ativo nesse processo, que é de transição.

O ideal será quando o ENEM se tornar uma prova sóbria, com uma metodologia acima de tudo democrática e um tempo sensato, e quando todas as grandes universidades do país o adotarem como sistema de seleção. Estamos longe disso, mas precisamos admitir que, uma vez que chegarmos lá, nos tornaremos um país menos restrito, mais dinâmico e, por conseqüência, mais forte. Nós só chegaremos neste ponto (isto é, se um dia chegarmos) se abandonarmos a postura pessimista que vejo a maioria das pessoas adotando agora, que só fará retardar o processo de aperfeiçoamento do ENEM e do SiSU, e tentarmos, ao invés disso, acelerar a velocidade com que perseguimos este futuro. Apontemos os erros, sim, isso é essencial, mas depois disso, ao invés de fecharmos a mão num punho e cruzarmos os braços, procuremos usar o mesmo dedo para apontar as possíveis soluções. Temos que ter um olho à frente do nosso tempo, no futuro ideal, e nos empenharmos para torná-lo a realidade. As coisas definitivamente não vão acontecer se não quisermos que aconteçam.

Agora, tudo falha se o que criticam é a própria idéia do vestibular unificado, e não simplesmente a sua execução. Não é a estes que falo aqui, nem com quem argumento – essa é outra discussão.

  • Nayara Monteiro Pinheiro
    FATO.

    O q de fato revolta os alunos (interessados na educação do país) não é, de forma alguma, o objetivo do processo de seleção unificada. Objetivo este, que apóio e me disponho a ajudar a colocar em prática.
    Os fins, desculpe-me Maquiavel, nem sempre justificam os meios. Como vc mesmo disse, o novo sistema foi outorgado pela reitoria da UFMT. Não houve nem mesmo uma reunião com todos os membros do conselho da universidade, o q por si só, já é motivo suficiente para revolta, cancelamento da aprovação e, quiçá, a cassação do mandato da atual reitora.
    Concordo plenamente qdo dizes q, por ser uma instituição federal, a UFMT deve acolher alunos de todo o Brasil. Acredito tbm q o sistema e o modo como encaramos a educação devem ser repensados e refeitos. Os matogrossenses, necessitam sim rever seus conceitos e espelharem-se em paulistas, por exemplo. Por outro lado, o erro da falta de investimento em educação acumalado por várias gerações não pode ser simplesmente despejado sobre as nossas cabeças (falo "nossas" já q sou uma vestibulanda matogrossense de coração partido).
    Uma mudança dessas requer, acima de tudo, tempo. Furacões destroem e causam danos enquanto ventos leves modificam a paisagem aos poucos. Quando envolve a vida, o futuro, os sentimentos de seres humanos o cuidado deve ser ainda maior. Toda uma geração deveria ser preparada para a ocorrência do "novo ENEM". A educação deveria ser revista, dando oportunidade de uma competição justa entre todos os estudantes brasileiros. E, obviamente, isso não poderia ser feito em um ano. A sociedade foi pega de surpresa. Nem alunos, nem professores, nem famílias, nem mídia souberam lidar com essa batata quente! Surpresas são convenientes no dia dos nossos aniversários, não às vésperas de um dos momentos mais decisivos de uma vida.
    Sem o devido preparo, que deveria ocorrer desde o ensino infantil, é claro q "perderíamos nossas vagas" para outros estados.
    Creio sim, q daqui mais alguns anos este novo sistema se consolide e seja um marco na história da educação do país. Enquanto isso, entretanto, o q faremos eu e minha geração? Ficaremos mais qto tempo disputando uma vaga em uma universidade (gerando somente despesas ao país sem previsão de retorno!)?
    É isso o q nos deixa tão revoltados, a falta de respeito com que fomos tratados.
    Outro ponto a ser tratado é o destino dos estudantes depois q ele se formam. Querendo ou não, a tendência é o retorno ao seu local de origem, logo, estaremos utilizando os nossos meios para formar e qualificar profissionais q não atenderam à nossa comunidade. É claro que o Brasil deve qualificar os brasileiros em geral para atuar em todo o seu território. Infelizmente, contudo, nossa realidade ainda não permite tal pensamento. Pensamento este q é mesquinho, mas é o necessário no momento.
    Existem muitas outras questões a serem tratadas ainda, mas preciso ir apreciar o amanhecer do dia e aproveitar para pensar no q vou fazer da minha vida em meio a este tumulto todo.
    A propósito, só para reforçar, o maior erro dessa epopéia toda foi o descaso com q está sendo tratado esse vácuo entre as gerações pré-enem e as gerações pós enem consolidado. Ou melhor, vácuo não, vácuo é vazio e nós estamos tratando de um espaço constituído de indivíduos, cidadãos, futuros de um país.
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