Futebol e masculinidade

Ontem de madrugada, enquanto me preparava para dormir, decidi ligar a televisão. Diferentemente de todas as outras vezes, decidi não tirar do canal que meu avô estivera assistindo na Sky antes de ir dormir, que era o SporTV2, na esperança de que ele catalizasse o historicamente difícil processo que é aquele em que o sono tenta tomar conta de mim. Para a minha surpresa, o efeito foi contrário: acabei vendo as filmagens que registraram o ônibus do Corínthians (que levava os membros do time ao treino) sendo apedrejado por sujeitos que vestiam a camiseta da torcida organizada do Corínthians e fiquei horrorizado. E o problema é que, por mais que eu gostaria de dizer que fiquei sem entender, eu entendi. Tudo fez um infeliz e deprimente sentido.

É que a derrota do Corínthians para aquele time que até então, em termos práticos, sequer existia, foi especialmente vergonhosa para os seus torcedores. O que o Brasil acompanhou não foi simplesmente um time perdendo, mas toda a honra dos corintianos descendo pelo ralo enquanto os torcedores dos demais times brasileiros faziam piadinhas e eles não sabiam — e nem tinham — como se defender. Os corintianos foram humilhados, e experimentaram um tipo diferente de bullying, apesar de ter o mesmo gosto amargo. E é claro que não gostaram.

Não quero cometer o erro de generalizar, porque realmente não acho que as atitudes desses “torcedores” que apedrejaram o ônibus refletiram a vontade de todos os torcedores do Corínthians, mas acho alarmante que isso sequer tenha acontecido. Esse caso extremo mostra (através de uma senhora lente de aumento) que há algo de extremamente errado nessa história toda. O sentido do torcer foi esquecido ou deturpado.

No Brasil, o futebol é uma expressão da masculinidade — afinal, quem não gosta é veado, certo? Daí segue, naturalmente, que os próprios times são uma representação do masculino; que quando um indivíduo decide apoiar um time de futebol, também deposita nele, sem saber, a sua própria masculinidade. De fato, em campo, não são dois times que se confrontam, mas sim, simbolicamente, dois homens. Dois homens que devem ser masculinos e não deixar, de forma alguma, que o outro marque gols nele. Talvez seja por isso que é tão raro uma mulher gostar de futebol. Essas questões não a atingem. O mesmo se aplica a gays, que têm um conceito diferente do que é a masculinidade.

Quando alguém vestindo a camiseta de um time faz um gol, não é porque o gol tem o poder de sair injetando alegria nos torcedores que todos os que vestem a mesma camiseta comemoram. Não é o gol pelo gol. Nem o gol pelo placar. A felicidade deriva do acontecimento desse breve momento em que os torcedores de um time vêem o outro time (e, por extensão, todos os seus torcedores) serem indiscutivelmente humilhados por terem falhado e sido invadidos pela bola do outro no lugar onde, por definição, não deveriam ser. O grito de “gol” que se ouve nas arquibancadas, nos bares e nas salas de estar não se traduz em “meu time acaba de fazer um gol, olha que orgulho”, mas sim em “seu time acaba de tomar um gol, olha que humilhação”. O prazer não está em ver o próprio time ganhar, mas sim em ver o outro time embaixo ao invés de em cima. A torcida não é pelo time, mas contra o adversário.

