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A espera e uma espera

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Parando para pensar, é melancolicamente engraçado que eu fique, bem, decompondo o tempo desse jeito quando eu espero. Percebi que, nessas horas, eu sempre me coloco a imaginar os eventos que ele impede de acontecer e os eventos que ele desencadeia – maneiras com as quais o trânsito, a pressa, a falta de pressa, a chuva, a noite, o dia ou o dólar poderiam prolongar ou encurtar a minha espera. E, conforme os minutos passam, fico pensando: bom, se ainda não terminou definitivamente só pode ser por causa disso. Ou talvez…

E me perco. O tempo é cruel: ele analisa tudo isso em uma velocidade com a qual a mente humana simplesmente não pode competir. Pego /ê/ por essa disparidade, faço com que o tempo se estique sob a minha percepção. Acho que é isso que acontece.

Esperar, para mim, é parar num momento de vulnerabilidade, de vergonhosa impotência; ficar ali, estático, braços e pernas atados, e a própria mente firmemente atada na coisa esperada também. Para mim, esperar é se submeter ao mundo em sua crueldade – circunstâncias, prazos, distâncias, velocidades; subjugar-se a todas as avarias e possibilidades, desgastar-se, e ter à própria disposição a faculdade – só, frágil e viciosa – de avaliá-las enquanto o tempo vai tecendo o caminho da realidade através delas. Enquanto o tempo vai escolhendo: agora acontece isso, agora aquilo, e assim vai fazendo tudo progredir.

Sim, para mim é assim porque eu acho que sofro de ansiedade. Quando espero música alguma me acalma, livro nenhum me interessa, e não existe passatempo que cumpra seu papel. Também não fico mais tranqüilo comendo e acredito firmemente que nenhum outro truque funcione comigo. Se bem que, no momento, estou experimentando escrever e, para o meu contento, a minha mania de perfeição que sempre tanto tomou meu tempo e absorveu minha atenção parece estar funcionando. Não se engane – esta foi uma das últimas linhas deste texto que escrevi. Antes de escrevê-la, fiz inúmeros reajustes mais acima e mais abaixo, mas continue lendo.

Só sei que derramei uma lágrima nessa agonia – era isso que eu queria contar -, mas agora não sei se é de ansiedade ou de agouro; se é só sinônimo de derrota ou uma estranha sintonia me transmitindo notícias ruins que o meu corpo entende, mas a minha mente não. Estou mortificado, tudo dói, bem como se eu tivesse envelhecido uns sessenta anos nesses últimos sessenta segundos. O que seriam essas lágrimas, afinal? Só minha fraqueza diluída em água e sal?

Sofrer de ansiedade é se meter embaixo de um peso insuportável, e essa espera não quer findar. A casa está em silêncio, as notícias também não chegam. O celular só dá fora de área e eu só queria estar fora de órbita. Esperar no escuro da insipiência é a pior claustrofobia.

A minha única sorte é que sou resiliente — que ele chegue dando um fim a tudo isso, eu retomo o statu quo ante. Ou assim espero.


1 comentário

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  1. e ainda assim, você não mudaria nada?

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