Palitos

Eu me lembro, eu e um paliteiro nos sentávamos na soleira da porta que dava pra varanda, e enquanto isso minha avó cozinhava algo que cheirava bem – eu costumava ficar à volta dela fazendo qualquer coisa enquanto ela fazia o almoço, por muito tempo foi assim. Então puxei um palito da casa que eu desenhara no piso e, tendo-o na mão, senti uma súbita necessidade de separá-lo em duas metades. Mas como? Pensei, pensei, e fui buscar uma faca na cozinha.

— O que você quer com isso, menino? — minha avó provavelmente perguntou.

— Nada, fufó — eu com toda certeza respondi, e saí da cozinha enquanto ela me receitava cuidado. “Não corre com ela, viu?”

Voltei para a soleira e me sentei ali com meus palitinhos. Tentei serrar um deles com a faca de serra, mas não obtive sucesso – o palitinho era rígido demais. Então corri até o quarto dela e busquei uma tesoura de dentro de sua caixinha de costura, outro costumeiro alvo da minha curiosidade. Coloquei o palitinho entre as duas lâminas e apertei o cabo preto com toda a força que eu tinha, mas aquilo também não adiantou. Então, derrotado, voltei à cozinha com a faca e o palito.

— Fufó — eu chamei —, como é que eu faço pra cortar esse palito em dois?

Ela limpou a mão na toalha e pegou a faca e o palito, eu me lembro bem. Por um momento eu achei que ela fosse usar a faca e eu fosse ficar com cara de besta, me perguntando por que eu não tinha conseguido e ela sim, mas ela a guardou e depois colocou o palitinho bem na minha frente. Eu fiquei um pouco confuso, mas me limitei a observar e esperar o passe de mágica vir. Então ela colocou os dedões por baixo, fez pressão com os indicadores e o partiu.

— Pronto — ela disse, e me entregou.

Eu estendi a mão mas não percebi que o fazia. Absolutamente perplexo, fiquei pensando como eu podia ter me esquecido das minhas mãos.

— Brigado, fufó.

Fui andando de volta para a soleira e fiquei lá, destruindo as figuras construídas nas duas dimensões do chão e partindo os palitos com as mãos até que o almoço enfim saiu.

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Febre

Estou com febre, estou com febre e o mundo também.

Ninguém quer que você ouse. Todo mundo não quer apenas te ver estático – quer te prever. O que é imprevisível também é uma ameaça, afinal; ao atual estado das coisas, à organização e ao fluxo delas. Àquilo a que já se acostumou. Todos têm medo do desconhecido – sim, não é a morte que as pessoas temem. É a nossa total ignorância acerca dela. As pessoas incapazes de surpreender não gostam de ser surpreendidas, essa é a verdade. Assim como aquelas que se acomodaram a tal ponto, afundaram de um jeito tal em suas tocas, que atrofiaram em suas faculdades físicas, e talvez até mesmo nas mentais. E as automatizadas, que foram pegas e devoradas pelos mecanismos dos quais fazem parte e aos quais provêem o gás, digo, o petróleo. Nenhuma delas quer que você ouse ser diferente.

Está com febre? Estou! O mundo também está!

Mesmo a Coca-Cola não quer. Ela quer que você seja igual a todo um mundo que consome aquele mesmo produto, o dela, e só quer que você ouse trocar por ele os dois reais que você poderia economizar para o próximo item da sua lista de desejos. A única ousadia desejada é a da compra. Os professores querem que você repita padrões, faça uso constante da borracha, gaste muito grafite, dedique os seus dias aos estudos que tantas pessoas já fizeram antes de você. O vestibular quer que você se subjugue aos seus professores, aos seus livros, e quer que você produza uma redação de início, meio e fim, aos quais correspondam, respectivamente, introdução, desenvolvimento e conclusão. Nunca um texto como este aqui. Talvez seja essa a sua raison d’être: eu quero poder escrever fora dos moldes.

Estamos com febre – eu numa cama, o mundo na outra.

