Pergunta
Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.
Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.
- Filhote?
E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:
- Oi.
- Em que você tanto pensa?
Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.
- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.
- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.
- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?
E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.
A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.
Deixou-se voar.
Ler maisVaga-lumes
Tudo era perturbadoramente dourado. Eu tentava fumar o meu cigarro sem me sentir estranho, mesmo sujo; um pária da natureza, do vento doce de baunilha e dos murmúrios do riacho. O pôr-do-sol me irritava, como sempre fez. A magia do ocaso é uma que eu nunca conheci. E todos na fazenda sempre o veneravam tanto! Para mim vem com ele o anúncio da noite, e só. Quando chegava a noite, a gente tinha que voltar pra sede. Eu ficava atrás da janela do meu quarto, o do sótão – tanto eu lutara por ele -, vendo vaga-lumes e ouvindo o som abafado do canto dos sapos não passando através do vidro grosso. A Rita vivia me gritando, lá de baixo, pra ir tomar a sopa, e eu continuava contando meus vaga-lumes. Era o meu jeito de pegar no sono. Eu quase sempre dormia ali, no peitoril da janela mesmo, e acordava enrolado na colcha e afundado na minha cama, o vento frio da manhã campestre dançando janela adentro e me fazendo lembrar vagamente da Rita me pegando no colo e brigando docemente comigo, me acusando de odiar a sua sopa, antes de fechar os olhos e retornar ao meu sonho. Eu sempre sonhava com a cidade – com prédios altos pelos quais eu ia pulando – e as mais variadas versões de elevadores. Às vezes eles eram toras de madeira puxadas por macacos em cipós e às vezes eram caixotes de madeira pendurados em polias, mas estavam sempre deslocados no cinza do concreto de uma cidade que ficava em eterna construção. Olhei para o riacho e fiquei meio cego – os raios de sol se refletiram nele e atingiram em cheio os meus olhos. Girei nos calcanhares e puxei um último trago. Fiz dele longo e apaixonado, e depois soltei o cigarro para pisá-lo com o tênis. Depois fiquei sentado sob o velho ipê amarelo, me fingindo de adolescente outra vez. Tentei me lembrar das coisas que eu pensava quando terminava outro cigarro às escondidas e fingia para mim mesmo que o tempo todo que eu estivera ali fora gasto observando a rebeldia da clareira. Quando a rebeldia era apenas minha. Ri, amargo, ouvi minha risada sair meio rouca e pigarreei. Recostei a cabeça no tronco e fiquei ali até que aquela luminosidade febril de fim de tarde perdesse o lugar para o azul espectral da noite de lua cheia. Fiquei esperando um vaga-lume aparecer, mas não vi nenhum. Os bons tempos não voltam. Levantei e me espreguicei, e então fui voltando pela trilha que já não existia. O mato tinha crescido de novo, verde, verde, e apagara o caminho que dantes os meus pés haviam afundado, nas caminhadas de ida e de volta, de e para aquele lugar secreto e silencioso. A relva descia pelas pedras, cobria o negro do húmus, avançava pelos troncos das mangueiras e isolava o meu antigo templo, tornando-o da natureza mais uma vez. Restituindo aquele refúgio ao seu verdadeiro guardião, o esquecimento. Eu ainda podia contemplá-lo quando visitava a fazenda, mas eu nunca mais poderia me esconder nele ou chamá-lo de meu. Aquela não era mais a minha vida, era isso que o musgo e o mato me diziam, crescendo rebeldes por todo canto. E eu caminhava por cima deles, sem precisar de rastros para achar meu caminho de volta para a sede – este era eu mesmo me dizendo que aquela vida já não pertencia mais a mim. Me curvei para pegar uma folha de hortelã, mas aí me lembrei que não escondia mais que fumava. Ri, ouvindo a minha voz sair mais limpa, e então segui adiante.
Ler maisO caderninho
A coisa estranha dele era que ele sempre trazia consigo um caderninho e um lápis número 2. Isto é, desde os seus sete anos de idade, quando apanhou até desmaiar por ter colocado uma vela próxima de uma cortina. Mas nem eram ainda esses seus dois inseparáveis companheiros os responsáveis pela estranheza que o tornou digno de nota. É que ele só os usava em uma ocasião: sempre que ouvia uma sentença que vinha antes de algo como “jamais se esqueça disso”, ele a anotava ali. E mantinha e seguia essas suas anotações como se fossem bem uma bíblia, mas eu penso nelas mais como um manual. Todos os seus pensamentos e todas as suas atitudes, emoções e palavras vinham de seu coração, é claro, mas era tudo filtrado e remodelado por e segundo as lembranças perpetuadas naquele caderninho. Nada saía sem antes passar pelo seu crivo, que, sustentado na precisão e impassibilidade das coisas que são escritas, tornara-se indiscutível.
