A peça
P: Você me diria que o mundo hoje vive uma peça de teatro dramática, engraçada, excitante ou desprezível de tão miserável?
R: Não só hoje, mas desde sempre, o mundo tem sido uma peça incrível, mas muito mal produzida. As maquiagens são ruins, é aparente. Os atores raramente sabem seus diálogos, suas marcações de cena ou como contracenar apropriadamente com os demais. Os diretores estão perdidos, não sabem o que fazer com tanta gente ou como usar os cenários da forma mais apropriada. Os assistentes de palco só fazem correr de um lado pro outro, tantas e tão diversas são as ordens que recebem, e os figurantes só ficam parados no meio do caminho, nunca sabendo se devem fingir que estão conversando tranqüilamente ou se na realidade estão no meio de uma cena de ação. A orquestra não consegue se harmonizar, visto que o maestro está constantemente em busca das partituras, e os dançarinos dançam cada um a sua própria dança absurda, rodopiando em torno de seus próprios umbigos. As cortinas fecham e as cortinas abrem sem motivos aparentes. E até aqueles que decidem ser só os espectadores, que pagam, com a própria cara, pra ver, estão todos um tanto robóticos, insensíveis, e um quê catatônicos com tanta coisa que acontece ao mesmo tempo, e alguns até mesmo envergonhados com a bagunça que ofende da pior forma possível a grandeza e a beleza do roteiro (que, aliás, ninguém sabe ao certo onde foi parar). Alguns tentam rezar pela ordem, gerando um crescente burburinho na platéia, e os que estão tentando dormir para fazer passar o tempo reclamam. Outros estão desesperados para subir no palco, estapear os atores e desempenhar seus papéis no lugar deles, mas simplesmente não podem. Os mais ambiciosos querem ser diretores e querem ser escritores, mas não podem competir com a arrogância e a impassibilidade dos atuais. Lá fora, também, há um ensaio de caos. As pessoas que chegaram atrasadas e não puderam entrar compram briga com os desistentes, que vão saindo com olheiras fundas. E há os transeuntes, é claro, os que nunca sequer tiveram a intenção de entrar no teatro. Ou porque acham desnecessário ou porque acham caro demais. Esses andam tranqüilos, sem motivos nem necessidade de motivos. Simplesmente em paz.
Originalmente no meu formspring.
Ler mais(Re)nasci(m)en(t)(o)
Ontem sonhei que morria, e que alguns segundos antes disso essa verdade já me era conhecida. Isso porque morrer era como ser enfiado à força num túnel escuro e então trancado ali dentro, e eu podia ver as portas se abrindo. Depois havia uma luz e também havia algo que me empurrava em sua direção (meus pensamentos ecoavam nas paredes — eu dizia “estou morrendo, estou morrendo”, mas ao mesmo tempo eu compreendia que morrer nada mais é do que passar a outra vida, como numa outra versão do universo.) E, enquanto eu ia chegando mais próximo do fim do túnel, sentia invadir-me toda uma nova consciência (e atravessar-me uma tristeza avassaladora, um instante que continha um mundo de saudade e decepção) que me ensinava que era de um útero que eu estava saindo. E então, enquanto minhas últimas memórias saíam de mim, e com elas misteriosamente as tristezas iam sendo expulsas também, a luz ficou mais forte e foi como se me agredisse. Testemunhá-la doía. Era uma dor que me libertava.
Acordei chorando.
Buá, buá, buá.
Ler maisFutebol e masculinidade
Ontem de madrugada, enquanto me preparava para dormir, decidi ligar a televisão. Diferentemente de todas as outras vezes, decidi não tirar do canal que meu avô estivera assistindo na Sky antes de ir dormir, que era o SporTV2, na esperança de que ele catalizasse o historicamente difícil processo que é aquele em que o sono tenta tomar conta de mim. Para a minha surpresa, o efeito foi contrário: acabei vendo as filmagens que registraram o ônibus do Corínthians (que levava os membros do time ao treino) sendo apedrejado por sujeitos que vestiam a camiseta da torcida organizada do Corínthians e fiquei horrorizado. E o problema é que, por mais que eu gostaria de dizer que fiquei sem entender, eu entendi. Tudo fez um infeliz e deprimente sentido.
