Pergunta
Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.
Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.
- Filhote?
E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:
- Oi.
- Em que você tanto pensa?
Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.
- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.
- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.
- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?
E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.
A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.
Deixou-se voar.
Ler maisFim de tarde
Eles se olham, trocam palavras descuidadas, quase sempre soltas. Ainda que conversem honestamente, trocando novidades e idéias, também sabem muito secretamente que é tudo um prelúdio à causa que realmente os colocou sozinhos aqui. Eles riem, ora alto, ora baixo, e usam esses momentos como escusas. Chegam mais perto. Vão diminuindo o tom. Apreciam o silêncio, e depois o trocam. Por uma razão ou outra se tocam, mas nunca por tempo demais. Enquanto isso, se percebem, se perscrutam, ao mesmo tempo que fingem ser apenas sujeitos, nunca objetos. São reflexivos, mas sutis. Quando não resta mais o que fazer, ficam abraçados, protegem-se do frio ou da falta de alguma coisa qualquer. Alimentam-se de suas companhias. Acham suficiência neste único ato e dispensam todas as palavras. Se fazem duas partes unidas e percebem que o todo não se completa. Então se olham. Se aproximam, e aqui nos deixam, então e enfim, a evidência mais precisa da impossibilidade deste romance, que mutuamente desconhecem: este beijo. Este beijo e estes pensamentos que nenhum deles diz e que jamais acham portas por onde escapar. Enquanto um silenciosamente promete a si que este será o último, o outro fervorosamente pede que aquilo se repita para todo o sempre, e ambos ao mesmo tempo se abraçam e ao mesmo tempo se guiam numa mesma dança, bem conhecida, rodeados por um amor que de tão clandestino quase não é amor. É vício.
Ler maisEu não acredito em Deus
Hoje ouvi mais uma vez alguém perguntar aos sussurros se eu não acreditava em Deus. Mais uma vez eu me limitei a ouvir dizerem não em resposta evitando falar muito alto por talvez pensar estar participando de uma heresia. E mais uma vez fiquei sentado, em silêncio, apenas imaginando as coisas que eu diria para fazer aquele olhar de desgosto desaparecer, revisitando o discurso que está quase sempre pronto, mas nunca tem motivos suficientes para ser pronunciado. Só que eu percebi que eu já cansei de fazer isso. Ainda assim não o disse, pois qualquer coisa que eu dissesse seria ignorada tão logo a próxima palavra viesse, mas me levantei e vim escrever o que penso. Assim quem sabe o esforço seja menos vão.
Esta é a resposta a essa pergunta que até hoje eu só vos dei em minha cabeça:
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque tanto mais eu investigo os discursos que o defendem, mais inconsistências e mais contradições parecem emergir. Não acredito porque – e essa é apenas uma das razões – acreditar em Deus significa aceitar que existe o destino. O que é impossível para mim, porque eu sempre fico simulando na minha cabeça esta pequena história que, apesar de poder não ter acontecido, pode perfeitamente acontecer numa dessas segundas ou quartas-feiras quaisquer: quando um avião com 170 passageiros a bordo está caindo, em rota de colisão com um prédio de uma cidade, será que morrer nessa situação poderia ser o destino dos recém-casados voltando mais apaixonados do que nunca de sua lua-de-mel e do casal de idosos atrás deles que ganhou uma viagem dos seus filhos e da criança viajando sozinha nos primeiros assentos com um crachá dependurado no pescoço e da aeromoça solteira que deixou seu filho em outra cidade aos cuidados da irmã e do rapaz viajando a trabalho e a contra-gosto e do piloto brilhante que sonhava em voar desde menino e da moça grávida de oito meses (e do bebê de oito meses dentro da barriga da moça grávida) e da menina cheia de esperanças voltando do vestibular que fez fora de sua cidade natal e da senhora que tem medo de voar indo visitar o seu filho e terminando de rezar o terço… que tudo faz parte do grande plano que Deus elaborou para cada um deles? Sem falar das pessoas que trabalham no prédio com que o avião vai colidir e daquelas que dormem nas casas próximas sobre as quais ele vai desabar, ou das famílias de todas as pessoas envolvidas pelo desastre, que têm tantos planos, tantas esperanças e, acima de tudo, tanto amor. O que sobra é só a a tristeza. E os destroços. Eu me recuso a acreditar que exista o destino porque a vida é cruel demais para ter sido arquitetada aos mínimos detalhes por alguém – ainda mais alguém que supostamente é Amor. E o engraçado é que em face dessas circunstâncias até aqueles que dizem acreditar no destino passam a não acreditar por um momento, porque dizem: é uma fatalidade. Não! Para que se diga que se acredita em destino, há que se defender que essa situação também é a manifestação dele. Se a pessoa não é capaz de defendê-lo, então ela na verdade não acredita que exista algo assim.
