Meia-noite

Então passou da meia-noite, mas cadê a diferença? O que é que mudou em mim que agora eu posso assistir àquele filme de terror que eu não podia ver há umas três semanas atrás? Passou da meia-noite e de repente eu virei dono do meu próprio nariz. Ainda que a minha mãe não realmente queira dizer o mesmo, é assim que a Justiça me vê agora. Imputável. Palavra austera. Acho que não combina comigo. Mas o que fazer? Era um contrato que estabeleceram (o sujeito semanticamente indeterminado tem total razão de ser) exatamente quando eu nasci, e que, apesar de não levar assinatura minha ou de um juiz da enésima vara de sei lá que esfera, tem o poder e a credibilidade de um postulado. Um sujeito abstrato que talvez possamos chamar, com pelo menos algum grau de acertamento, de praxe ou senso comum, determinou: “esse menino será considerado cidadão legal no primeiro segundo do dia 25 de março de 2009!” Eis que o dia chegou, e para mim ele é quase fatídico. Cumpriu-se a parte do tempo no pacto: dezoito anos se passaram desde então. Será que eu sou mais maduro agora do que eu era, não sei, no último dezembro? Provavelmente, eu ouso dizer. Afinal, a partir de hoje eu não posso tirar uma licença de direção? Sem falar que, para todos os efeitos (os legais principalmente), também a partir deste dia eu posso consumir bebidas alcoólicas mesmo que eu ainda preserve a cara de criança. Isso para não falar da permissão que eu acabei de ganhar de entrar em boates. Quanto poder num número! Cruzar essa tênue linha que há entre duas idades é uma experiência peculiarmente curiosa. Tanto mais quando se a cruza pela décima oitava vez. É um gosto estranho esse que estou levando comigo para a cama agora. Enfim é a minha vez. Pelo menos por enquanto não estou sentindo nada diferente – estou quase certo disso. Se, quando eu acordar de novo, eu sentir que sou praticamente outra pessoa, aviso vocês. Mas nem por isso pensem que eu acho que isso não é nada demais. O sistema me modulou direitinho para que eu pense justamente o contrário, de modo que eu absolutamente não poderia dizer algo muito distante disso ou de um jeito muito diferente desse: dezoito anos, porra!

Ler mais

Remédio santo

A notícia é velha, mas o Fantástico me refrescou a memória num dia que está para atualizações.

Parece que descobriram os criminosos responsáveis pelos amores que não dão certo e pelos amores que dão, e eles estão em via de ser presos em pequenas cápsulas edíveis. Os cientistas andam dizendo que são dois hormônios chamados oxitocina e vasopressina. O mercado farmacêutico já os investiga. E querem saber de uma coisa? Vou fazer uma profecia aqui, só entre nós. A utilidade é dupla: se ela não se confirmar, ninguém vai ficar sabendo, mas, se por acaso acabar se confirmando, então você vai poder dizer para todo mundo que conheceu alguém que já dizia isso havia tempos.

Vai ser assim: a Igreja Católica vai convocar secretamente para uma assembléia extraordinária os mais tradicionais arcebispos do mundo e das câmaras subterrâneas do Vaticano vai subir a decisão de que o Papa e a Igreja endossam as pílulas porque <insira aqui uma desculpa esfarrapada embasada em obscuros estudos teológicos entremeados com constância pelas palavras “Deus” e “Providência”>. A partir desse histórico evento, a revolução virá a jato: novos cargos surgirão nas cerimônias matrimoniais: os porta-pílulas, que entrarão antes dos porta-alianças, trazendo nas mãos dois comprimidos para os pombinhos. Eles os tomarão com água benta, jurando que querem pela vontade que é livre e espontânea

(sempre me perguntei se existiria outra)

ficar juntos para todo o sempre, e então trocarão alianças. O padre casamenteiro ficará então encarregado de visitá-los a cada <insira aqui a duração dos futuros remédios> para realizar a Santíssima Reconsagração do Matrimônio que os críticos do catolicismo chamarão de Utilíssima Reincidência do Medicamento. Permanentemente dopados com níveis de oxitocina nas alturas, nunca se divorciarão, e a Igreja enfim andará feliz e saltitante de mãos dadas com a Ciência.