Foi assim que ele nunca se apaixonou, xingou, nem abriu a porta para estranhos, para citar alguns de seus feitos. Nunca se esqueceu do amor do pai e da mãe ou da constante vigília de Deus, e o único dia que passou sem escovar os dentes foi quando foi acampar com uns amigos aos dezoito anos. Mas aí escreveu que jamais deveria se esquecer da escova de dentes ao lado da anotação que o instruía a nunca deixar de escovar os dentes e isso não aconteceu outra vez. E também foi assim que ele entrou em depressão e morreu quando perdeu o caderninho, e só o lápis número 2 sobrou. Sem as suas instruções de como viver, o pobre rapaz se matou. Jamais alguém o advertira para nunca se esquecer do caderninho, de modo que eu tenho que dizer que, portanto, ele um dia fatalmente o esqueceu. E nunca haviam dito nada porque achavam aquilo simplesmente estranho demais.
Ler maisDo outro lado do muro
Ele se sentava em seu fiel banco de três pernas e, do outro lado do muro, um cão gritava. Seus latidos e uivos se arrastavam pela noite como uma súplica, dizendo mil por favores, estava claro, e depois subitamente morriam no ar quente, como cortados por uma faca bem amolada. Nesses momentos o cão apenas choramingava baixinho, aguardando uma resposta chegar de uma das janelas que provavelmente contemplava, esperançoso. Era então que o barulho da cerca elétrica se sobressaía, tão impassível quanto os vizinhos. Tac-tac. Tac-tac. Tac-tac. Ela nunca mudava o seu discurso, só estalava de um jeito ao mesmo tempo lânguido e frenético. O barulho que os grilos faziam em algum lugar – incrível como os grilos são onipresentes, ele pensou – saltava do plano de fundo para o frontal. Não era uma sinfonia de cricris, mas um assovio constante e difuso que poderia passar despercebido com a menor das distrações. Daquela vez o cão tinha parado por um instante mais longo, e ele pôde ouvir um carro atravessar a madrugada da avenida lá longe. Zump.
Tragou lentamente o cigarro e calculou que os vizinhos provavelmente estavam em seus respectivos quartos e camas, dormindo seus agradáveis sonos completamente aversos aos pedidos. Afinal não estava de dia, e também não era natal. E se estava equivocado quanto a isso, só podia estar em um sentido: no lugar de dormindo, estariam ainda remexendo os lençóis, insones, e se afundando cada vez mais abaixo de seus travesseiros, tentando se desligar das reclamações do Rex. Ou do Totó, que fosse.
Rex ou Totó, o provavelmente pequeno animal não desistia. Continuava pedindo que o deixassem entrar em casa, dizendo que não tinha feito nada errado, e que estaria tudo bem se pelo menos alguém viesse brincar com ele para ajudá-lo a vencer aquela noite tão incrivelmente monótona. E tão incrivelmente quente, o rapaz pensava, avaliando que não demoraria muito mais para terminar o cigarro. Então, do outro lado do muro, o melhor amigo das pessoas da outra casa parou de latir e voltou a choramingar, mas agora em grunhidos mais baixos e guturais, afetados de resignação. O homem não soube por que e nem como, mas percebeu o cão se deitando junto ao muro e abaixando as orelhas, lá do outro lado, e sentiu que ele não choramingava mais as suas propostas, mas que estava agora apenas se lamentando. Constatou, um pouco envergonhado, que estava encurvado para a frente no banco em posição de préstimo, aquela posição que a gente assume quando vê um alguém desmaiando bem na nossa frente e se impele naturalmente, quase em um reflexo, a ajudá-lo.
Era uma bênção, ele pensava, que os cães não falassem a língua dos homens. Se tivessem meios de dizer aos seus donos tudo o que sentiam, se entendessem as palavras duras que eles lhes diziam em seus momentos ruins, e se soubessem que aquele silêncio que vinha das janelas era indiferença, então o homem e o cão não teriam nunca sido melhores amigos. Ainda que o fossem, essa amizade só duraria até que o sol se pusesse e o homem tivesse que dormir o seu sono tão justo e o cachorro tivesse que ficar do lado de fora, gritando de um jeito tão irritante e infantil…
Mas aí o cão recomeçou a latir e ele perdeu a linha do pensamento. Também decidiu que não pensaria mais. Filosófico demais para um domingo, porra, ele pensou, e jogou o toco do cigarro no chão. Não o apagou, afinal estava descalço.
- Que bobagem – ele disse, levantando-se do banco de três pernas e jogando no ar a última baforada de fumaça. Tentou fazê-la um círculo, mas não conseguiu. Ainda precisava treinar muito mais, era verdade. Deteve-se por alguns instantes de frente para o muro, esperando que o animal entendesse que seus esforços eram vãos e que ele faria melhor em simplesmente parar de pedir. Mas o cão não entendeu, e ele foi andando até a porta da varanda de mau humor. Coçou a cabeça, preocupado. Agora era ele quem precisava dormir, e o cachorro precisava parar de latir. Abriu a porta e depois ela se fechou atrás dele. Clique. Foi trancada. A varanda ficou sozinha, relegada ao som da eletricidade da cerca, do estridular dos grilos e dos gritos do cão.
