O homem (e a sua esposa)
Ontem fui a um casamento. Aconteceu numa chácara e foi todo feito de antíteses. Antes de mais nada, apague da sua mente a imagem de gente vestida com roupas simples numa chácara linda ao pôr-do-sol. Quer dizer, continue imaginando uma chácara linda. Mas o traje era formal, era noite e estava fresco. Mas não tão fresco que os garçons não passassem pingando suor enquanto sustentavam nos braços uma bandeja com três variedades de refrigerantes, uísque e champanhe, oferecendo-os aos convidados vestidos como quem se veste para ir a… bem, uma festa de casamento, mas uma festa sobre concreto. Não faltaram senhoras se desequilibrando, os seus saltos afundando na grama ou deslizando nos pedregulhos (e assinando assim suas sentenças de confinamento eterno nos guarda-roupas, desgastando-se bem mais rápido do que o esperado e o investido).
Mas como eu não uso salto e nem fui usando gravata, estava achando tudo muito lindo.
A banda tinha um violinista, e não faltaram boas vozes ou boas músicas. Durante a cerimônia, tocaram Somewhere over the rainbow, Fico assim sem você, A whole new world (música de Aladdin num casamento, cara!
), Wherever you will go e All I Ask Of You (só instrumental, linda!), e essas são só aquelas de que me lembro agora, falando assim.
E então terminaram as músicas, os noivos se posicionaram diante do pastor e o pastor abriu a boca.
Ó, as coisas que ele disse.
Como em todo casamento não-fictício, ele passou tempo demais falando. O primeiro problema foi que ele era evangélico. Veio completo com a mania chata de aumentar um pouco a voz a cada “ó, Deus” até o nível do grito, para depois se lembrar que está falando através de um microfone e voltar a uma voz artificialmente amaciada. O segundo (e mais crucial) problema foi que ele era machista.
A mensagem que ele escolheu para nos passar, em sua infinita sabedoria, foi basicamente a seguinte: o casamento é um contrato seriíssimo no qual o homem jura amar incondicionalmente a sua esposa (e, o pastor ressaltou, isso não é de modo algum uma opção dele, mas sim um dever), e a esposa jura ser submissa ao homem, que é a cabeça da família. Eu, por minha vez, juro que ele disse essas coisas com exatamente essas palavras. Depois ele tentou se explicar com essa coisa da “submissão”, e explicou inventou que submeter-se não quer dizer subjulgar-se, mas estar “sob missão” (nessa hora eu não consegui conter o riso, e me perdoem os parentes evangélicos que possam tê-lo ouvido, se tem algum de vocês lendo isso) de viver a vida perto de Deus junto ao outro. Não sei se ele convenceu alguém, porque desde a primeira vez que ele mencionou a palavra “submissa” ele perdeu pelo menos umas 15 das suas ovelhas em potencial que estavam próximas de mim (uma eu ouvi dizer: “vamos puxar uma vaia, gente?”).
Mas ouví-lo dizendo os seus machismos sustentados pela “palavra de Deus” (o que parece ser o apelido carinhoso que ele dá àquele livro cheio de baboseiras obscuras a que também se referem por “A bíblia”) me fez atentar-me a um pequeno detalhe. O tempo todo, em seu famigerado discurso, ele fazia menção aos desígnios e às razões do “homem” e da “esposa”. Em nenhum momento ele falou em “mulher” – era sempre “esposa”. E já aí se podia perceber sua visão do mundo. Em como ele enxerga as mulheres.
Veja bem, “esposa”, por definição, é um substantivo que denota a ligação matrimonial de uma mulher com um homem (vocês sabem como é, os dicionários ainda não estão cientes do casamento homossexual). Mostra que ela é casada com alguém. “Esposa” é uma palavra que só tem sentido se existe um “marido”; é uma palavra que existe em função de um homem, pois sem um homem uma esposa só pode ser “mulher”. Um “homem” que se casa com uma mulher é um “marido”, ou um “esposo”, mas em momento algum essas duas palavras foram citadas. O que quer dizer, simplesmente, que na visão do pastor uma mulher realmente vive em função do homem: vive na função de ser sua esposa. Uma mulher, para ele, não tem sentido enquanto não está ao lado de um homem, que é “a cabeça da família”. Por outro lado, o “homem” é uma variável independente. É em função dele que a “esposa” vive, em submissão. O que ele faz é de seu próprio arbítrio, e o de nenhuma outra pessoa. O homem é superior. Eva foi criada porque Adão se sentia sozinho (e, você adivinhou, estou parafraseando o pastor). E, aliás, a criação de Eva, segundo ele, é a prova de que Deus quer que nós nos casemos, e é exatamente isso que deu a ele autoridade quando criticou os casais que se divorciam, fazendo uma “análise” dos números do mundo moderno. Ele reiterou: o homem tem o dever de amar sua esposa. Não a opção.
Amém? (Vale dizer que quando ele mesmo disse isso, pouca gente respondeu amém de volta).
Mas o que eu fiquei pensando depois de tudo isso é o seguinte, e a pergunta é uma que eu queria que vocês me respondessem (daí o post), caso tenham convívio com evangélicos (pois o meu é quase nulo, por razões óbvias): será que isso é comum a todos eles? Definir o casamento como a união do “homem” e da “esposa”? O pior é que eu não vou me espantar se eu descobrir que sim.