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque todas as diferentes facetas do Deus que as pessoas idolatram me ofendem profundamente e as religiões são construídas ao redor do egoísmo. Me enoja quando eu vejo alguém ganhar alguma coisa e exultar, agradecer ao seu Deus, dizer que ele é pai e que ele é bom e que ele é justo, sem pensar que, se x era o número de pessoas que concorreram àquela coisa, existiam x – 1 pessoas pedindo aquela mesma coisa, rezando a mesma reza, desejando tanto ou talvez mais do que ela, necessitando menos ou mais do que ela. Me enoja quando uma pessoa fica feliz pela conquista profissional da outra e diz que aquilo foi um presente de Deus a ela, ignorando assim todo o esforço e toda a dedicação que a pessoa sozinha investiu em si para alcançar aquilo. Me enoja que creditem tudo a Deus, nunca ao homem e à mulher. Me enoja quando uma pessoa medíocre diz para outra pessoa medíocre que ela vai rezar para que a outra passe no concurso, mesmo sabendo que ela está muito longe de ser a pessoa mais adequada ou a mais merecedora do cargo, e que ela acredite que exista a possibilidade desde que ela peça com fé a Deus, que então tiraria a vaga de quem realmente merece para dar ao seu amigo medíocre, mas necessitado de dinheiro e, mais importante, conhecido dela. Me enoja que tanto um padre consolando um fiel que tem um parente moribundo quanto um bandido falando com a quadrilha antes do assalto digam Deus vai nos ajudar e que ambos possam crer com o mesmo fervor nisso. Me enoja quando eu ouço uma pessoa que presenciou um tiroteio dizendo que foi uma graça de Deus que o atirador não a acertou, mas sim a pessoa que estava bem ao seu lado, assim bem perto mesmo, e que foi um milagre ela ter escapado, sem perceber que essa pessoa que foi acertada também era um ser humano tão inocente quanto ela, um ser humano que sentiu a dor do tiro, foi para o hospital e que talvez tenha morrido enquanto ela continua contando a todos os amigos a sua experiência de quase morte e o “milagre” com que foi abençoada com o maior sorriso do mundo. Me enoja quando as pessoas rezam de noite só para não ter pesadelos, e quando elas se reúnem em uma igreja e cada uma delas se fecha em sua própria reza, pedindo a realização dos seus sonhos e dos sonhos de seus parentes e amigos, e pedindo que se resolvam os seus piores problemas. E também me enoja quando elas rezam pela paz mundial ou pela erradicação da fome e acham que, nisso, estão fazendo suas partes, pois as pessoas vêm rezando por isso há muitos séculos e os problemas continuam aqui, muito visíveis e muito palpáveis, o que só pode significar que elas seriam mais úteis se usassem o tempo que elas passam desejando pelas coisas boas para de fato se engajar em alguma causa humanitária e promover com suas próprias mãos as coisas boas. Me enoja quando as pessoas dizem que o Deus delas é justo e bom para todos quando tem tanta gente morrendo para as drogas, para a fome e para o ódio, tanta gente chorando ao mesmo tempo nos mais diversos lugares e pelos mais diversos motivos; quando tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e elas não têm ciência de nem uma pequena fração disso tudo e, mesmo nessas condições, têm a ousadia de dizer que Deus ajuda todos aqueles que merecem. E, por fim, me enoja a própria idéia de rezar – e essa última coisa quem me fez enxergar foi o escritor Rubem Alves. Como ele diz, qual pode ser o sentido de rezar? O Deus das pessoas não é onisciente? As pessoas rezam pedindo as coisas para quê, então? Ele não está prestando atenção?
