Impasse

- Três – eu digo, com a voz mais grave e nítida quanto me é possível.

Ela não vai puxar o gatilho, essa puta, olhe para ela, mal pode deixar o cano da arma quieto em seu lugar. Ao menos eu tenho coragem por nós duas, dou os dois tiros: primeiro nela, depois em mim. Será que ela entende que se ela não puxar a droga do gatilho ela é a única que morre? E ainda morre uma pessoa injusta, como temeu a vida toda ser. Que irônico. Não está cansada, então, princesa? De toda essa hipocrisia, essa falta de atenção, de amor, desse mundo? Sujo, vão, muito mais cheio de feitos deploráveis do que louváveis. E escravo do petróleo, não nos esqueçamos. De gente imperfeita feito eu… e feito você, de certa forma. Esse mundo incongruente com a delicadeza do seu rosto e a perfeição dos seus traços; e com os seus cabelos loiros, também. Mas, principalmente, com as suas idéias e com as minhas.

- Dois – eu ecôo, tentando colocar tanta certeza em minha voz quanto ela tinha colocado na própria.

Eu vou morrer, nunca tive tanta certeza. O pacto está feito e acho até que meu vestido está um pouco sujo do meu sangue. E do dela. Ah, as frivolidades. Se vamos partir deste mundo e deixar para trás todas as suas convenções estúpidas, nada faz mais sentido do que partir dele segundo o que foi acertado em uma última convenção estúpida. E absurda, também, mas o mundo é mais. Eu sabia que ela era fria, e, céus, eu mesma sou fria, afinal nós estamos onde estamos e estamos como estamos, mas ela me excede. A voz dela não treme porque ela enxerga tudo como o cumprimento de um trato, um aperto de mão depois de fechado o negócio e assinados todos os acordos, mas dessa vez não é só. Minha nossa, nós vamos morrer. Estamos a um passo de descobrir que existe um Deus e sermos mandadas direto para o inferno, e ainda assim…

- Um – eu digo, impassível.

Tem um sorriso querendo escapar pelos meus lábios, mas eu não o deixo sair. Puxo a trava da arma e ergo uma única sobrancelha, dizendo: faça o mesmo, sim? E ela puxa tão rápido que mal posso acreditar, é quase como se as incertezas todas saíram correndo à menção do número um. Mas ainda assim eu vejo, bem ali, no canto do rosto angelical, um ensaio de cara feia. Como se ela contivesse dentro de si todo um rio de lágrimas a ponto de vencer as barragens construídas às pressas.

- Agora!

A minha própria arma fazendo um clique é a única coisa que eu ouço. É claro. O tambor gira maquinalmente e nenhuma explosão é ouvida. Nem da bala voando para a testa dela, nem do choro patético saltando de suas entranhas. De olhos arregalados e ainda assim fechados para a própria alma, que parece ter se ausentado por uns instantes, ela pisca duas vezes; o dedo sobre o gatilho continua pateticamente imóvel, como antes.

- O que… aconteceu? – eu me ouço dizer.

E não posso entender. A arma de alguma forma falhou e eu estou viva. Viva. Há uma onda voraz de formigamento se espalhando pelo meu corpo e essa é a melhor coisa que já me aconteceu. Deve ser uma espécie de injeção de alegria, porque tudo o que eu quero é rir e, espera, eu de fato estou rindo, e eu quero muito abraçá-la, beijá-la, e, ainda que eu veja seu rosto bem diante de mim, também quase posso ver o de minha mãe, a minha mãe na nossa cozinha, preparando emburrada o jantar que, ela tem certeza, ninguém vai elogiar, enquanto o sol se põe e não faz a menor diferença, já que ela já ligou todas as luzes. Mas dessa vez eu vou elogiá-la, vou voltar a ser para sempre a sua pequena menina. Ela vai ninar todos os meus anseios e a minha fúria desaparecerá. Mas, parando agora para prestar atenção, a única coisa que preenche os espaços retorcidos do porão é o meu próprio riso. Tão somente meu.

- Aconteceu que você não puxou o gatilho, querida! – eu explodo, como se estivesse ao mesmo tempo furiosa, desgostosa e surpresa. – Aconteceu que se eu não tivesse tido o cuidado de deixar vazio a porra do espaço da primeira bala, se eu não tivesse pensado em primeiro fazer um ensaio, seriam só os seus miolos espalhados pelo chão e os meus processando a imagem, seguramente organizados dentro do meu crânio. Não era bem esse o trato, era? Você ganha a morte tranqüila e eu ganho uma versão traumatizada da minha própria vida? Você reprovou no seu teste, meu bem, e só terá mais uma chance. Preste atenção.