Quem diria que dois delinqüentes poderiam mudar tanto o mundo?…

Espera, eu ainda não posso falar desse jeito. Afinal, o Papa ainda não se pronunciou sobre o assunto.

Ler mais

Crianças

Uma idéia que eu queria ter tido: anotar os meus achismos num caderno desde quando aprendi a escrever. Aí hoje eu poderia pegá-lo e ficar folheando até achar algo apropriado para contar. É que muito fica perdido, flutuando em algum lugar da memória. Achar lembranças num caderno seria muito mais fácil. Isso me renderia tantos textos! Eu citaria essa coisa que eu refleti uma vez, explicaria que foi algo que sempre achei, e depois faria um comentário a respeito. Os encaminhamentos possíveis seriam dois: “mas então percebi…”, ou então “e é verdade…”. Acho que fui uma criança interessante. A minha mãe me disse que uma vez perguntei a ela: “mãe, se a gente vive depois que morre, como é que sabe se não está morto?” Ela até hoje não conseguiu a minha resposta, e eu também não consigo pensar em nada plausível. Ser criança é algo mágico porque significa morar em um mundo diferente, em que os mares não têm fim e todos os seres humanos habitam uma única ilha. A imaginação da criança é solo fértil. O seu pensamento, por ser inocente, é tanto simples quanto engenhoso. Pobre de quem o acha ingênuo. A mente infantil é lúcida, põe clareza no enxergar. Sem palavras demais na cabeça, perder-se nelas se torna difícil. A criança às vezes expressa algo que está muito longe de corresponder à verdade, mas de qualquer jeito é aceitável, mesmo razoável, se avaliado segundo a sua lógica prematura. De algum jeito, faz sentido. Mas, de qualquer forma, a criança tem a liberdade de cometer erros porque tem a seu favor a escusa da inexperiência. Ela desvenda o mundo em suas aparências, e para tanto tem a seu dispor não mais do que a curiosidade, um desejo inato que não é uma gana por conhecer ou dominar, mas simplesmente vontade de entender. Ninguém julga o que uma criança diz porque todo mundo pressupõe que ela ainda não tenha a menor idéia do que seja a tal verdade. Quer dizer, nenhum de nós realmente sabe, mas o problema conosco, os crescidos, é que nós temos uma convicção muito grande de que sabemos. Isso afeta os nossos achismos e os transmuta em certezas particulares. É por isso que a mágica da criança que todos nós fomos acaba por se perder com o tempo: à medida que adquirimos experiência, vamos perdendo o direito à desculpa de não termos o conhecimento de mundo, e somos obrigados – por nós mesmos! – a pensar com método, a maquinar os pensamentos, elaborá-los e apresentá-los entre conjunções explicativas, adversativas, conclusivas, comparativas, conformativas, consecutivas, integrantes, causais e todo o arsenal que não acaba. Por termos que recorrer às coisas concretas o tempo todo, os nossos pés ficam grudados no chão e as nuvens ficam distantes. O mar termina onde recomeça e todas as coisas têm nomes e explicações. O raciocínio lógico nos torna corriqueiros.

Ler mais

Provérbios seguem adiante

Os tempos progridem e se tornam outros, mas os provérbios insistem em não mudar. Eu acho que deveriam pelo menos se adaptar. Eu estou falando isso porque esse papo de spams e vírus me fez pensar no Orkut. Algumas vezes já experenciei ali o co-sentimento (me empresta por um segundo, Kundera?) da vergonha alheia. Sabe quando você recebe aquele recado clique-aqui-para-ver-vídeos-de-sexo-selvagem e se prepara pra apertar o botão de excluir, como de costume, mas aí percebe que quem te o enviou foi uma mulher que você sempre chamou de tia? Aí você olha e não pode evitar pensar: ela clicou nisso e agora a coisa está se disseminando através do computador dela. E então você de fato apaga, totalmente desconcertado, e nunca mais consegue olhar para a mulher do mesmo jeito ou se imaginar chamando-a de “tia” de novo. Já passei por isso, e essa ex-tia minha passou a vergonha pior. E essa lembrança me fez pensar naquela passagem bíblica, que me veio um tanto diferente: “diga-me onde clicas e te direi quem és”.

