Fim de tarde
Eles se olham, trocam palavras descuidadas, quase sempre soltas. Ainda que conversem honestamente, trocando novidades e idéias, também sabem muito secretamente que é tudo um prelúdio à causa que realmente os colocou sozinhos aqui. Eles riem, ora alto, ora baixo, e usam esses momentos como escusas. Chegam mais perto. Vão diminuindo o tom. Apreciam o silêncio, e depois o trocam. Por uma razão ou outra se tocam, mas nunca por tempo demais. Enquanto isso, se percebem, se perscrutam, ao mesmo tempo que fingem ser apenas sujeitos, nunca objetos. São reflexivos, mas sutis. Quando não resta mais o que fazer, ficam abraçados, protegem-se do frio ou da falta de alguma coisa qualquer. Alimentam-se de suas companhias. Acham suficiência neste único ato e dispensam todas as palavras. Se fazem duas partes unidas e percebem que o todo não se completa. Então se olham. Se aproximam, e aqui nos deixam, então e enfim, a evidência mais precisa da impossibilidade deste romance, que mutuamente desconhecem: este beijo. Este beijo e estes pensamentos que nenhum deles diz e que jamais acham portas por onde escapar. Enquanto um silenciosamente promete a si que este será o último, o outro fervorosamente pede que aquilo se repita para todo o sempre, e ambos ao mesmo tempo se abraçam e ao mesmo tempo se guiam numa mesma dança, bem conhecida, rodeados por um amor que de tão clandestino quase não é amor. É vício.
Ler maisNeste pequeno quarto
Absurdo que um quarto assim tão grande possa parecer tão opressivo e claustrofóbico dessa maneira. Inacreditável que possa haver tantos significados em tal profundo silêncio, em tal ausência de palavras (ditas ou pensadas). Tanta densidade em tão pouca matéria. Os sentimentos se tornam coisas concretas, quase pensantes em si, flutuam por conta própria, e eu me torno um pára-raio, ou quem sabe eu só seja humano. Eu sinto que termino em cada aresta que te define mas ainda assim não me conjugo, e acho que nos fizemos grandiosos demais por uma causa demasiado fútil, bem menos extraordinária do que pensáramos. Talvez até mesmo mundana. Nós colidimos e, de tão opostos, fizemos cair uma tempestade. Essa tensão toda é apenas parte do vendaval.
Se pudéssemos apenas voltar ao que éramos antes, quando os nossos egos não estavam assim inflamados dessa doença de pós-amor, talvez pudéssemos consertar o tamanho desse quarto, e caberíamos os dois no mesmo mundo como se fôssemos sol e pássaro, calmaria. Quem sabe se nós nos abraçássemos, preencheríamos esse lugar de sons, e então o silêncio daria lugar não a uma perturbação, mas ao equilíbrio. Seríamos duas pessoas num quarto se amando, e nada mais que isso. Sol e pássaro. Ordinários como o dia que vem após outro, e descomplicados.
Ler maisAnoitece
Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a textura da noite ali como se fosse a primeira vez que a provasse. Podia-se ficar realmente vazio ali, não se podia? E não é senão o espaço desprovido de luz, o aparente vazio, aquele que costuma ser o palco mais propício ao teatro da mente? Não era de se espantar, afinal de contas, que quando menino ele ficasse à janela procurando por sinais de vaga-lumes. E não é como se ele se lembrasse, mas é que ele ainda hoje ouvia, de vez em quando, que tinha sido uma criança imaginativa. E isso o levava a pensar que quando os insetos luminosos dançavam diante de seus olhinhos inocentes em piruetas irregulares, era provável que, análogo ao modo com que nisso remexiam o ar como fazendo cócegas em sua onipresença, também afastassem, com suas pequenas centelhas, quaisquer figuras e personagens que pudessem porventura vagar em algum lugar no interstício de suas retinas e o fundo de sua cabeça, onde a dança é de vultos repletos de significados abstratos e nunca únicos. E muitas vezes terríveis, também.