O mundo te diz: seja simples, tenha poucos desejos. Eu estou morrendo e eu sou a sua casa. Se o teto cair, portanto, vai ser em cima de você. E os ambientalistas concordam. Polua menos, eles dizem. Os vegetarianos dizem: não coma carne. As crianças dizem: não quero verdinhos! Os adultos dizem: queremos as verdinhas! Mas não prestam atenção ao fato de que essa expressão pertence aos estadunidenses, cuja moeda de papel é verde. Está tudo errado, está percebendo? O problema não é o gás carbônico, a violência ou a miséria. O problema é esse: as pessoas estão falando demais, de modo que elas estão se perdendo dos seus objetivos, razões e convicções. Eu também tenho muito o que falar, mas não encontro a ordem! Por onde começo? E onde termino?

Febre, febre, febre. Temo que já tenhamos passado dos cinqüenta graus. Mas não disseram que isso era impossível?

Os pais dos meus amigos os chamam de católicos, mas eles mesmos não sabem do que se chamar. Os jovens estão perdidos mas não no sentido de estarem sem esperança – no sentido de terem perdido a visão da trilha, terem feito trekking na mata fechada e de repente terem se dado conta de que não havia ninguém por perto e a mata estava fechada demais. Todo mundo tem muita coisa pra dizer. Eu não acredito em muita coisa que eles dizem, eu acredito é no cérebro. Todo um potencial, ele tem. Muitos elétrons-volt, é verdade! Teve uma questão de física que envolvia sódio e potencial que eu errei no vestibular. Ou foi num simulado?

Ai, como arde. Ó, desconforto! Je suis malade! Nous sommes malades! Tout le monde! Non! Le monde en soi! Le monde et moi…

Estudei francês mas não sei por quê. Se as pessoas não me entendem nem na minha língua, por que é que eu quero saber outra? Talvez para poder falar de um jeito simples: eu moro na casa verde, como é o teu nome?, eu estou doente!, adeus!.

Se o meu olho está vermelho, a Terra continua azul. Mas ainda assim eu sei – está tão quente! Temos febre, sim, senhor.

A crise não é econômica. A da economia é só uma evidência, o primeiro passo – o trajeto leva a um precipício, tenhamos cuidado! (Eu tenho uma personagem que vaga por ali, e eu sei dizer que o lugar é repleto de vozes, ventos, e quase sempre é noite. Ou quase noite: é crepúsculo.) Depois vai se consolidar a crise dos alimentos, em seguida a crise existencial. Primeiro a minha, depois a do mundo.

Salvem os seus netos! Desmatem menos! Desculpe, esse foi o mundo. Ele está delirando ali, na cama ao lado.

Agora que se falou em netos, eu queria dizer que não penso em ter netos e também não penso em ser só mais um. Quando eu me recuperar dessa febre e for capaz de organizar meus pensamentos, eu vou separá-los e acondicioná-los em parágrafos, com tampas bem coesas. Na verdade, vou fazer muitos textos com eles, mas sem misturá-los demais. Eu estava quase achando o fio da meada, mas aí veio essa febre e eu o perdi. Mas eu vou reencontrá-lo, dou minha palavra escrita, essa bem aqui: eu vou!

É excruciante! Será que alguém teria Tylenol? Para mim serve, mas quanto ao mundo…

As temperaturas no mundo só fazem subir, não é verdade? O calor é transferido pro mercúrio dos termômetros antigos e lá vai subindo o líquido pelo túbulo. Não sei como é que funcionam os termômetros eletrônicos, mas não deve ser nada muito complicado. Afinal, eles são bem baratos e de grande disponibilidade. Só não se vende pela internet, o que seria um tanto estranho. Ou será que se vende? Afinal, o mundo anda tão estranho, de qualquer jeito…

Alguém mais está com febre? Espero que não seja contagioso.

Tenho muita inveja daqueles que escrevem livros. Mais ainda dos que os publicam. Eles mantêm um ritmo que os vai levando até o fim, o ponto final final. E aí as pessoas lêem o que eles escrevem e tudo simplesmente faz sentido. Uma vez eu fui assim, mas aí comecei a pensar demais e escrever de menos. Aí as coisas foram se acumulando na minha cabeça de forma que comecei a encontrar dificuldade para expressá-las, uma por uma. Então elas ficam na fila e ficam impacientes, se é que você me entende. Aí se empurram, roubam os lugares umas das outras, e vão saindo na primeira oportunidade, todas de uma vez, por vezes até pisoteando as mais fracas. Um caos.