É que a derrota do Corínthians para aquele time que até então, em termos práticos, sequer existia, foi especialmente vergonhosa para os seus torcedores. O que o Brasil acompanhou não foi simplesmente um time perdendo, mas toda a honra dos corintianos descendo pelo ralo enquanto os torcedores dos demais times brasileiros faziam piadinhas e eles não sabiam — e nem tinham — como se defender. Os corintianos foram humilhados, e experimentaram um tipo diferente de bullying, apesar de ter o mesmo gosto amargo. E é claro que não gostaram.
Não quero cometer o erro de generalizar, porque realmente não acho que as atitudes desses “torcedores” que apedrejaram o ônibus refletiram a vontade de todos os torcedores do Corínthians, mas acho alarmante que isso sequer tenha acontecido. Esse caso extremo mostra (através de uma senhora lente de aumento) que há algo de extremamente errado nessa história toda. O sentido do torcer foi esquecido ou deturpado.
No Brasil, o futebol é uma expressão da masculinidade — afinal, quem não gosta é veado, certo? Daí segue, naturalmente, que os próprios times são uma representação do masculino; que quando um indivíduo decide apoiar um time de futebol, também deposita nele, sem saber, a sua própria masculinidade. De fato, em campo, não são dois times que se confrontam, mas sim, simbolicamente, dois homens. Dois homens que devem ser masculinos e não deixar, de forma alguma, que o outro marque gols nele. Talvez seja por isso que é tão raro uma mulher gostar de futebol. Essas questões não a atingem. O mesmo se aplica a gays, que têm um conceito diferente do que é a masculinidade.
Quando alguém vestindo a camiseta de um time faz um gol, não é porque o gol tem o poder de sair injetando alegria nos torcedores que todos os que vestem a mesma camiseta comemoram. Não é o gol pelo gol. Nem o gol pelo placar. A felicidade deriva do acontecimento desse breve momento em que os torcedores de um time vêem o outro time (e, por extensão, todos os seus torcedores) serem indiscutivelmente humilhados por terem falhado e sido invadidos pela bola do outro no lugar onde, por definição, não deveriam ser. O grito de “gol” que se ouve nas arquibancadas, nos bares e nas salas de estar não se traduz em “meu time acaba de fazer um gol, olha que orgulho”, mas sim em “seu time acaba de tomar um gol, olha que humilhação”. O prazer não está em ver o próprio time ganhar, mas sim em ver o outro time embaixo ao invés de em cima. A torcida não é pelo time, mas contra o adversário.
O episódio do apedrejamento teve razões idênticas às razões pelas quais os gays sofrem bullying. Quando um homofóbico vê um gay expressando sua orientação sexual, ele escolhe agredi-lo ao invés de ignorá-lo porque se sente ofendido. Ver um homem agindo de um jeito diferente daquele que se espera de um homem — esse ser linear e superficial que se caracteriza simples e unicamente por ser o oposto da mulher — ofende a própria masculinidade. Trata-se de um desvio inadmissível ao que se convencionou (ou talvez seja mais acertado dizer se acostumou) ser a normalidade. Daí a violência: os xingamentos que pronunciam, os socos que desferem, as pedras que jogam, são uma punição. Um alerta de que devem se adequar. Não muito diferente de quando torcedores fanáticos apedrejam o ônibus que leva os jogadores do seu time: fazendo isso, estão se declarando insatisfeitos com a humilhação por que foram obrigados a passar enquanto a masculinidade deles era colocada em dúvida. Através desse ato bruto, grotesco e extremo buscam reafirmar a masculinidade da qual se viram destituídos por um instante, por culpa dos jogadores inadequados e incompetentes num desvio inadmissível.