De repente se viu debruçado na janela, o único lugar daquela velha casa que ainda aparecia com clareza em suas lembranças. Agora mirava o jardim lá fora, quase que todo afogado na escuridão, não fosse por um retângulo amarelado da luz que escapava da janela da sala de estar lá embaixo. Já não havia mais vaga-lumes para se ver ou se contar, era verdade. Para onde será que eles tinham se mudado, hein? E então, quando levantou os olhos, espantou-se com o céu como se fosse a primeira vez que o visse. E, enganado por sua memória que tinha um gosto por esquecer-se de imagens vistas há tempo demais, ele inocentemente acreditou que talvez fosse a primeira vez mesmo. Era tão diferente. A infindável abóboda lá no alto, ele viu, era uma explosão de cores, o que fez com que ele se questionasse se não tivera sempre aquela certeza de que estrelas sempre tinham sido brancas. Bem, se antes tivessem sido, agora claramente não eram mais. Via luzes vermelhas e azuis cintilando em seus pequenos pontos do céu, e essas eram apenas alguns exemplos.
Baixou os olhos para a linha do horizonte, mas não viu linha alguma. Os morros que guarneciam o prado tinham sumido no escuro, tendo se misturado com o próprio céu. Até as árvores do bosque ali próximo à sede ficavam debaixo do frágil espectro azulado que os reflexos do sol na lua minguante produziam. Ficavam ambíguas. As nuances o fizeram pensar no espaço daquele pequeno rasgo de tempo como uma substância vaporosa que pairava na existência sem um formato definido ou mesmo uma cor muito certa. E então, quando ele olhou mais uma vez, tudo se transformou em céu. Precisamente aí, sentiu-se leve, tão leve, que foi como se tivesse flutuado até a cama, de onde tirou lindos e silenciosos sonhos sobre cometas viajando devagar, talvez no ritmo de sua própria respiração, num espaço sideral tingido de vermelho, alaranjado, branco e azul.
Ler maisGato de botas
Estava escuro, mas não tão escuro que as pessoas sentadas no bar do outro lado da rua não pudessem enxergá-la. Ela sentiu o carro parar, deixou-se arquear para a frente, depois olhou para o lado. Mas bastou o olhar que (quase não) recebeu de volta para que ela soubesse que despedidas ali seriam dissonantes. Então (quase não) deu um sorriso. Foi uma coisa áspera que escorreu pelo canto da boca e não aliviou em nenhum grau o peso que fazia o rosto todo cair numa expressão fechada, mas legível. Pelo contrário, a entregava. E a luz não ajudava. Porque era bastante. Abriu a porta e deixou o silêncio no ar refrigerado lá dentro. Quando saiu, sentiu uma lufada de subúrbio passar por baixo da saia. O carro partiu e ela sentiu ficar quase nua. Sentiu que todos os olhares (não) encontraram o dela. Espetando, censurando, reprovando. Remexeu o cabelo tingido de loiro como se aquilo pudesse consertar sua postura, ou mesmo restituir algum tipo de certeza que não tivesse máculas. Arrumou a saia. Olhou para um lado. Olhou para o outro. Não vinha outro carro, mas não conseguiu atravessar a rua. Então se limitou a se sentar no meio-fio da calçada cheia de fuligem ali atrás dela, e se enojou por se sentir em casa. Ignorando os olhares inquisidores (cientes), permitiu-se desabar. Chorou lágrimas quentes, tempestuosas, e elas gotejaram da sua face fina (tão cara) para a sarjeta. Escorreram com o seu orgulho para o bueiro mais próximo, onde se perderam para sempre. Mas ela em si permaneceu, à mostra. Na verdade, ali estava só o seu nome. E todo mundo olhava.