Acho que o mundo acabou de desmaiar. Ou foi só a noite que caiu?

Uma descarga cerebral – é como vou chamar isso tudo. Mas não vai ser o título desse texto, porque o título eu já escolhi há uns cinco parágrafos. O título há de ser “febre”, porque eu não quero que tomem esse texto como parâmetro para me julgar como escrevente – sim, porque eu não posso dizer “escritor”, ou as pessoas vão fazer confusões. Ninguém pode levar a sério as palavras de um homem febril.

Acho que às vezes a pessoa precisa fazer algo assim – se permitir a loucura, já que ela insiste tanto assim em se libertar, alfinetando sem nunca perder a energia. Deixá-la dar uma volta pelo mundo de fora, distorcer as palavras até que se canse. Depois disso ela se recolhe em um canto longínquo da alma por conta própria e então adormece, dando lugar à lucidez. Aí a lucidez pode chegar e organizar os pensamentos: pra que essa fila? Voltem já para os seus quartos! Andem, andem! E a consciência do escrevente fica em paz. Quando ele quer falar sobre uma coisa, ele simplesmente a chama e ela vem, de cabeça baixa, transparente, leve e obediente.

Daqui pra frente, vai ser assim. Esta foi a última descarga cerebral. A minha meta é fazer sentido, como agorinha eu havia prometido que ia fazer.

Como eu ia dizendo, ninguém quer que a gente ouse. Mas eu sou do tipo que ousa. Ser diferente, escrever diferente, e ainda colocar tudo isso num blog. Eu não era assim, mas felizmente agora eu sou.

Acho que a minha febre está passando. Mas o mundo ainda me parece doentio.

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Tempo e outras divagações

ou: a abolição da coesão; ou ainda: stepping out of the ordinary; ou quem sabe: stepping into a madhouse.

O que fazer do tédio? A música vai medindo a passagem do meu tempo, e por não ouvi-la com atenção também não tenho a noção das horas. Acho que elas se metem a andar mais rápido quando não tem ninguém observando. E deve ser isso mesmo, porque o tempo pareceu se dilatar naquelas vezes em que eu peguei o relógio da gaveta e sentei com ele no silêncio, só observando os ponteiros se mexerem. Aliás, deve ser por isso que os minutos costumam demorar tanto pra passar: estamos sempre consultando a que altura estamos na passagem dos segundos. Eu sei que o tempo é só uma percepção. Ele na verdade não existe, não é mesmo? Separamo-lo em dia e noite, duas coisas que só existem do nosso ponto de vista. Que estivéssemos no espaço ou que a Terra não girasse, eu gostaria de saber como mediriam o tempo desde o início – aliás, eu poderia apostar que se nós não envelhecêssemos, ninguém teria jamais inventado o relógio. Essa dependência de circunstâncias (o movimento do planeta e a alternância de dia e noite, a não-localização no espaço), de qualquer forma, só pode significar que ele (o tempo, não o relógio) não existe. Ou isso ou o tempo só vale para a Terra e o resto do universo é atemporal.

Mas se o tempo não existisse, como poderia haver um conceito ou mesmo uma palavra como “atemporal”? A sua existência seria uma hipótese bastante improvável por pelo menos dois motivos. A primeira implicação é gramatical: o “atemporal” derivou-se do “tempo”. Logicamente, portanto, a não-existência deste automaticamente exclui a possibilidade de existência daquele. A segunda é filosófica, de cunho paradoxal: como uma coisa “a” poderia ter a qualidade de ser oposta a uma outra coisa “b”, sendo que essa última não existe? A que “a” estaria se opondo então, ao nada? Então o universo passaria de “atemporal” para “tudo”, o oposto de “nada”? Espera, isso está começando a virar um algo sem sentido que faz sentido, porque, se você pensar o conceito, o universo é “tudo”. E se isso pode ser tomado como verdade, então também se torna verdadeiro o pressuposto (do qual parti) de que o universo de fato é atemporal? Não, espere, não foi isso que eu disse. Eu disse que o universo não é atemporal só porque o tempo na realidade não existe. Mas ao mesmo tempo, se o tempo não existe, então tudo é atemporal. O problema é que eu não tenho meios de dizer isso, já que estaria chegando a uma implicação gramatical e outra filosófica. Então vamos fazer assim: ignoremos as implicações da afirmação. Vou dizer e você vai entender sem encrencar tanto com isso quanto eu estou encrencando: o universo é atemporal. O tempo não existe. Que se faça o sentido.

