Heartfelt
Não se engane: é a minha alma que estou colocando aqui, então não diga o que não sente e nem tente escapar disso com mais um de seus comentários cômicos — as superficialidades já não fazem sentido e nem sequer cabem entre nós. Já era hora de alguém dizer isso. Você sabe que já estamos tão íntimos que isso que há entre nós não se escreveu em dicionário algum. Eu leio os seus gestos e tudo mais que há de particular em você, e qualquer olhar que você dirija a mim me coloca nu. Não importa quantas intenções você coloque em suas verdades e em suas mentiras, não importa o quão você se esforce para dizer o que não pretende, eu vejo cada um de seus pensamentos em cada uma das palavras que você modula, entona e pronuncia. Olha, é o meu coração que eu ponho sobre essa mesa, portanto preste muita atenção no que eu digo: eu não sinto mais você. O riso que você permite a mim é como feito de madeira, e seu olhar é tão frágil que jamais sustenta o meu. Faz tanto tempo que falta humanidade em nossos diálogos e em nossa dança que é como se ambos nos ausentássemos durante esses momentos e só oferecêssemos um ao outro os nossos próprios vestígios, ou quem sabe menos. Acho mesmo que fazemos mal um ao outro. Eu te impeço de ser você mesmo e não consigo ser eu mesmo se você está em meu redor. Acho que já nem me lembro de você. Quem eu amo está no passado, talvez exatamente no mesmo espaço em que ficou o garoto de quem você só guarda lembranças doces. Algumas vezes penso que amamos tanto um ao outro que conhecemos o verdadeiro limite do amor: quando não há mais espaço para que ele cresça e ele acaba se transmutando em antipatia, que é para caber, mas sem se fazer notado, que é para não ser punido. Você não acha que isso explica essas centenas de milhas que nos separam um do outro? Essa distância que, não percebendo, impomos entre nós. Sinto-me sufocado. Estagnado, eu diria. E é por isso que estou indo embora. Não vou dizer que te amo, porque não amo, mas é exatamente esse amor que eu pretendo buscar partindo. Eu acredito que ele estará em nosso reencontro, quando teremos dado tempo a todas as feridas para que se transformem em cicatriz, e depois em cicatrizes desacompanhadas de lembranças. Eu só preciso que você entenda que preciso esquecer seu rosto, sua voz e todos estes anos, pois de outra forma não haverá um recomeço para nós. Eu preciso crescer e você também: a maturidade é minha última esperança. Por favor, entenda. É o meu coração que eu deixarei aqui. Agora eu vou embora, e tudo que te deixarei será este beijo. Nada mais. Por favor, receba-o e não diga palavra. Não tente argumentar, nem grite o meu nome quando eu estiver para fechar a porta, porque é exatamente isso que cada centímetro de mim estará desejando até que eu ouça o trinco fechando e até que eu comece a descer as escadas; você sabe, tão claramente quanto eu sei, que realizar este desejo só afastaria esse momento de nós e nos faria sangrar ainda mais até que pudéssemos chegar a ele novamente, em sua dolorosa inevitabilidade. Depois de todos esses anos, tudo que eu lhe peço agora é o seu silêncio, pois qualquer coisa diferente disso me tiraria toda força que me sustentou até agora. Adeus.
Ler maisImpasse
- Três – eu digo, com a voz mais grave e nítida quanto me é possível.
Ela não vai puxar o gatilho, essa puta, olhe para ela, mal pode deixar o cano da arma quieto em seu lugar. Ao menos eu tenho coragem por nós duas, dou os dois tiros: primeiro nela, depois em mim. Será que ela entende que se ela não puxar a droga do gatilho ela é a única que morre? E ainda morre uma pessoa injusta, como temeu a vida toda ser. Que irônico. Não está cansada, então, princesa? De toda essa hipocrisia, essa falta de atenção, de amor, desse mundo? Sujo, vão, muito mais cheio de feitos deploráveis do que louváveis. E escravo do petróleo, não nos esqueçamos. De gente imperfeita feito eu… e feito você, de certa forma. Esse mundo incongruente com a delicadeza do seu rosto e a perfeição dos seus traços; e com os seus cabelos loiros, também. Mas, principalmente, com as suas idéias e com as minhas.
