Silêncio
O medo de começar a falar e, na excitação de fazê-lo, se atropelar nas palavras e acabar seguindo o caminho oposto do desejado é o que faz do tempo silencioso, vazio de expressão e cheio de reticências. Perder-se nessa mudez, na inexpressão da incerteza, é como ver a vida do fundo de um lago turvo onde, mesmo que se possa ouvir uma pedra caindo longe na superfície, e que se possa ver a luz entrando quando é dia e perceber a noite quando ela vem, não se pode gritar e se fazer ouvir, emitir sinal luminoso e nem ao menos se fazer noite, tranqüilo e completo. É como estar em uma espécie de útero – albergue sombrio, misterioso e coloidal – apenas flutuando em volta de si mesmo, sem direção nem sentido, e sem senti-lo também; ficar apenas ouvindo murmúrios e sugestões de vida alheia e verdadeira lá fora. E também é como estar nesse desconcerto, na eterna repetição de um ato que vai ficando cada vez mais distante nas ondas do tempo que começa a parecer ser qualquer coisa, exceto linear.
Sinceramente não sei do que estou falando, mas também não quero me atrever a fazer sentido nesse mundo que dele tanto carece; por enquanto não quero falar de nada que alguém possa entender, porque entender é o que vem antes de questionar. E o problema de ser questionado é que você pode não ter resposta, e o que dizer de argumento. Ou, se tiver, pode ser algo duro demais, com peso insustentável. Algo como – você quis brincar de não saber se expressar e acabou se esquecendo. Tu te tornas aquilo que cativas, pequeno.
A falta de sentido seduz, tão-somente porque é caminho bem menos árduo. Escrever com sentido é lida demais. Mas o problema maior nem é isso: o que me mata é a preguiça. É ela quem me faz pensar assim. Ou seria não pensar?
Não, acho que seria só pensar preguiçosamente: tudo pela metade. Ou pelo início, pelo fim, tanto faz. Nessas horas e condições a ordem realmente não interessa.
De forma resumida, acho que é isso: estou com preguiça demais. Só mais dez minutos.
Aliás, alguém quer me dar o ‘Cadeira de balanço’, do Carlos Drummond de Andrade?
P.S.: Ou talvez no momento eu só esteja com sono.
1 comentário

não sei como a preguiça pode ter culpa em qualquer coisa. não, não senhor. you should search better, sweetie.