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque acho tudo muito conveniente. É fácil viver a vida como bem se entende e depois entrar em uma igreja e pedir perdão pelos pecados, ou cuidar da espiritualidade ao estudar o livro que alguém escreveu, ou dar uns pacotes de arroz a uma comunidade pobre e achar que isso compensa qualquer ato mau. É fácil estar no meio das dificuldades imaginando que tem alguém cuidando de você, é fácil ter alguém todo poderoso a quem recorrer nas horas mais difíceis, é fácil imaginar que depois que nós morremos existe algo bom nos esperando como recompensa por tudo. E não acredito porque em tudo vejo hipocrisias. É fácil condenar o suicídio quando não se perdeu o movimento e a sensibilidade de todos os membros abaixo do pescoço, e quando viver a vida não se limita a olhar pela janela de um hospital. É fácil condenar o aborto quando não se vive a agonia de ter na barriga um filho negro que será neto do homem mais preconceituoso e violento do mundo, que seria capaz de espancar a própria filha até a morte. É fácil dizer que é tudo obra de Deus quando não se é judeu e não se vive na época do Holocausto.
Mas também vejo que é uma tarefa difícil para o ser humano admitir as suas próprias impotências. Reconhecer como verdade aquelas verdades que doem. Que corroem. Não é fácil não acreditar em Deus porque é difícil aceitar que nós estamos todos sozinhos e por nossas contas, que não existe o destino, apenas o acaso, e que quando nós morrermos nada vai acontecer – que o pensamento, que a consciência é química e é biológica e que quando nós morrermos nós simplesmente não seremos capazes de pensar ou perceber. Tudo não será nem preto nem silencioso, será nada. Porque escuridão e silêncio são percepções. Tudo continuará acontecendo como é ao redor dos nossos corpos, mas eles (nós) não reagirão (reagiremos) a nada do que acontecerá. É simples assim. Mas é impossível de se imaginar. E é nesses espaços que as pessoas colocam Deus – para explicar o que é inexplicável -, só que eu prefiro deixar as coisas assim, simplesmente incógnitas. Além da compreensão humana. As coisas que a ciência não consegue explicar não são Deus – são o desconhecido. Muita gente faz essa confusão. E muitas delas ainda não foram explicadas e nem serão porque são simplesmente incompreensíveis. E eu acho mais fácil encarar as coisas como incompreensíveis do que atribuí-las a Deus, porque para mim isso é hipocrisia. É não aceitar que o ser humano não é capaz de compreender todas as coisas. E também é vicioso – porque se aceitamos que é Deus e paramos aí, perdemos a motivação de dar um passo à frente e continuar a tentar entender.
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque as religiões prometem tanta coisa que é difícil não enxergar que é tudo uma farsa. Algumas coisas que ouço pregarem são ofensas à inteligência. Estou falando dos dogmas. E estou falando dos espíritas que dizem que quando morremos após uma vida correta vamos morar em uma colônia onde tudo é perfeito e harmonioso, onde nos preocupamos somente com as nossas saúdes espirituais, e que se nos matamos vamos, ao invés disso, passar anos e anos em um lugar escuro e cheio de sofrimento, ao mesmo tempo que dizem que o seu Deus é misericordioso, a personificação do perdão e do amor. Falo dos muçulmanos que crêem que ao se matarem em nome de Alá numa guerra considerada santa vão para um paraíso repleto de mulheres virgens que os compensarão por seus sacrifícios. Falo dos católicos que dizem que existe Deus e o diabo, e que existem anjos e que existem demônios, e que existe o céu e que há o inferno, e que há atos que definem quem está destinado ao quê, enquanto eles mesmos fizeram coisas no passado – bem sabemos – que certamente garantiriam aos próprios pregadores e aos próprios fiéis um lugar no inferno em que acreditam: queimaram pessoas em praça pública, enforcaram ou silenciaram os donos das mentes mais brilhantes, discriminaram os negros. Discriminam os homossexuais. E eu sei que essas coisas que eu citei agora são muito mais minuciosas do que isso – que os espíritas dizem, por exemplo, que Deus é misericordioso mas todos nós precisamos crescer espiritualmente, e que o suicida é alguém que não o fez e que precisa passar pelo umbrau para evoluir o que não conseguiu em vida, mas eu não quero entrar nessas questões. Até porque esse questionamento tem que partir do leitor – apenas as conclusões que surgirem de suas próprias reflexões poderão ser honestamente adotadas como válidas.