E acho que é exatamente aí que a instituição do futebol perde o sentido. Essa visceralidade toda não é despertada pelo amor a um time — se fosse, os jogadores teriam sido respeitados e acolhidos; teriam recebido uma segunda chance, e mais apoio da torcida no próximo jogo. Não. A visceralidade é despertada pelo instinto da defesa da própria honra. Afinal, o que há para se amar em um time? Certamente não os jogadores que vestem a sua camisa, porque eles são passageiros, e porque aqueles que não têm um bom desempenho são vítimas de violência por parte dos próprios torcedores. Também não o técnico, porque, assim como os jogadores, técnicos sempre são substituídos. Todo o corpo administrativo associado a um time muda também. Há quem diga que é a história do time que se ama, mas não imagino que os torcedores tenham algum apreço pela tal História, porque, por exemplo, não vi história alguma sendo lembrada enquanto o Ronaldo Fenômeno era insultado — ao mesmo tempo que posso contar nos dedos os jogadores com uma história tão dourada quanto a dele. Pelas minhas contas, sobra só o nome… e o emblema. É isso que os torcedores amam. E só pelo fato de serem diferentes do nome e do emblema de dúzias de outros times. Nada mais de especial eles têm: só são singulares.
Mas, mais do que isso, o time está nos seus próprios torcedores. Não individual, mas coletivamente. Até porque alguns torcedores também transitam entre times. Tudo muda, menos o fato de que sempre há uma torcida por um mesmo nome e um mesmo emblema. De fato, quando um indivíduo escolhe para que time torcer, ele leva em conta apenas quem são as pessoas que torcem pelos times. O moleque não se importa com o número de títulos que o time do pai, do tio ou do avô ganhou, com a qualidade dos jogadores atuais, e nem leva em conta se é ou não provável que eles ganhem o campeonato. Só importa que é o time do pai, do tio ou do avô. Trata-se simplesmente de juntar-se a um grupo de pessoas pelas quais se sente afinidade, não muito diferente do processo por que todos passamos quando somos inseridos em qualquer meio social. Logo achamos aqueles com que nos identificamos e formamos com eles um grupo. Uma vez escolhido o time (uma vez firmado o grupo), a necessidade é de se provar superior ao outro. A necessidade é vestir a camiseta, ir assistir o jogo e torcer para que o time do outro seja derrotado, para que o seu próprio grupo possa triunfar sobre eles. O futebol não importa muito. Fica apenas em segundo plano. É só a desculpa para que possa haver a rivalidade. É só o rolar dos dados sobre a mesa. Nada mais.
Para mim, o torcer jamais foi o que deveria e o que, a primeira vista, parece ser. É por isso que torcidas organizadas jamais foram bem vistas. Seus desígnios são o de insultar, agredir e censurar as outras. Por trás do famigerado amor ao time geralmente está a intolerância e a pura rivalidade. Eu não acho que pode existir qualquer tipo de amor por trás de atos como esses. Acho mesmo que as pessoas deveriam começar a investigar o que significa o torcer delas. Será que elas estão torcendo do jeito certo?
Torcer, v. t. d. (…) 5. desejar a vitória, o bom êxito dos esportistas ou de indivíduo de sua simpatia.
(Minidicionário Soares Amora da língua portuguesa)
Eu não acredito em Deus
Hoje ouvi mais uma vez alguém perguntar aos sussurros se eu não acreditava em Deus. Mais uma vez eu me limitei a ouvir dizerem não em resposta evitando falar muito alto por talvez pensar estar participando de uma heresia. E mais uma vez fiquei sentado, em silêncio, apenas imaginando as coisas que eu diria para fazer aquele olhar de desgosto desaparecer, revisitando o discurso que está quase sempre pronto, mas nunca tem motivos suficientes para ser pronunciado. Só que eu percebi que eu já cansei de fazer isso. Ainda assim não o disse, pois qualquer coisa que eu dissesse seria ignorada tão logo a próxima palavra viesse, mas me levantei e vim escrever o que penso. Assim quem sabe o esforço seja menos vão.