O episódio do apedrejamento teve razões idênticas às razões pelas quais os gays sofrem bullying. Quando um homofóbico vê um gay expressando sua orientação sexual, ele escolhe agredi-lo ao invés de ignorá-lo porque se sente ofendido. Ver um homem agindo de um jeito diferente daquele que se espera de um homem — esse ser linear e superficial que se caracteriza simples e unicamente por ser o oposto da mulher — ofende a própria masculinidade. Trata-se de um desvio inadmissível ao que se convencionou (ou talvez seja mais acertado dizer se acostumou) ser a normalidade. Daí a violência: os xingamentos que pronunciam, os socos que desferem, as pedras que jogam, são uma punição. Um alerta de que devem se adequar. Não muito diferente de quando torcedores fanáticos apedrejam o ônibus que leva os jogadores do seu time: fazendo isso, estão se declarando insatisfeitos com a humilhação por que foram obrigados a passar enquanto a masculinidade deles era colocada em dúvida. Através desse ato bruto, grotesco e extremo buscam reafirmar a masculinidade da qual se viram destituídos por um instante, por culpa dos jogadores inadequados e incompetentes num desvio inadmissível.

E acho que é exatamente aí que a instituição do futebol perde o sentido. Essa visceralidade toda não é despertada pelo amor a um time — se fosse, os jogadores teriam sido respeitados e acolhidos; teriam recebido uma segunda chance, e mais apoio da torcida no próximo jogo. Não. A visceralidade é despertada pelo instinto da defesa da própria honra. Afinal, o que há para se amar em um time? Certamente não os jogadores que vestem a sua camisa, porque eles são passageiros, e porque aqueles que não têm um bom desempenho são vítimas de violência por parte dos próprios torcedores. Também não o técnico, porque, assim como os jogadores, técnicos sempre são substituídos. Todo o corpo administrativo associado a um time muda também. Há quem diga que é a história do time que se ama, mas não imagino que os torcedores tenham algum apreço pela tal História, porque, por exemplo, não vi história alguma sendo lembrada enquanto o Ronaldo Fenômeno era insultado — ao mesmo tempo que posso contar nos dedos os jogadores com uma história tão dourada quanto a dele. Pelas minhas contas, sobra só o nome… e o emblema. É isso que os torcedores amam. E só pelo fato de serem diferentes do nome e do emblema de dúzias de outros times. Nada mais de especial eles têm: só são singulares.

Mas, mais do que isso, o time está nos seus próprios torcedores. Não individual, mas coletivamente. Até porque alguns torcedores também transitam entre times. Tudo muda, menos o fato de que sempre há uma torcida por um mesmo nome e um mesmo emblema. De fato, quando um indivíduo escolhe para que time torcer, ele leva em conta apenas quem são as pessoas que torcem pelos times. O moleque não se importa com o número de títulos que o time do pai, do tio ou do avô ganhou, com a qualidade dos jogadores atuais, e nem leva em conta se é ou não provável que eles ganhem o campeonato. Só importa que é o time do pai, do tio ou do avô. Trata-se simplesmente de juntar-se a um grupo de pessoas pelas quais se sente afinidade, não muito diferente do processo por que todos passamos quando somos inseridos em qualquer meio social. Logo achamos aqueles com que nos identificamos e formamos com eles um grupo. Uma vez escolhido o time (uma vez firmado o grupo), a necessidade é de se provar superior ao outro. A necessidade é vestir a camiseta, ir assistir o jogo e torcer para que o time do outro seja derrotado, para que o seu próprio grupo possa triunfar sobre eles. O futebol não importa muito. Fica apenas em segundo plano. É só a desculpa para que possa haver a rivalidade. É só o rolar dos dados sobre a mesa. Nada mais.

Para mim, o torcer jamais foi o que deveria e o que, a primeira vista, parece ser. É por isso que torcidas organizadas jamais foram bem vistas. Seus desígnios são o de insultar, agredir e censurar as outras. Por trás do famigerado amor ao time geralmente está a intolerância e a pura rivalidade. Eu não acho que pode existir qualquer tipo de amor por trás de atos como esses. Acho mesmo que as pessoas deveriam começar a investigar o que significa o torcer delas. Será que elas estão torcendo do jeito certo?

Torcer, v. t. d. (…) 5. desejar a vitória, o bom êxito dos esportistas ou de indivíduo de sua simpatia.
(Minidicionário Soares Amora da língua portuguesa)

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