Ai, como eu sou humano. Estamos sempre tentando encontrar e ratificar explicações tendo como base a lógica da mente humana, não é verdade? Como se ela fosse o parâmetro de todas as coisas. Ah, que infames. Só de pensar que nós raramente entendemos o que se passa em nossas próprias cabeças, cabeças essas que levamos conosco para todos os cantos durante todas as nossas vidas! Somos tão hipócritas a ponto de admitir que não entendemos a psicologia humana mas que, apesar disso, compreendemos o universo. É quase como aquela coisa: você vê uma criança fazendo algo incompatível com a idade dela e aponta o ridículo do fato acusando-a de nem saber limpar a própria bunda.

O homem tem essa coisa de achar que o universo existe para completá-lo, ou que é o contrário, que ele existe para completar o universo. Mas são igualmente mesquinhos os dois jeitos, o direto e o inverso. Somos aparentemente incapazes de aceitar que pode não haver sentido para tudo. Eu só sei que no início certamente não havia um. Essa coisa de “sentido”, na verdade, só passou a existir quando o homem surgiu no grande vazio das coisas e se viu sem muito o que fazer. Dotado da capacidade de falar dentro de sua cabeça (ou pensar, em um só verbo – como queira), começou a atribuir razões para tudo e até inventou a própria razão, aquela que grafa com a primeira letra maiúscula. Se ele não tivesse esse recurso, se só pudesse falar fora de sua cabeça, para outra pessoa, talvez nada disso tivesse acontecido. Quer dizer, se os bebês de hoje em dia, que são mais espertos do que não sei o quê, ainda não nascem sabendo falar, então o que poderíamos dizer do primeiro ser humano que apareceu na Terra? Um bronco total. Ele nunca teria pronunciado a primeira palavra, não sem a capacidade de pensar. É que se fosse um esforço social, o início da chamada evolução, o nosso egoísmo o teria certamente impedido de vir. Mas o fato é que ela começou por um esforço particular, e eis que esse primeiro sujeito se entediou. E ele podia pensar. O tédio é um mal do homem já há milênios, isso todo mundo sabe, e nessa condição (de entediado) ele tende a divagar (quando não consegue dormir), bem como eu estou divagando agora (já que não consigo dormir). O resultado você já sabe, eu já disse antes: ele começou a encontrar razões, inventou a “Razão” e o tal do sentido. Os que vieram depois dele inventaram a ciência, o suposto ápice da capacidade cognitiva do ser humano. Mas eu ouso dizer, aliás, que todas as ciências que existem nada têm de imparciais. Pelo contrário, foram todas elas influenciadas pela condição de humanidade obviamente inerente a todos nós. E a fragilidade dessa condição é o que, com o perdão da palavra, fodeu com toda a glória da ciência. Não deixa de ser uma idéia bela, de qualquer forma. É mais ou menos como o socialismo de Marx: poderia ter dado certo, não fosse, é claro, a sua dependência de pessoas, que, bem, são humanas.

E, já que estou falando o que eu penso, vou dizer mais. Eu acredito que a vida é só uma passagem, nada mais do que isso. Os poetas árcades viveram e morreram pregando que somos todos efêmeros. E a vida é uma coisa bastante insignificante, se quer saber. Nunca sequer houve mais matéria no universo quando um animal (irracional ou racional) nasceu, tenha sido ele o Einstein ou o Totó. Aliás, o universo tem hoje a mesma quantidade de matéria que tinha antes mesmo do surgimento da Terra. Os átomos que me constituem que constituem você que constituem o seu vizinho são os mesmos que um dia fizeram parte de, sei lá, um planeta bilhões de anos-luz distante daqui que simplesmente explodiu há um tempão atrás. Acredite se quiser.

