Coisas do outro

Texto velho perdido em um dos blogs meus que nunca frutificaram. Nunca assumi a autoria desse texto, posto que ele está entre aqueles que menos são meus. Primeiro porque soa como máxima de aspirante a autor de livros de auto-ajuda — um tipo que eu detesto —, e depois porque é otimista demais, e este simplesmente não sou eu. Áspero, mas verdadeiro. De todo jeito, já faz algum tempo que este blog não vê atualizações, e, quando procurei por algo reciclável para colocar nisso aqui, eis que tombei com isso. Voici, porque voilà todo mundo conhece:

Cosas de la vida

engraçado como tudo, ou quase tudo, pode mudar num átimo. num sol você está miserável de espírito, carente de algum júbilo ou de qualquer outro tipo de motriz para a sua vida, no poente você está cansado, enfadado e desgostoso de tudo; no outro sol lá está você, tão fulgurante quanto o próprio, irradiando chistes, vendo uma manhã qualquer transmutar-se num eterno alvorecer, percebendo uma energia fluindo à toda volta, como quando você percebe uma mensagem subliminar encravada numa imagem, tão óbvia mas tão oculta!…

talvez o júbilo de fato não seja perene, confinado dentro de nosso envólucro mortal, mas, fora dele, trilha também o nosso caminho, sempre à espreita, sempre à espera, e hora ou outra embatemo-nos com ele, como sempre fazemos quanto distraídos. por vezes não sentimos o impacto, tamanha a insensibilidade talhada pelo desgosto, e continuamos andando, olhando para baixo e chutando aquela mesma pedra por toda a sinuosa e irregular estrada. no resto das vezes caímos para trás e sentimos a passageira dor do impacto – e aí, depois que nos levantamos e sacudimos o pó, o caminho fica bem menos maçante e muito mais curto. ou muito mais longo, dependendo da sua perspectiva.

encontre, pois, uma força motriz, e liberte-se de todo peso órfão de préstimos. o que não é bom para você agora, nunca o será. não se permita ficar para trás. siga em frente, como segue o mundo também. faça de seus dias imarcescíveis auroras.

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Pelas personagens abortadas, parte II: o parágrafo suprimido

(Segue o parágrafo que não tive coragem de postar, mas que me perturbou o dia inteiro e que agora aqui está).

E assim cheguei à conclusão de que sou um dos autores ruins. [repare como eu já começo me refugiando] Acho que ainda não estou maduro o suficiente, ou suficientemente liberto, para exteriorizar todas as minhas personagens, porque tenho medo de que algumas delas realmente sejam eu mesmo, em meus extremos. [olhe só o que eu acabei de te dizer subliminarmente: nenhuma dessas personagens dos textos que publiquei aqui até agora são meus reflexos] Acho que vou guardá-las até que chegue um momento em que eu não me identifique com nenhuma delas, e portanto não me sinta constrangido ou exposto demais traduzindo o que elas sentem, e nisso acabar traduzindo os meus próprios extremos. É óbvio que, se esses extremos não se tornaram realidade, é porque achei melhor que eles continuassem não existindo. [quando eu escrevo isso, eu estou mentindo não só para você, leitor, mas também para mim mesmo: na verdade, eu estou começando a achar que escrever essas personagens foi o modo que encontrei de exteriorizar as minhas angústias e me livrar delas, e tenho medo de que alguém ache que todo e cada um dos sentimentos delas possam ter vindo de mim. Isso realmente não é verdade. O que há da minha essência nessas personagens é, geralmente, só a fagulha que faz com que elas surjam. O resto vai saindo sem que eu perceba — eu gosto de pensar que eu capto as personagens de uma dessas possibilidades que invento na minha cabeça e, depois disso, vou tentando percebê-las enquanto coisas recém-criadas e pensantes. Basicamente, as personagens se concretizam e se transformam em pessoas reais e complicadas que eu tenho que interpretar.] {Você não acha que seria possível que eu faço as coisas fazerem pouco sentido só para fazer com que poucas das pessoas que lêem realmente entendam o que eu quero dizer?}

(Segue o parágrafo que não estava planejado para entrar nesse texto até poucos segundos atrás).

Acho que estou ficando louco.