O que eu quero dizer é que eu não acredito porque acho tudo muito bobo. E depois de certo ponto fica tudo tão óbvio. Quem é ateu o é porque percebe a conveniência que ronda Deus e as religiões – quem é ateu percebe que não é só uma coincidência que justamente as coisas que as sociedades normalmente discriminam em determinado tempo (a ciência no Renascentismo e o homossexualismo até os dias atuais, por exemplo) sejam aquelas que recebam as censuras mais duras e sejam ditas motivos válidos para as punições mais temíveis. É por isso que existem tantas religiões quanto existem códigos morais. Porque cada religião atende aos pensamentos de uma determinada sociedade. A religião é, afinal de contas, um instrumento. E um de muitas utilidades: um instrumento que a sociedade usa para fazer valer as suas regras morais, e para justificar a repressão de quem não segue essas regras; um instrumento de que algumas pessoas más se utilizam para explorar as outras, conseguir dinheiro, crédito e satisfação; um instrumento de que as pessoas se utilizam como desculpa para se aproximar das outras e não se sentirem sozinhas; um instrumento que as pessoas utilizam para aliviar suas dores e calar suas dúvidas; um instrumento que as pessoas dão a outras para comandá-las.
Eu não acredito em Deus, mas não é como se eu não tivesse princípios, como se eu negasse a existência dele só porque quero, porque tenho birra ou algo parecido – só por eu não gostar dessa e daquela religiões. Eu nego porque eu acredito em outras coisas. Coisas que não têm nomes ou rótulos. Eu acredito no que eu penso e no que eu sinto, e as minhas teorias podem não ser as mais acertadas, mas eu me orgulho muito de poder dizer que elas são minhas, que ninguém as colocou na minha cabeça por mim. Tenho orgulho de que eu tenha me tornado capaz de investigar o mundo que me cerca do meu próprio jeito, sem deixar que o lugar comum (ou o olhar de desaprovação das pessoas) interfira nas minhas crenças. Porque eu acredito que eu estou certo (todos nós sempre acreditamos que nós estamos certos, não é mesmo?) e que as minhas razões são todas válidas. É por isso que eu digo essas coisas com a mesma naturalidade com que as outras pessoas dizem acreditar. Portanto eu gostaria que vocês aceitassem o fato de que é assim que eu penso, e vissem que há uma razão para eu pensar assim, e gostaria de dizer que a posição que vocês tomam, as coisas em que vocês crêem e as coisas que vocês dizem não me convencem e nem me fazem sentir culpado, burro, perdido nem qualquer uma das outras coisas que vocês tentam dizer com esses olhares de repúdio que me dirigem quando descobrem que eu não sou exatamente do jeito que vocês assumiam que eu fosse.
E pela última vez sim, eu não acredito em Deus, e como eu poderia? Não acredito porque ele é uma invenção humana. Nada mais.
Adendo: aos proficientes na língua inglesa, recomendo a leitura desta matéria (seus comentários, na verdade).
Ler maisNeste pequeno quarto
Absurdo que um quarto assim tão grande possa parecer tão opressivo e claustrofóbico dessa maneira. Inacreditável que possa haver tantos significados em tal profundo silêncio, em tal ausência de palavras (ditas ou pensadas). Tanta densidade em tão pouca matéria. Os sentimentos se tornam coisas concretas, quase pensantes em si, flutuam por conta própria, e eu me torno um pára-raio, ou quem sabe eu só seja humano. Eu sinto que termino em cada aresta que te define mas ainda assim não me conjugo, e acho que nos fizemos grandiosos demais por uma causa demasiado fútil, bem menos extraordinária do que pensáramos. Talvez até mesmo mundana. Nós colidimos e, de tão opostos, fizemos cair uma tempestade. Essa tensão toda é apenas parte do vendaval.