Esta é a resposta a essa pergunta que até hoje eu só vos dei em minha cabeça:
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque tanto mais eu investigo os discursos que o defendem, mais inconsistências e mais contradições parecem emergir. Não acredito porque – e essa é apenas uma das razões – acreditar em Deus significa aceitar que existe o destino. O que é impossível para mim, porque eu sempre fico simulando na minha cabeça esta pequena história que, apesar de poder não ter acontecido, pode perfeitamente acontecer numa dessas segundas ou quartas-feiras quaisquer: quando um avião com 170 passageiros a bordo está caindo, em rota de colisão com um prédio de uma cidade, será que morrer nessa situação poderia ser o destino dos recém-casados voltando mais apaixonados do que nunca de sua lua-de-mel e do casal de idosos atrás deles que ganhou uma viagem dos seus filhos e da criança viajando sozinha nos primeiros assentos com um crachá dependurado no pescoço e da aeromoça solteira que deixou seu filho em outra cidade aos cuidados da irmã e do rapaz viajando a trabalho e a contra-gosto e do piloto brilhante que sonhava em voar desde menino e da moça grávida de oito meses (e do bebê de oito meses dentro da barriga da moça grávida) e da menina cheia de esperanças voltando do vestibular que fez fora de sua cidade natal e da senhora que tem medo de voar indo visitar o seu filho e terminando de rezar o terço… que tudo faz parte do grande plano que Deus elaborou para cada um deles? Sem falar das pessoas que trabalham no prédio com que o avião vai colidir e daquelas que dormem nas casas próximas sobre as quais ele vai desabar, ou das famílias de todas as pessoas envolvidas pelo desastre, que têm tantos planos, tantas esperanças e, acima de tudo, tanto amor. O que sobra é só a a tristeza. E os destroços. Eu me recuso a acreditar que exista o destino porque a vida é cruel demais para ter sido arquitetada aos mínimos detalhes por alguém – ainda mais alguém que supostamente é Amor. E o engraçado é que em face dessas circunstâncias até aqueles que dizem acreditar no destino passam a não acreditar por um momento, porque dizem: é uma fatalidade. Não! Para que se diga que se acredita em destino, há que se defender que essa situação também é a manifestação dele. Se a pessoa não é capaz de defendê-lo, então ela na verdade não acredita que exista algo assim.
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque todas as diferentes facetas do Deus que as pessoas idolatram me ofendem profundamente e as religiões são construídas ao redor do egoísmo. Me enoja quando eu vejo alguém ganhar alguma coisa e exultar, agradecer ao seu Deus, dizer que ele é pai e que ele é bom e que ele é justo, sem pensar que, se x era o número de pessoas que concorreram àquela coisa, existiam x – 1 pessoas pedindo aquela mesma coisa, rezando a mesma reza, desejando tanto ou talvez mais do que ela, necessitando menos ou mais do que ela. Me enoja quando uma pessoa fica feliz pela conquista profissional da outra e diz que aquilo foi um presente de Deus a ela, ignorando assim todo o esforço e toda a dedicação que a pessoa sozinha investiu em si para alcançar aquilo. Me enoja que creditem tudo a Deus, nunca ao homem e à mulher. Me enoja quando uma pessoa medíocre diz para outra pessoa medíocre que ela vai rezar para que a outra passe no concurso, mesmo sabendo que ela está muito longe de ser a pessoa mais adequada ou a mais merecedora do cargo, e que ela acredite que exista a possibilidade desde que ela peça com fé a Deus, que então tiraria a vaga de quem realmente merece para dar ao seu amigo medíocre, mas necessitado de dinheiro e, mais importante, conhecido dela. Me enoja que tanto um padre consolando um fiel que tem um parente moribundo quanto um bandido falando com a quadrilha antes do assalto digam Deus vai nos ajudar e que ambos possam crer com o mesmo fervor nisso. Me enoja quando eu ouço uma pessoa que presenciou um tiroteio dizendo que foi uma graça de Deus que o atirador não a acertou, mas sim a pessoa que estava bem ao seu lado, assim bem perto mesmo, e que foi um milagre ela ter escapado, sem perceber que essa pessoa que foi acertada também era um ser humano tão inocente quanto ela, um ser humano que sentiu a dor do tiro, foi para o hospital e que talvez tenha morrido