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Pelas personagens abortadas

Hoje estava pensando e cheguei à conclusão de que as melhores personagens já vistas só vieram dos melhores autores porque apenas eles têm a coragem de encarná-las. Os demais — e estes são os autores ruins — têm vergonha de materializar as personagens que imaginam, porque sabem que elas são, essencialmente, as possibilidades que eles em algum ponto imaginaram para eles mesmos, em suas situações reais, e têm medo de que as pessoas saibam que aquilo que as suas personagens fazem são tudo aquilo que eles poderiam ter feito mas, por medo, não fizeram. O bom autor está liberto disso, porque se ele não colocá-las no papel então não terá uma história, e por conseqüência não será um autor. E os bons autores querem continuar o sendo.

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Reflito-me.

Eis que estive respirando esses últimos dias, e tendo tempo para pensar a vida, como era o costume. As interferências dos pensamentos colegiais vêm ficando menos fortes, e me deixando voltar o foco para as coisas alheias ao vestibular. E , invariavelmente, ele tem se voltado não para o mundo além do planeta dos vestibulandos, mas para dentro de mim. Estou percebendo um padrão: assim como as escolas literárias, sob influência de seus momentos históricos, alternam entre visões e interpretações paradoxais, também eu, sob influência do contexto que me engloba, mudo de olhares.

Por estar alienado do mundo, talvez eu esteja saindo dessa inatividade latente com algum exagero, e porventura esteja dramatizando demais, mas a impressão que eu tenho é a de que estar em um tempo em que o único objetivo é, diga-se de passagem, a dignidade de todo um futuro, faz com que a pessoa se torne egocêntrica, querendo ou não. Seja porque ela enfim toma consciência de que o futuro depende somente dela, seja porque ela percebe a diferença que pode fazer em seu redor. Refleti e descobri que estou girando em torno do meu ego e, investigando além da imagem, percebi que esse ano também estou muito mais subjetivo. Estou enxergando e interpretando o meu cotidiano por uma abordagem totalmente diferente daquela do ano que passou.

Agora há pouco, por exemplo, achava-me eu no ônibus a observar as pessoas próximas. Reparei na cobradora que, mesmo em um horário agitado como aquele, com o ônibus cheio e desconfortável, não deixava de sorrir a quem quer que passasse pela catraca; pedia aos passageiros que, por favor, abrissem caminho para a moça chegar à porta e descer, porque era aquele o ponto dela; preocupava-se com a menina que, em pé, conversava com a mãe sentada com sua irmãzinha no colo, e ofereceu à garota um espaço em seu próprio banco para que não ficasse levantada. Sentado ao lado dessa mulher, um senhor de idade já bem avançada — o mesmo que se oferecera para segurar os livros de uma outra estudante que estava em pé — contemplava o bebê e sorria-lhe acanhadamente. E, juro-lhe, seus olhos brilhavam e diziam com clareza o que com toda certeza havia por trás deles: algo como uma tímida esperança. Enquanto eu observava, imaginava como poderia transformar aquilo tudo em um conto — não tentava tirar dali um argumento que pudesse sustentar algum texto que falasse sobre a precariedade do sistema de transporte brasileiro, que poderia vir a atualizar o blog. O que resume a grande diferença entre o ano passado e este.

Ao mesmo tempo, no que diz respeito à expressão, involuí. Quando me proponho a escrever, as palavras saem (quando o fazem) com uma dificuldade maior, e por alguma razão agora está mais difícil transformar as idéias no código compreensível a qualquer um. Prefiro acreditar que só estou passando por um bloqueio corriqueiro, coisa que acontece até mesmo nas melhores famílias, e que ele só se deve à minha ociosidade de leitura. É porque disseram-me que eu pareço triste nas linhas que escrevo, e, além disso, o outro dia tambémdisseram que me limito, como já mencionei. Vou voltar a ler e ver se desperto, se me desprendo, se me liberto, antes de começar a me preocupar.

Por falar nisso, estou me libertando de alguns conceitos. Quando penso em atualizar o blog, já não penso em precisar redigir um artigo sobre política ou sociedade, mas estou considerando enchê-lo de todo tipo de coisa que me cruza a cuca. É ou não é uma frenosfera?

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