Mas o mal de ficar viajando nessas coisas ridiculamente grandes e malucas (universo, conceitos, vida, humanidade) é que você pode se distrair muito facilmente do pensamento inicial. Só para ser do contra, eu vou me lembrar do que eu queria dizer antes. É que eu fico pensando: por que é que nós deslizamos pelo espaço sem contá-lo em metros e fazemos isso com o tempo? Que mania chata essa nossa, a de ficar cronometrando a tal da passagem. Passemos, e que seja só isso! As pessoas precisam parar de ser tão antiquadas. Parem de buscar as respostas nas bíblias, alcorões e torás e comprem um livro de física moderna. E para quem não quiser gastar dinheiro, a Wikipedia está a um clique. O único problema é que ela foi feita por humanos e codificada de acordo com a mente deles. Digo, nossa. Nossa mente. Por mais que eu não goste disso, acho que ainda não temos nenhum outro parâmetro no qual nos apoiarmos, por enquanto. Infelizmente.

Mas eu ainda prefiro pensar em buracos negros, realidades alternativas e expansão do universo do que ficar imaginando se eu vou para o céu ou para o inferno quando morrer. Mesmo que seja tudo mentira, viagem total, isso pelo menos me ajuda a abrir a mente e me faz ver que eu não sei absolutamente nada. Aliás, se tem um cara que um dia falou algo realmente verdadeiro, esse cara foi Sócrates – isto é, se ele realmente existiu. Só não vou citar a frase dele porque eu detesto fazer citações, acho algo extremamente cafona, e além do mais não quero dar esse gostinho para o tal cara (se ele tiver existido) – tudo bem que ele já morreu (novamente, admitindo que ele viveu). Mas que fique subentendida a tal frase, então, e ficará tudo bem assim. Qualquer coisa eu não sei de nada. Aliás, eu não sei mesmo. Ó, vida.

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Desglobalizar-me-ei

Agora vou ser antiquado, já decidi. Não correrei mais junto ao tempo e nem contra ele, o que sempre achei um tanto estúpido. Se ele me deixar para trás, tudo permanecerá tão bem quanto sempre esteve. Vou respeitar toda e qualquer regra que eu estabelecer para mim mesmo, sem importar se segui-la vai me tomar tempo demais ou se no fim das contas isso acabar se mostrando desnecessário.

Não mandarei outro e-mail – quando se fizer preciso, recorrerei às cartas ou ao telefone. Isso se não for possível caminhar até a pessoa com a mensagem, é claro, ocasião depois da qual caminharei em companhia dela até um café com nenhum outro intuito a não ser o de colocar os assuntos em dia.

Por falar nisso, vou começar a acordar bem cedo e tomar o meu desjejum na varanda, apreciando a luz do sol a se espalhar pelo céu. Também vou fazer um lanche quando vierem as tardes e jantar quando estiver de noitinha. E vou fazer isso em todos os dias, sejam eles santos ou não. Aliás, eu vou dizer “de noitinha”, além de “paquerar” e “discoteca”. Se bem que não vou mais a nenhuma boate, digo, discoteca: quando eu quiser ouvir música, vou convidar alguns amigos para beber vinho e tocar violão, mas só quando e se estiver bem frio. E vou comprar uma vitrola, para quando eu não estiver me sentindo muito social. Ah! E vou chegar tão longe quanto exclamar “homessa!” quando alguém me contar algo e isso me deixar espantado. E, quer saber? De vez em quando vou usar dos partitivos, da mesóclise, dos futuros não-compostos e dos hipérbatos.

Substituirei meu computador por uma máquina de escrever e uma calculadora, tanto em casa como no trabalho. E caminharei até a empresa, mas pegarei o carro quando for à chácara, nos fins demana, porque penso que não há outro jeito. E quando eu estiver lá, ficarei no rio a tarde toda, para depois descansar no balanço de uma rede bem confortável.