Ler mais

Cadeira de balanço

Estou feliz. Comprei o meu Cadeira de balanço pela internet e agora ele está do meu lado. Isso me dá uma sensação estranha de realização, de conquista, não sei. Acho que esse livro me contagiou – passar do ódio à admiração é uma experiência bastante curiosa. Foi essa por que passei quando saí do colégio e redescobri Carlos Drummond de Andrade. Dessa vez como o prosista, e não o poeta.

Mas nem tudo são flores. Antes disso, eu tinha seguido o caminho inverso: conheci um Rubem Alves fantástico no colégio, aí comprei o Ostra Feliz Não Faz Pérola e acabei encontrando ali um escritor um tanto infantil no uso das palavras. Ainda assim, o livro tem lapsos de uma maturidade que o tempo se encarregou de trazer, mas nada a ver com intrincácia do uso da língua. No fim das contas, acho que é isso o que me atrai nos autores. Mas é claro que eu não julgo o escritor de tantos livros por um só – essa talvez até tenha sido a intenção desse que eu comprei. De todo jeito, isso não altera o fato de que me decepcionei.

E até a aquisição tem outra faceta: por outro lado, ela também me deixa um tanto claustrofóbico. A conta de livros que estão sendo lidos acaba de subir para seis. Minha avó sempre diz que quando a coisa é demais, muito não basta. Mentira, eu acho que acabei de inventar isso. Faz algum sentido? Eu gosto da sonoridade. Acho que, se alguém me o dissesse desse jeito, como eu disse, eu provavelmente acreditaria se tratar de um ditado popular.

Ler mais

Spams e beneficência

Sempre nutri uma certa raiva por esses e-mails do tipo aumenteseupênisematévintecentímetros ou nossasfotinhasnomotel, ainda que a criatividade tanto maliciosa quanto inocente deles, em contrapartida, sempre tenha me divertido. Mas hoje tive um momento de epifania e, como é de se esperar, tudo mudou. Esses e-mails nunca vão me pegar, eu pensei, e o gmail é eficiente o suficiente para levá-los todos para a caixa de spams tão logo eles chegam, de modo que não poluem minha caixa de entrada, mas é fato que sempre existe um número de pessoas que realmente cai na conversa fiada deles – as cabeças nas quais essas balas perdidas buscam se encontrar. Até porque em um mundo tão sujeito a variáveis e circunstâncias como o nosso o resultado não poderia ser outro. Quer dizer, quantos novatos de internet têm o pau pequeno e quantos homens broncos de fato estiveram em um motel recentemente, onde andaram tirando fotos? Sem contar aqueles que vêem um e-mail do tipo nossasfotinhasdomotel e pensam: “a idiota mandou o e-mail pro cara errado, e agora eu vou ver tudo!”. Caras assim simplesmente merecem contrair vírus cibernéticos. E foi então que eu descobri a beleza sublime desses e-mails: eles só contaminam aqueles que verdadeiramente merecem ser contaminados. E isso sem fazer esforço ou precisar de um mecanismo complexo: os próprios merecedores se denunciam clicando nos links e a a punição vem com o ato, como num arco reflexo, com a velocidade de centenas ou milhares de kilobytes por segundo. É a burrice que pede porrada adaptada aos tempos modernos. Essa é a porrada do século vinte-e-um nos acéfalos online: automatizada e, ainda assim, infalivelmente justa.

Os disseminadores de spams maliciosos subiram um ponto no meu conceito. Será possível que exista uma liga de hackers que expede esses e-mails para punir os burros espalhados por esse previsível mundo velho?

Ler mais