enquanto ela continua contando a todos os amigos a sua experiência de quase morte e o “milagre” com que foi abençoada com o maior sorriso do mundo. Me enoja quando as pessoas rezam de noite só para não ter pesadelos, e quando elas se reúnem em uma igreja e cada uma delas se fecha em sua própria reza, pedindo a realização dos seus sonhos e dos sonhos de seus parentes e amigos, e pedindo que se resolvam os seus piores problemas. E também me enoja quando elas rezam pela paz mundial ou pela erradicação da fome e acham que, nisso, estão fazendo suas partes, pois as pessoas vêm rezando por isso há muitos séculos e os problemas continuam aqui, muito visíveis e muito palpáveis, o que só pode significar que elas seriam mais úteis se usassem o tempo que elas passam desejando pelas coisas boas para de fato se engajar em alguma causa humanitária e promover com suas próprias mãos as coisas boas. Me enoja quando as pessoas dizem que o Deus delas é justo e bom para todos quando tem tanta gente morrendo para as drogas, para a fome e para o ódio, tanta gente chorando ao mesmo tempo nos mais diversos lugares e pelos mais diversos motivos; quando tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo e elas não têm ciência de nem uma pequena fração disso tudo e, mesmo nessas condições, têm a ousadia de dizer que Deus ajuda todos aqueles que merecem. E, por fim, me enoja a própria idéia de rezar – e essa última coisa quem me fez enxergar foi o escritor Rubem Alves. Como ele diz, qual pode ser o sentido de rezar? O Deus das pessoas não é onisciente? As pessoas rezam pedindo as coisas para quê, então? Ele não está prestando atenção?
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque acho tudo muito conveniente. É fácil viver a vida como bem se entende e depois entrar em uma igreja e pedir perdão pelos pecados, ou cuidar da espiritualidade ao estudar o livro que alguém escreveu, ou dar uns pacotes de arroz a uma comunidade pobre e achar que isso compensa qualquer ato mau. É fácil estar no meio das dificuldades imaginando que tem alguém cuidando de você, é fácil ter alguém todo poderoso a quem recorrer nas horas mais difíceis, é fácil imaginar que depois que nós morremos existe algo bom nos esperando como recompensa por tudo. E não acredito porque em tudo vejo hipocrisias. É fácil condenar o suicídio quando não se perdeu o movimento e a sensibilidade de todos os membros abaixo do pescoço, e quando viver a vida não se limita a olhar pela janela de um hospital. É fácil condenar o aborto quando não se vive a agonia de ter na barriga um filho negro que será neto do homem mais preconceituoso e violento do mundo, que seria capaz de espancar a própria filha até a morte. É fácil dizer que é tudo obra de Deus quando não se é judeu e não se vive na época do Holocausto.
Mas também vejo que é uma tarefa difícil para o ser humano admitir as suas próprias impotências. Reconhecer como verdade aquelas verdades que doem. Que corroem. Não é fácil não acreditar em Deus porque é difícil aceitar que nós estamos todos sozinhos e por nossas contas, que não existe o destino, apenas o acaso, e que quando nós morrermos nada vai acontecer – que o pensamento, que a consciência é química e é biológica e que quando nós morrermos nós simplesmente não seremos capazes de pensar ou perceber. Tudo não será nem preto nem silencioso, será nada. Porque escuridão e silêncio são percepções. Tudo continuará acontecendo como é ao redor dos nossos corpos, mas eles (nós) não reagirão (reagiremos) a nada do que acontecerá. É simples assim. Mas é impossível de se imaginar. E é nesses espaços que as pessoas colocam Deus – para explicar o que é inexplicável -, só que eu prefiro deixar as coisas assim, simplesmente incógnitas. Além da compreensão humana. As coisas que a ciência não consegue explicar não são Deus – são o desconhecido. Muita gente faz essa confusão. E muitas delas ainda não foram explicadas e nem serão porque são simplesmente incompreensíveis. E eu acho mais fácil encarar as coisas como incompreensíveis do que atribuí-las a Deus, porque para mim isso é hipocrisia. É não aceitar que o ser humano não é capaz de compreender todas as coisas. E também é vicioso – porque se aceitamos que é Deus e paramos aí, perdemos a motivação de dar um passo à frente e continuar a tentar entender.
