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Vaga-lumes

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Tudo era perturbadoramente dourado. Eu tentava fumar o meu cigarro sem me sentir estranho, mesmo sujo; um pária da natureza, do vento doce de baunilha e dos murmúrios do riacho. O pôr-do-sol me irritava, como sempre fez. A magia do ocaso é uma que eu nunca conheci. E todos na fazenda sempre o veneravam tanto! Para mim vem com ele o anúncio da noite, e só. Quando chegava a noite, a gente tinha que voltar pra sede. Eu ficava atrás da janela do meu quarto, o do sótão – tanto eu lutara por ele -, vendo vaga-lumes e ouvindo o som abafado do canto dos sapos não passando através do vidro grosso. A Rita vivia me gritando, lá de baixo, pra ir tomar a sopa, e eu continuava contando meus vaga-lumes. Era o meu jeito de pegar no sono. Eu quase sempre dormia ali, no peitoril da janela mesmo, e acordava enrolado na colcha e afundado na minha cama, o vento frio da manhã campestre dançando janela adentro e me fazendo lembrar vagamente da Rita me pegando no colo e brigando docemente comigo, me acusando de odiar a sua sopa, antes de fechar os olhos e retornar ao meu sonho. Eu sempre sonhava com a cidade – com prédios altos pelos quais eu ia pulando – e as mais variadas versões de elevadores. Às vezes eles eram toras de madeira puxadas por macacos em cipós e às vezes eram caixotes de madeira pendurados em polias, mas estavam sempre deslocados no cinza do concreto de uma cidade que ficava em eterna construção. Olhei para o riacho e fiquei meio cego – os raios de sol se refletiram nele e atingiram em cheio os meus olhos. Girei nos calcanhares e puxei um último trago. Fiz dele longo e apaixonado, e depois soltei o cigarro para pisá-lo com o tênis. Depois fiquei sentado sob o velho ipê amarelo, me fingindo de adolescente outra vez. Tentei me lembrar das coisas que eu pensava quando terminava outro cigarro às escondidas e fingia para mim mesmo que o tempo todo que eu estivera ali fora gasto observando a rebeldia da clareira. Quando a rebeldia era apenas minha. Ri, amargo, ouvi minha risada sair meio rouca e pigarreei. Recostei a cabeça no tronco e fiquei ali até que aquela luminosidade febril de fim de tarde perdesse o lugar para o azul espectral da noite de lua cheia. Fiquei esperando um vaga-lume aparecer, mas não vi nenhum. Os bons tempos não voltam. Levantei e me espreguicei, e então fui voltando pela trilha que já não existia. O mato tinha crescido de novo, verde, verde, e apagara o caminho que dantes os meus pés haviam afundado, nas caminhadas de ida e de volta, de e para aquele lugar secreto e silencioso. A relva descia pelas pedras, cobria o negro do húmus, avançava pelos troncos das mangueiras e isolava o meu antigo templo, tornando-o da natureza mais uma vez. Restituindo aquele refúgio ao seu verdadeiro guardião, o esquecimento. Eu ainda podia contemplá-lo quando visitava a fazenda, mas eu nunca mais poderia me esconder nele ou chamá-lo de meu. Aquela não era mais a minha vida, era isso que o musgo e o mato me diziam, crescendo rebeldes por todo canto. E eu caminhava por cima deles, sem precisar de rastros para achar meu caminho de volta para a sede – este era eu mesmo me dizendo que aquela vida já não pertencia mais a mim. Me curvei para pegar uma folha de hortelã, mas aí me lembrei que não escondia mais que fumava. Ri, ouvindo a minha voz sair mais limpa, e então segui adiante.



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