Se pudéssemos apenas voltar ao que éramos antes, quando os nossos egos não estavam assim inflamados dessa doença de pós-amor, talvez pudéssemos consertar o tamanho desse quarto, e caberíamos os dois no mesmo mundo como se fôssemos sol e pássaro, calmaria. Quem sabe se nós nos abraçássemos, preencheríamos esse lugar de sons, e então o silêncio daria lugar não a uma perturbação, mas ao equilíbrio. Seríamos duas pessoas num quarto se amando, e nada mais que isso. Sol e pássaro. Ordinários como o dia que vem após outro, e descomplicados.
Ler maisCadáveres
Se quer um conselho, não leia o que vem depois do segundo ponto final. Se há algo útil nesse post, é que ele serve para mostrar que sim, eu continuo vivo.
O avião caiu e eu fiquei pensando em destino. Cheguei à conclusão de que a única coisa a que estamos todos destinados mesmo é a sermos um cadáver. Surgimos da pureza de um suposto milagre (o da vida, assim dizem) apenas para terminarmos na insignificância dessa palavra ominosa, volta e meia inspiradora de arrepios, caminhando eternamente pela inexistência tendo o completo esquecimento como apenas o primeiro estágio filosófico. Na verdade nem é essa a palavra mais adequada, cadáver. Quer dizer, acho que todo o campo lexical está incorreto. Estamos todos na verdade predispostos a essa condição final, assim supostos pelas observações empíricas que apontam para o fato de que todo ser humano (ou, numa análise mais geral, tudo que vive) eventualmente morre. Temos uma natureza tão incerta que falar do desaparecimento de cada um de nós, como indivíduos, é tão complicado como falar dos nossos surgimentos. Afinal, em que momento estaria, precisamente, aquele em que passamos a existir? Alguns diriam que passamos a existir quando saímos à luz do mundo (ou à artificialidade da luz de uma sala de cirurgia), e há outros que dirão que existimos assim que somos promovidos a feto, oito semanas após o coito. Há ainda outra linha de pensamento que defende que, naquele exato momento em que ocorre a união de um óvulo e um espermatozóide, já existimos; que surgimos da formação do embrião, e não do suspiro de agonia. Mas sejamos mais criativos. E se na verdade existimos mesmo antes disso, só que em duas existências distintas no espaço e perdidas nas probabilidades – uma nos vinte e três cromossomos de um entre os bilhões de espermatozóides dos nossos pais, uma nos vinte e três cromossomos de uma das dezenas de óvulos das nossas mães? Poderia ser essa a unidade mínima da existência? Não seria possível que cada uma dessas existências estivesse antes dividida em outras duas, ou quem sabe quatro, no tempo indivisível e no espaço (de certa forma) infinitesimal das células? E essas pequenas existências brotando de outras oito, ou quem sabe dezesseis existências engolfadas pelo tempo que, de tão dividido, nem é tempo, e num espaço em que cada átomo em seu formato e posição desempenha a mais crucial das importâncias? E, ainda antes disso, dezesseis ou trinta e duas existências originais confinadas em ainda uma outra unidade, infinitas vezes menor do que essa unidade que supostamente conhecemos, contendo, cada uma delas, outros milhares de existências, ou quem sabe universos inteiros repletos de existências? Quantas são, exatamente, as variáveis que nos definem? Quantas elas precisariam ser, matematicamente, para que nos milhares de anos em que o ser humano existe, não tenha havido nunca um indivíduo exatamente igual ao outro? E, se passar a existir é isso mesmo, o que seria exatamente morrer? O inverso? A princípio faz sentido, pois, após culminarem-se tantas existências distintas numa só, passamos anos e anos como uma só existência, aparentemente muito finita e definida. E em certo ponto definhamos, é claro, viramos uma existência puída, cada vez mais vaporosa, para depois enfim passarmos ao curioso estado (será que posso dizer assim, “estado”?) da inexistência e voltarmos à questão do cadáver. Dizem que os nossos cadáveres tecnicamente evaporam (só que, como são mais complexos que a água, são ditos como objetos de um processo mais complicado e detentor de um nome mais pomposo) e/ou são consumidos por outras existências, umas que vivem debaixo da terra, aonde geralmente vamos parar depois de uma vida cheia de glórias ou cheia de desonras, pouco importa, e aquilo que nos tornara uma vez unos (o corpo e todo o seu volume atômico) vai se repartindo entre milhões de indivíduos microscópicos que eventualmente morrerão e serão absorvidos por coisas ainda menos visíveis ou mesmo diferenciáveis. Então chegamos a algo parecido com o statu quo ante, ao início de algo novo e provavelmente diferente. Voltamos (ou será que devo dizer “volta-se”? Quem sabe “procede-se”?) às milhões de quase-existências que um dia se juntarão para formar uma nova (repito, uma), que então morrerá (ou, mais objetivamente, se redividirá) e então repetirá o processo apenas para se tornar um cadáver outra vez.