E, por fim, eu ousarei ser romântico. Hei de freqüentar um bar calmo, onde poderei encontrar alguns novos bons amigos, que saibam tocar instrumentos como violino e bandolim, e que de quando em vez vão comigo fazer uma serenata ao pé de uma janela no subúrbio. Tomarei aulas de canto lírico.

E vou amar você, já disse. Amar-te-ei intensamente, e por muito tempo. Com você eu não quero a rapidez daquele verbo insano, o tal do “ficar”, que quer dizer tanto não ir como ir. Vou te amar à moda antiga, munido do direito aos galanteios todos, e aos planos para o futuro. Sim, eu vou ousar pensar no futuro.

Quero me deitar com você numa cama confortável, e quero que possamos ficar abraçados por tanto tempo quanto quisermos, sem que precisemos nos preocupar com horários de chegada, de partida, pensamentos alheios e fachadas. Quero poder afundar com você no silêncio do isolamento sempre que quisermos, e compartilhar com você a experiência docílima do que é a solitude quando se está acompanhado. Quero ousar redescobrir o amor ao seu lado. E quero isso tudo neste século maluco, o vinte-e-um. Tudo que eu quero do tempo é a liberdade que com ele se acumulou, e mais nada.

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A bagunça

~ a bagunça é bicho traiçoeiro. começa na surdina, em um copo não levado à cozinha por preguiça ou mesmo num papel deixado sobre a mesa por mero desaviso. a partir daí, evolui paulatinamente, e não importa quando você a percebe, sempre já é tarde demais: ela já domina o seu quarto e está toda enrolada no seu pescoço, tentando sufocá-lo. portanto, tenha todo o cuidado, mas saiba que mesmo todo o cuidado é pouco.

Acredito que não há nada de interessante nisto que se seguirá. Não é um conto, nem um fragmento, mas também não acho que seja só um relato. Este sou eu e esta é uma das minhas conquistas. Mas uma tão íntima que talvez nem se lhe pareça assim.

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In memoriam

Engraçado como, em certos pontos da vida, uma linha do tempo que parece estender-se infindavelmente longa faz-se tão curta que pode ser vislumbrada e claramente compreendida em um pequeno esforço de memória. Ao matizar uma série de fatos que se ligam comitativamente e considerá-los em separado de todo o contexto em que estão, então o tempo se amotina em um espaço pequeno e facilmente entendível – daí a ilusão de que tudo aconteceu no dia anterior. De fato, agora mesmo, os minutos que precedem o momento em que escrevo isso estão se juntando aos meus outros momentos em contato com a estupenda saga de uma autora que remanescerá, certamente, uma das mais importantes da época na qual nós vivemos. Falo, é claro, de Harry Potter e de J. K. Rowling.

Agora mesmo, lembro-me tão claramente do meu primeiro contato com este mundo fantástico quanto me lembro da última palavra que acabo de ler, em uma página que, por sua importância, me fez chorar – algo de que não me envergonho. Seis anos atrás lá estava eu, caminhando pela área do cinema de um shopping, quando me deparei com o Espelho de Ojesed diminuído, é claro, a uma cópia de papelão armado e uma superfície refletora que me distorcia e que foi capaz de capturar minha atenção por alguns minutos, até que fui alcançado por minha mãe. Acima do espelho, figurava em letras garrafais o título “Harry Potter” e lançava-se sobre mim, por uma força desconhecida, um feitiço atordoador chamado curiosidade, perfeita e até ironicamente bem-descrito, simplesmente, por “encanto”.

Neste mesmo dia encaixam-se as quase duas horas que passei no cinema, maravilhado, naquela idade e naquela condição ainda me questionando sobre a possível verossimilhança da história que absorvia ali, pensando que talvez eu pudesse estar em Hogwarts no ano seguinte, quando eu completaria 11 anos. O primeiro — e talvez maior — mérito da contribuição de J. K. Rowling avultava-se já ali, na minha frente, e eu nem sequer me dava conta disso.