Sim, eu não acredito em Deus. Não acredito porque as religiões prometem tanta coisa que é difícil não enxergar que é tudo uma farsa. Algumas coisas que ouço pregarem são ofensas à inteligência. Estou falando dos dogmas. E estou falando dos espíritas que dizem que quando morremos após uma vida correta vamos morar em uma colônia onde tudo é perfeito e harmonioso, onde nos preocupamos somente com as nossas saúdes espirituais, e que se nos matamos vamos, ao invés disso, passar anos e anos em um lugar escuro e cheio de sofrimento, ao mesmo tempo que dizem que o seu Deus é misericordioso, a personificação do perdão e do amor. Falo dos muçulmanos que crêem que ao se matarem em nome de Alá numa guerra considerada santa vão para um paraíso repleto de mulheres virgens que os compensarão por seus sacrifícios. Falo dos católicos que dizem que existe Deus e o diabo, e que existem anjos e que existem demônios, e que existe o céu e que há o inferno, e que há atos que definem quem está destinado ao quê, enquanto eles mesmos fizeram coisas no passado – bem sabemos – que certamente garantiriam aos próprios pregadores e aos próprios fiéis um lugar no inferno em que acreditam: queimaram pessoas em praça pública, enforcaram ou silenciaram os donos das mentes mais brilhantes, discriminaram os negros. Discriminam os homossexuais. E eu sei que essas coisas que eu citei agora são muito mais minuciosas do que isso – que os espíritas dizem, por exemplo, que Deus é misericordioso mas todos nós precisamos crescer espiritualmente, e que o suicida é alguém que não o fez e que precisa passar pelo umbrau para evoluir o que não conseguiu em vida, mas eu não quero entrar nessas questões. Até porque esse questionamento tem que partir do leitor – apenas as conclusões que surgirem de suas próprias reflexões poderão ser honestamente adotadas como válidas.
O que eu quero dizer é que eu não acredito porque acho tudo muito bobo. E depois de certo ponto fica tudo tão óbvio. Quem é ateu o é porque percebe a conveniência que ronda Deus e as religiões – quem é ateu percebe que não é só uma coincidência que justamente as coisas que as sociedades normalmente discriminam em determinado tempo (a ciência no Renascentismo e o homossexualismo até os dias atuais, por exemplo) sejam aquelas que recebam as censuras mais duras e sejam ditas motivos válidos para as punições mais temíveis. É por isso que existem tantas religiões quanto existem códigos morais. Porque cada religião atende aos pensamentos de uma determinada sociedade. A religião é, afinal de contas, um instrumento. E um de muitas utilidades: um instrumento que a sociedade usa para fazer valer as suas regras morais, e para justificar a repressão de quem não segue essas regras; um instrumento de que algumas pessoas más se utilizam para explorar as outras, conseguir dinheiro, crédito e satisfação; um instrumento de que as pessoas se utilizam como desculpa para se aproximar das outras e não se sentirem sozinhas; um instrumento que as pessoas utilizam para aliviar suas dores e calar suas dúvidas; um instrumento que as pessoas dão a outras para comandá-las.
Eu não acredito em Deus, mas não é como se eu não tivesse princípios, como se eu negasse a existência dele só porque quero, porque tenho birra ou algo parecido – só por eu não gostar dessa e daquela religiões. Eu nego porque eu acredito em outras coisas. Coisas que não têm nomes ou rótulos. Eu acredito no que eu penso e no que eu sinto, e as minhas teorias podem não ser as mais acertadas, mas eu me orgulho muito de poder dizer que elas são minhas, que ninguém as colocou na minha cabeça por mim. Tenho orgulho de que eu tenha me tornado capaz de investigar o mundo que me cerca do meu próprio jeito, sem deixar que o lugar comum (ou o olhar de desaprovação das pessoas) interfira nas minhas crenças. Porque eu acredito que eu estou certo (todos nós sempre acreditamos que nós estamos certos, não é mesmo?) e que as minhas razões são todas válidas. É por isso que eu digo essas coisas com a mesma naturalidade com que as outras pessoas dizem acreditar. Portanto eu gostaria que vocês aceitassem o fato de que é assim que eu penso, e vissem que há uma razão para eu pensar assim, e gostaria de dizer que a posição que vocês tomam, as coisas em que vocês crêem e as coisas que vocês dizem não me convencem e nem me fazem sentir culpado, burro, perdido nem qualquer uma das outras coisas que vocês tentam dizer com esses olhares de repúdio que me dirigem quando descobrem que eu não sou exatamente do jeito que vocês assumiam que eu fosse.
