Posts feitos em fevereiro 22nd, 2010
Pergunta
Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.
Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.
- Filhote?
E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:
- Oi.
- Em que você tanto pensa?
Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.
- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.
- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.
- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?
E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.
A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.
Deixou-se voar.
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