Ler maisNoir – primeira percepção
Espere. Só por mais um instante, porque desta vez a causa é válida. O vento acabou de mudar de direção — agora vem da orla —, posso sentir o cheiro do mar e tenho a impressão de que o ouço, também. E se eu cerrar bem os olhos, assim, quase enxergo as ondas escuras quebrando na praia, avançando em brumas silenciosas e serpeando de volta à penumbra, levando consigo um pouco mais da encosta. Não, não há dúvida: posso realmente sentir o som espumante. Então estendo os meus braços bem abertos, assim como descerro as minhas pálpebras. Reverencio, uma última vez e com uma breve e comedida mesura, a cidade que se amontoa dentro dos limites da minha visão como um daqueles filmes antigos de que ele tanto gostava: muda e sem cores. Como ele, também; ele e seus sorrisos monocromáticos. Sinto a brisa úmida e cálida tocar-me a pele, acariciar-me os cabelos, preencher-me os ouvidos com um uivo baixo e nada mais. Este silêncio! É tudo que eu sempre busquei; nunca imaginei que o encontraria aqui, e assim tarde. Uma pena. Isso também tem suficientes méritos para que eu me demore mais alguns momentos, só para lhe dedicar alguns destes meus pensamentos finais. Inspiro a tranqüilidade, sentindo-me amortecer. Inclino-me à frente e observo a rua do prédio: há dois carros negros estacionados — deve haver mais embaixo dessas árvores todas —, e um casal está atravessando a rua agora. Ele a segura pela cintura e parece dizer algo em seu ouvido. Minha mente de menina se põe a divagar o que seria. Uma jura, quem sabe? Espere, a direção do vento mudou mais uma vez. Agora ele traz sons distantes de buzinas e o cheiro acre de fumaça. Mais do mesmo, do velho caos; não preciso disso nem por outro minuto. Olho a ruela de novo: o casal já passou, ou talvez apenas se esconda sob a sombra mais densa de alguma das árvores. Olho para trás uma última vez e vejo que não há ninguém, é claro. Abro ainda mais os braços e salto para as buzinas. Tento inspirar a tranqüilidade.
Não sinto cheiro algum.
Ler maisCaminhos
De muito chorar, os seus olhos ardiam-lhe. Agora já estava calmo, mas enxergava turva a nesga do céu negro e sem estrelas que os fios metálicos da grade da janela lhe permitiam ver. Sentia um forte cheiro de camomila invadindo seu quarto e era quase como se, ao mesmo tempo que estivesse sentado em sua cama, também estivesse na cozinha, o cômodo ao lado. Podia ver a cena: sua mãe, ao fogão, preparando o chá e tentando conter as lágrimas, e seu pai às costas dela, debruçado sobre a bancada com o rosto afundado nas mãos, ainda murmurando, com a respiração pesada, palavras mistas de arrependimento e desgosto.
O abatimento dela, a cólera dele, tudo pesava sobre seus ombros com o peso do mundo. Palavras e imagens sucediam-se em um turbilhão por trás dos seus olhos vazios e opacos. Como se houvesse parado para deleitar-se da soturnidade que se abatia sobre aquela casa, o tempo passava devagar — os segundos pareciam demorar-se minutos inteiros antes de terminarem suas contagens. Ouviu um som de passos vindo do outro lado da parede e no mesmo instante enxergou a sua mãe entornando, com resignação, o chá na xícara ante o seu pai, e ele lançando-lhe um olhar reprovador, deixando bem claro de quem era a culpa.
No quarto, Fernando colocou-se em pé. Respirou profundamente e foi tomado por uma calma que não era sua, e um momento de clareza elucidou-lhe o que faria em seguida. Ficou surpreso consigo mesmo ao perceber que tinha clara agora a decisão que vinha avultando-se aos poucos em sua mente. Havia saída, sim, uma única e óbvia: fugir. Fugir e esquecer, ao menos por enquanto, ele pensou. E depois passou a agir quase inconscientemente.
Caminhava rapidamente, mas sua mente divagava em outro ritmo, e por um mundo de todo adverso àquele que pisava. A cidade dormitava — era só o silêncio da ausência dos passantes e as luzes amareladas dos postes intermitentes. E ele, por outro lado, era de todo caos. Não era intrigante o modo com que os papéis se invertiam de uma para outra hora?…
Quando se deu conta, estava na calçada de alguma rua que não pôde identificar e havia uma corrente de ar quente soprando em sua face. Parou. Na memória, apenas uma vaga lembrança de ter passado pela sala de estar do apartamento, e ter-se visto dentro do elevador pouco antes de passar pela cabina do porteiro — a sensação de que o homem o observava por trás do vidro fumê ainda era bastante viva. Voltou-se, por uma vez, ao exterior, e achou-se frente à escadaria do metrô, donde escapava o ar quente que o envolvia.
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