E pela última vez sim, eu não acredito em Deus, e como eu poderia? Não acredito porque ele é uma invenção humana. Nada mais.
Adendo: aos proficientes na língua inglesa, recomendo a leitura desta matéria (seus comentários, na verdade).
Ler maisCadáveres
Se quer um conselho, não leia o que vem depois do segundo ponto final. Se há algo útil nesse post, é que ele serve para mostrar que sim, eu continuo vivo.
O avião caiu e eu fiquei pensando em destino. Cheguei à conclusão de que a única coisa a que estamos todos destinados mesmo é a sermos um cadáver. Surgimos da pureza de um suposto milagre (o da vida, assim dizem) apenas para terminarmos na insignificância dessa palavra ominosa, volta e meia inspiradora de arrepios, caminhando eternamente pela inexistência tendo o completo esquecimento como apenas o primeiro estágio filosófico. Na verdade nem é essa a palavra mais adequada, cadáver. Quer dizer, acho que todo o campo lexical está incorreto. Estamos todos na verdade predispostos a essa condição final, assim supostos pelas observações empíricas que apontam para o fato de que todo ser humano (ou, numa análise mais geral, tudo que vive) eventualmente morre. Temos uma natureza tão incerta que falar do desaparecimento de cada um de nós, como indivíduos, é tão complicado como falar dos nossos surgimentos. Afinal, em que momento estaria, precisamente, aquele em que passamos a existir? Alguns diriam que passamos a existir quando saímos à luz do mundo (ou à artificialidade da luz de uma sala de cirurgia), e há outros que dirão que existimos assim que somos promovidos a feto, oito semanas após o coito. Há ainda outra linha de pensamento que defende que, naquele exato momento em que ocorre a união de um óvulo e um espermatozóide, já existimos; que surgimos da formação do embrião, e não do suspiro de agonia. Mas sejamos mais criativos. E se na verdade existimos mesmo antes disso, só que em duas existências distintas no espaço e perdidas nas probabilidades – uma nos vinte e três cromossomos de um entre os bilhões de espermatozóides dos nossos pais, uma nos vinte e três cromossomos de uma das dezenas de óvulos das nossas mães? Poderia ser essa a unidade mínima da existência? Não seria possível que cada uma dessas existências estivesse antes dividida em outras duas, ou quem sabe quatro, no tempo indivisível e no espaço (de certa forma) infinitesimal das células? E essas pequenas existências brotando de outras oito, ou quem sabe dezesseis existências engolfadas pelo tempo que, de tão dividido, nem é tempo, e num espaço em que cada átomo em seu formato e posição desempenha a mais crucial das importâncias? E, ainda antes disso, dezesseis ou trinta e duas existências originais confinadas em ainda uma outra unidade, infinitas vezes menor do que essa unidade que supostamente conhecemos, contendo, cada uma delas, outros milhares de existências, ou quem sabe universos inteiros repletos de existências? Quantas são, exatamente, as variáveis que nos definem? Quantas elas precisariam ser, matematicamente, para que nos milhares de anos em que o ser humano existe, não tenha havido nunca um indivíduo exatamente igual ao outro? E, se passar a existir é isso mesmo, o que seria exatamente morrer? O inverso? A princípio faz sentido, pois, após culminarem-se tantas existências distintas numa só, passamos anos e anos como uma só existência, aparentemente muito finita e definida. E em certo ponto definhamos, é claro, viramos uma existência puída, cada vez mais vaporosa, para depois enfim passarmos ao curioso estado (será que posso dizer assim, “estado”?) da inexistência e voltarmos à questão do cadáver. Dizem que os nossos cadáveres tecnicamente evaporam (só que, como são mais complexos que a água, são ditos como objetos de um processo mais complicado e detentor de um nome mais pomposo) e/ou são consumidos por outras existências, umas que vivem debaixo da terra, aonde geralmente vamos parar depois de uma vida cheia de glórias ou cheia de desonras, pouco importa, e aquilo que nos tornara uma vez unos (o corpo e todo o seu volume atômico) vai se repartindo entre milhões de indivíduos microscópicos que eventualmente morrerão e serão absorvidos por coisas ainda menos visíveis ou mesmo diferenciáveis. Então chegamos a algo parecido com o statu quo ante, ao início de algo novo e provavelmente diferente. Voltamos (ou será que devo dizer “volta-se”? Quem sabe “procede-se”?) às milhões de quase-existências que um dia se juntarão para formar uma nova (repito, uma), que então morrerá (ou, mais objetivamente, se redividirá) e então repetirá o processo apenas para se tornar um cadáver outra vez.
