Palitos

Eu me lembro, eu e um paliteiro nos sentávamos na soleira da porta que dava pra varanda, e enquanto isso minha avó cozinhava algo que cheirava bem – eu costumava ficar à volta dela fazendo qualquer coisa enquanto ela fazia o almoço, por muito tempo foi assim. Então puxei um palito da casa que eu desenhara no piso e, tendo-o na mão, senti uma súbita necessidade de separá-lo em duas metades. Mas como? Pensei, pensei, e fui buscar uma faca na cozinha.

— O que você quer com isso, menino? — minha avó provavelmente perguntou.

— Nada, fufó — eu com toda certeza respondi, e saí da cozinha enquanto ela me receitava cuidado. “Não corre com ela, viu?”

Voltei para a soleira e me sentei ali com meus palitinhos. Tentei serrar um deles com a faca de serra, mas não obtive sucesso – o palitinho era rígido demais. Então corri até o quarto dela e busquei uma tesoura de dentro de sua caixinha de costura, outro costumeiro alvo da minha curiosidade. Coloquei o palitinho entre as duas lâminas e apertei o cabo preto com toda a força que eu tinha, mas aquilo também não adiantou. Então, derrotado, voltei à cozinha com a faca e o palito.

— Fufó — eu chamei —, como é que eu faço pra cortar esse palito em dois?

Ela limpou a mão na toalha e pegou a faca e o palito, eu me lembro bem. Por um momento eu achei que ela fosse usar a faca e eu fosse ficar com cara de besta, me perguntando por que eu não tinha conseguido e ela sim, mas ela a guardou e depois colocou o palitinho bem na minha frente. Eu fiquei um pouco confuso, mas me limitei a observar e esperar o passe de mágica vir. Então ela colocou os dedões por baixo, fez pressão com os indicadores e o partiu.

— Pronto — ela disse, e me entregou.

Eu estendi a mão mas não percebi que o fazia. Absolutamente perplexo, fiquei pensando como eu podia ter me esquecido das minhas mãos.

— Brigado, fufó.

Fui andando de volta para a soleira e fiquei lá, destruindo as figuras construídas nas duas dimensões do chão e partindo os palitos com as mãos até que o almoço enfim saiu.

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