Ler maisO perdão
O perdão não é um ato. É um fenômeno, que, por sê-lo, é involuntário, que só se desencadeia a partir daquele que necessita perdoar e que quer dizer tanto liberdade quanto leveza. Você pode dizer ou pensar que perdoa, querer ou tentar perdoar, mas você não terá perdoado enquanto o seu coração não consentir. Eu sempre acreditei nisso. A necessidade do perdão surge de uma falta, uma falta que abre uma ferida. O perdão não tem o poder de fechar a ferida nem nenhum outro poder: ele é só um sinal, uma evidência. O ser humano, por extensão, também não tem esse poder – a ele só cabe a dissimulação e a indiferença. Ele pode, sim, fingir para os outros que não há dor, e, num esforço maior, pode até fingir para ele mesmo que ela não existe – pode ignorá-la, morder o lábio e simplesmente suportá-la sem dizer um ai. Mas, ainda assim, senti-la no nível da alma é-lhe inescapável. Ele não pode obliterá-la por querer. Há um ditado muito acertado que diz que querer não é poder: querer acabar com a dor não tem o poder de exterminá-la. Portanto, o perdão não carrega consigo esse poder restaurador que tanto se fantasia. Todos sabem disso mas não querem aceitar.
Gosto de imaginar a coisa assim: existe entre as pessoas um laço a que chamam de afeto. Esse laço é uma simbiose sensível, o que significa que, pela ação dele, as pessoas se conectam emocionalmente, ficando assim sincronizados os seus sentimentos. Assim, quando uma pessoa “a” falta com respeito, com sinceridade, com compaixão, ou com qualquer outro sentimento que se espera numa relação de afeto a uma pessoa “b”, abre nela uma ferida e, como está intimamente ligada a ela, vê abrir em si mesma uma ferida também. Nela, a ferida se chama culpa. Na outra, decepção. É desse evento que surge a necessidade do perdão, como já disse. Enquanto a ferida da outra não se fechar, também não se fechará a sua própria, e sendo assim não importa que se diga e que se ouça “eu te perdôo”, que as coisas não vão se consertar. É preciso ter paciência. O perdão só vem quando não há mais dor. Se é verdade que a sua necessidade surge da dor, a sua consolidação surge do alívio – não é o alívio que surge da consolidação do perdão, mas o contrário. Quando chega o dia em que a falta não faz mais pesar na alma daquele que, com o ato, foi ferido, então o fenômeno do perdão acontece. E, como ele significa – reitero: significa – tanto liberdade quanto leveza, atesta, à decepção, a descontração, e à culpa, finalmente, aquilo que conhecíamos antes como o perdão: a cura.
Ler maisUm buraco
Por não encontrar mais saídas, refugiei-me no impossível — seria difícil demais, o outro caminho. Acovardei-me e me escondi do mundo no mais sórdido e improvável dos seus cantos, aonde, mesmo que alguém porventura sentisse a falta minha e tentasse me encontrar, esse alguém sequer cogitaria ir. Um lugar de onde eu poderia partir não precisando de uma grande coragem, mas de uma covardia ainda maior do que essa que me trouxe até aqui; uma que, eu sabia, não me seria nem um pouco difícil de alcançar. Um lugar capaz de abafar todos os meus soluços, de modo que ninguém poderia saber que eu estaria chorando quando a dor viesse de novo, e um lugar tão escuro que, mesmo depois que não houvesse mais lágrimas, ninguém poderia olhar a minha cara e ver, através da vermelhidão desses meus olhos azuis, a enfermidade da minha alma. Um lugar assim, tão esquecido, que faria com que eu me desligasse até mesmo de mim, e que poderia me anestesiar para eu não ter que sentir que ainda vivo atrás desses olhos azuis que sempre ardem em chamas invisíveis, e não percebê-las também.
Um buraco. Esse lugar em que me escondi era alguma sorte de buraco; um que atendia a todos os meus anseios, e que eu podia cavar ficando de braços cruzados. O fim, que brincava de roda em algum lugar próximo com o tempo e o começo, chegaria mais e mais perto sem que eu precisasse fazer qualquer esforço. Eu podia ouvir a música que eles cantavam — um tamborilar difuso que ia crescendo aos poucos —, e, enquanto eu ouvia, ia tendo a certeza de que a hora da partida vinha chegando: a covardia atava-me os braços atrás das costas. O buraco crescia e eu descia mais fundo, e quem sabe alguém estivesse me procurando. Só que eu tinha me escondido nas arestas do impossível, e ali perto o fim brincava de roda.
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