(Eu avisei e não foi à toa.)
Ler maisCrianças
Uma idéia que eu queria ter tido: anotar os meus achismos num caderno desde quando aprendi a escrever. Aí hoje eu poderia pegá-lo e ficar folheando até achar algo apropriado para contar. É que muito fica perdido, flutuando em algum lugar da memória. Achar lembranças num caderno seria muito mais fácil. Isso me renderia tantos textos! Eu citaria essa coisa que eu refleti uma vez, explicaria que foi algo que sempre achei, e depois faria um comentário a respeito. Os encaminhamentos possíveis seriam dois: “mas então percebi…”, ou então “e é verdade…”. Acho que fui uma criança interessante. A minha mãe me disse que uma vez perguntei a ela: “mãe, se a gente vive depois que morre, como é que sabe se não está morto?” Ela até hoje não conseguiu a minha resposta, e eu também não consigo pensar em nada plausível. Ser criança é algo mágico porque significa morar em um mundo diferente, em que os mares não têm fim e todos os seres humanos habitam uma única ilha. A imaginação da criança é solo fértil. O seu pensamento, por ser inocente, é tanto simples quanto engenhoso. Pobre de quem o acha ingênuo. A mente infantil é lúcida, põe clareza no enxergar. Sem palavras demais na cabeça, perder-se nelas se torna difícil. A criança às vezes expressa algo que está muito longe de corresponder à verdade, mas de qualquer jeito é aceitável, mesmo razoável, se avaliado segundo a sua lógica prematura. De algum jeito, faz sentido. Mas, de qualquer forma, a criança tem a liberdade de cometer erros porque tem a seu favor a escusa da inexperiência. Ela desvenda o mundo em suas aparências, e para tanto tem a seu dispor não mais do que a curiosidade, um desejo inato que não é uma gana por conhecer ou dominar, mas simplesmente vontade de entender. Ninguém julga o que uma criança diz porque todo mundo pressupõe que ela ainda não tenha a menor idéia do que seja a tal verdade. Quer dizer, nenhum de nós realmente sabe, mas o problema conosco, os crescidos, é que nós temos uma convicção muito grande de que sabemos. Isso afeta os nossos achismos e os transmuta em certezas particulares. É por isso que a mágica da criança que todos nós fomos acaba por se perder com o tempo: à medida que adquirimos experiência, vamos perdendo o direito à desculpa de não termos o conhecimento de mundo, e somos obrigados – por nós mesmos! – a pensar com método, a maquinar os pensamentos, elaborá-los e apresentá-los entre conjunções explicativas, adversativas, conclusivas, comparativas, conformativas, consecutivas, integrantes, causais e todo o arsenal que não acaba. Por termos que recorrer às coisas concretas o tempo todo, os nossos pés ficam grudados no chão e as nuvens ficam distantes. O mar termina onde recomeça e todas as coisas têm nomes e explicações. O raciocínio lógico nos torna corriqueiros.
Ler mais