É claro que é tudo um teatro. Eu quero chocá-la, quero aquecê-la, quero que você se dê conta da seriedade desses nossos últimos momentos para que os findemos como devemos findá-los.

- Eu… eu não quero mais – é tudo que eu consigo dizer. Olho para a arma prateada do meu pai pesando na minha mão e imediatamente repouso-a sobre o chão. Eu sinto muito, mas a única coisa que eu quero agora é a comida da minha mãe. E quero que ela brigue comigo por ter me atrasado de novo, mas só com o olhar.

Mas eu a vejo pegar a arma do chão enquanto morde nervosamente o lábio, como quem reúne forças para refrear todo um discurso que luta por liberdade, e entendo que não há outra saída. Ela estende o braço que segura a arma em minha direção. Pegue essa merda outra vez, é o que o corpo dela me diz. E não há argumento.

Já chegamos longe demais.

Eu abro a mão e recebo a arma de volta. Ela tem toda a razão. As palavras que ela não proferiu são as palavras mais sábias que eu jamais ouvi.

Ela vai morrer, como deseja, mas eu não.

Eu escolho a vida.

- Três – eu digo outra vez, saboreando o silêncio e o vazio de expressões emanando dela; admirando essa transformação incrível por que ela passou no espaço de alguns poucos segundos. O seu rosto até parece mais rústico, por um instante.

Sinto, pelo frio de seus olhos, que ela agora realmente entende a gravidade da situação. Ela vê onde é que estamos, e ela se lembra do ódio. Ela olha para mim e vê o que deveria ter visto desde o início: o capitalismo. O motivo que nos colocou aqui. Ela vai assassinar o próprio pai. Não a mim. O brilho nos seus olhos denuncia a decisão que ela só realmente fez neste exato momento. Ela não vai mais hesitar, pois ela já não é ela mesma. Eu sei.

- Dois – eu respondo, e a vejo sussurrando a palavra “dois” ao mesmo tempo que eu, mas de um jeito meio obstinado.

Eu destravo a arma.

- Quando você disser um, eu atiro. E… eu te amei. Você foi a única pessoa que eu amei.

- Eu também te amei. Obrigada por tudo – eu respondo enquanto destravo a arma, mas não sorrio. Um sorriso poderia ser a nossa perdição. Este é o nosso momento final, e a precisão não pode ser menos do que perfeita.

Eu tento aguçar os meus sentidos. Preciso ter certeza de que vou agir.

Silêncio.

Ela não diz.

- Eu digo, então, sim?

- Um.

Eu puxo o gatilho antes dela, mas não ouço explosão alguma. Então entendo: o espaço da primeira bala no tambor está vazio e eu me esquecera.

Eu puxo o gatilho e só depois me lembro: não havia bala alguma na agulha da arma dela.

Eu sinto como se tivesse sido atropelada e então já não sinto nada tudo escurece devagar e apesar de que eu não veja apesar de que eu nem propriamente sinta eu sei que caio para trás e eu sei que esse tempo que eu levo caindo não é de mais de um segundo mas o que está acontecendo eu posso jurar que a gravidade está demorando horas para me colocar no chão velho e poeirento desse lugar poeirento e velho oh eu sinto a poeira eu atirei mas não houve tiro como é que eu esqueci que eu não tinha balas e eu só queria abraçar a minha mãe e eu queria ser sua menininha e o problema é que estou tão atrasada para o jantar…

Eu fico em pé em um pulo, e as minhas duas mãos pulam para a minha boca, contendo o meu grito. O sangue inunda o seu rosto desfigurado e eu entendo que a Beleza se foi pois não pôde suportar tamanho horror. Fico então em silêncio, e sinto lágrimas molhando os espaços entre os meus dedos. A arma está jogada no chão, eu acho. Em algum lugar. Nós nos esquecemos! Eu me ajoelho. Nós nos esquecemos! Você puxou o gatilho, mas… eu também puxei. Eu atirei e eu fui a única. Me desculpe, por favor, me desculpe, eu… eu continuo aqui.

Meu Deus, eu continuo aqui.

Manifeste-se!