(Eu avisei e não foi à toa.)
Ler maisAnoitece
Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a textura da noite ali como se fosse a primeira vez que a provasse. Podia-se ficar realmente vazio ali, não se podia? E não é senão o espaço desprovido de luz, o aparente vazio, aquele que costuma ser o palco mais propício ao teatro da mente? Não era de se espantar, afinal de contas, que quando menino ele ficasse à janela procurando por sinais de vaga-lumes. E não é como se ele se lembrasse, mas é que ele ainda hoje ouvia, de vez em quando, que tinha sido uma criança imaginativa. E isso o levava a pensar que quando os insetos luminosos dançavam diante de seus olhinhos inocentes em piruetas irregulares, era provável que, análogo ao modo com que nisso remexiam o ar como fazendo cócegas em sua onipresença, também afastassem, com suas pequenas centelhas, quaisquer figuras e personagens que pudessem porventura vagar em algum lugar no interstício de suas retinas e o fundo de sua cabeça, onde a dança é de vultos repletos de significados abstratos e nunca únicos. E muitas vezes terríveis, também.
De repente se viu debruçado na janela, o único lugar daquela velha casa que ainda aparecia com clareza em suas lembranças. Agora mirava o jardim lá fora, quase que todo afogado na escuridão, não fosse por um retângulo amarelado da luz que escapava da janela da sala de estar lá embaixo. Já não havia mais vaga-lumes para se ver ou se contar, era verdade. Para onde será que eles tinham se mudado, hein? E então, quando levantou os olhos, espantou-se com o céu como se fosse a primeira vez que o visse. E, enganado por sua memória que tinha um gosto por esquecer-se de imagens vistas há tempo demais, ele inocentemente acreditou que talvez fosse a primeira vez mesmo. Era tão diferente. A infindável abóboda lá no alto, ele viu, era uma explosão de cores, o que fez com que ele se questionasse se não tivera sempre aquela certeza de que estrelas sempre tinham sido brancas. Bem, se antes tivessem sido, agora claramente não eram mais. Via luzes vermelhas e azuis cintilando em seus pequenos pontos do céu, e essas eram apenas alguns exemplos.
Baixou os olhos para a linha do horizonte, mas não viu linha alguma. Os morros que guarneciam o prado tinham sumido no escuro, tendo se misturado com o próprio céu. Até as árvores do bosque ali próximo à sede ficavam debaixo do frágil espectro azulado que os reflexos do sol na lua minguante produziam. Ficavam ambíguas. As nuances o fizeram pensar no espaço daquele pequeno rasgo de tempo como uma substância vaporosa que pairava na existência sem um formato definido ou mesmo uma cor muito certa. E então, quando ele olhou mais uma vez, tudo se transformou em céu. Precisamente aí, sentiu-se leve, tão leve, que foi como se tivesse flutuado até a cama, de onde tirou lindos e silenciosos sonhos sobre cometas viajando devagar, talvez no ritmo de sua própria respiração, num espaço sideral tingido de vermelho, alaranjado, branco e azul.
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