Foi através do disse-me-disse recorrente que eu acabei por descobrir que o filme vinha da história de um livro, do qual já havia ouvido falar vagamente por uma amiga que o tivera lido. Na época não havia ainda me livrado do medo tolo das páginas repletas de letras que andavam em bando e chamavam-se “livros”, e ainda me conservava fatigado por antecipação de me aventurar em um tipo de universo que se mostrava apenas a quem tivesse a paciência e a coragem de se aventurar nele. Disposto a decodificar melhor o univero de Harry — e talvez porque eu realmente queria que ele se tornasse mais real para mim — eis que pedi à minha mãe um exemplar d’A Pedra Filosofal. Seria então com um pacote consideravelmente grosso, ganho, na verdade, do meu pai, que eu teria o meu contato de estréia com aquele universo até então tão adverso ao meu: o universo dos livros. Em minhas mãos, eu recebera os quatro primeiros volumes de uma história que só viria a terminar hoje, seis anos mais tarde, em uma hora da madrugada que, de volta naquela época, eu nem sonhava testemunhar.

Enquanto eu lia cada um dos volumes e crescia, aprendia que era tudo uma história de ficção, e que nada daquilo era real, mas também me esforçava para ser digno da Grifinória, tornando-me mais corajoso do que antes; descobria que não existia Hogwarts no mundo real, mas também descobria que ela era, para os bruxos de J.K., o mesmo que o colégio era para mim. Esta última noção me golpeou, tão longe quanto posso me lembrar, quando a chegada de uma coruja com a minha admissão para uma Escola de Magia e Bruxaria consolidou-se como um não-evento no meu décimo primeiro ano de vida.

De qualquer forma, foi através deles que eu descobri que livros eram o que havia de mais próximo de mágico que eu podia encontrar no mundo real. Mais do que me entreter, Harry Potter me ensinou a gostar das palavras, a extrair o entendimento delas, a ter vontade de usá-las para transformar o meu pensamento em um código compreensível para qualquer um, ou pelo menos muito mais palpável do que pensamentos que flutuam nos confins da minha mente; Harry Potter me incentivou a encontrar todos os outros vários universos paralelos que me rondavam, e os pontos finais todos de cada uma das histórias que passei a ler, que sempre me aguardavam em suas últimas páginas — que tinham de ser conquistadas, caso eu quisesse extrair delas não só as respostas, mas também a moral das histórias que, com algum propósito, desenvolviam.

Nos anos que se passaram entre a publicação dos últimos três livros, envolvi-me cada vez mais naquela história que aprofundava-se e ramificava-se bem diante dos meus olhos, procurando entender melhor os pontos menos claros, apreciar certas minuciosidades, prever o futuro da série e jogar dentro do quebra-cabeça que J. K. Rowling nos apresentara. No caminho percorrido até o sétimo livro, que terminei um átimo atrás, eu me senti tão parte do grande plano quanto Harry, Rony e Hermione, tão afetuoso quanto aos rumos da história quanto a própria autora e, ao mesmo tempo que um personagem, senti-me um espectador, um espectador que se juntou a outros milhares, sentindo-se lisonjeado por testemunhar o desenrolar dos acontecimentos com os próprios olhos, tão senciente ao futuro quanto às personagens, que acabam ganhando vida também.

Eu me orgulho de forma incomensurável, talvez pela grande afeição que desenvolvi pela história, de ter testemunhado a publicação dos sete livros de Harry Potter, e de poder dizer que eu tive a oportunidade de me emocionar com ela em uníssono temporal com o mundo todo. O que eu vi ganhando forma é algo que, tenho por certo, tornar-se-á um clássico do passado, do qual eu, de certa forma, tive o prazer de fazer parte.

Alcancei a última página e nela as respostas, a moral, e, estando absolutamente impressionado por tudo isso, como um conjunto, sinto-me obrigado a dizer algumas palavras, mesmo que ao léu de um vento particular:

À J. K. Rowling, a minha mais profunda admiração; a Harry Potter, o meu adeus. E a ambos, deixo o meu muito obrigado por tudo, tudo mesmo, mas, principalmente, por terem tornado as nossas vidas, de um modo sem precedentes, muito mais mágicas!

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