- Dois – eu ecôo, tentando colocar tanta certeza em minha voz quanto ela tinha colocado na própria.
Eu vou morrer, nunca tive tanta certeza. O pacto está feito e acho até que meu vestido está um pouco sujo do meu sangue. E do dela. Ah, as frivolidades. Se vamos partir deste mundo e deixar para trás todas as suas convenções estúpidas, nada faz mais sentido do que partir dele segundo o que foi acertado em uma última convenção estúpida. E absurda, também, mas o mundo é mais. Eu sabia que ela era fria, e, céus, eu mesma sou fria, afinal nós estamos onde estamos e estamos como estamos, mas ela me excede. A voz dela não treme porque ela enxerga tudo como o cumprimento de um trato, um aperto de mão depois de fechado o negócio e assinados todos os acordos, mas dessa vez não é só. Minha nossa, nós vamos morrer. Estamos a um passo de descobrir que existe um Deus e sermos mandadas direto para o inferno, e ainda assim…
- Um – eu digo, impassível.
Tem um sorriso querendo escapar pelos meus lábios, mas eu não o deixo sair. Puxo a trava da arma e ergo uma única sobrancelha, dizendo: faça o mesmo, sim? E ela puxa tão rápido que mal posso acreditar, é quase como se as incertezas todas saíram correndo à menção do número um. Mas ainda assim eu vejo, bem ali, no canto do rosto angelical, um ensaio de cara feia. Como se ela contivesse dentro de si todo um rio de lágrimas a ponto de vencer as barragens construídas às pressas.
- Agora!
A minha própria arma fazendo um clique é a única coisa que eu ouço. É claro. O tambor gira maquinalmente e nenhuma explosão é ouvida. Nem da bala voando para a testa dela, nem do choro patético saltando de suas entranhas. De olhos arregalados e ainda assim fechados para a própria alma, que parece ter se ausentado por uns instantes, ela pisca duas vezes; o dedo sobre o gatilho continua pateticamente imóvel, como antes.
- O que… aconteceu? – eu me ouço dizer.
E não posso entender. A arma de alguma forma falhou e eu estou viva. Viva. Há uma onda voraz de formigamento se espalhando pelo meu corpo e essa é a melhor coisa que já me aconteceu. Deve ser uma espécie de injeção de alegria, porque tudo o que eu quero é rir e, espera, eu de fato estou rindo, e eu quero muito abraçá-la, beijá-la, e, ainda que eu veja seu rosto bem diante de mim, também quase posso ver o de minha mãe, a minha mãe na nossa cozinha, preparando emburrada o jantar que, ela tem certeza, ninguém vai elogiar, enquanto o sol se põe e não faz a menor diferença, já que ela já ligou todas as luzes. Mas dessa vez eu vou elogiá-la, vou voltar a ser para sempre a sua pequena menina. Ela vai ninar todos os meus anseios e a minha fúria desaparecerá. Mas, parando agora para prestar atenção, a única coisa que preenche os espaços retorcidos do porão é o meu próprio riso. Tão somente meu.
- Aconteceu que você não puxou o gatilho, querida! – eu explodo, como se estivesse ao mesmo tempo furiosa, desgostosa e surpresa. – Aconteceu que se eu não tivesse tido o cuidado de deixar vazio a porra do espaço da primeira bala, se eu não tivesse pensado em primeiro fazer um ensaio, seriam só os seus miolos espalhados pelo chão e os meus processando a imagem, seguramente organizados dentro do meu crânio. Não era bem esse o trato, era? Você ganha a morte tranqüila e eu ganho uma versão traumatizada da minha própria vida? Você reprovou no seu teste, meu bem, e só terá mais uma chance. Preste atenção.
É claro que é tudo um teatro. Eu quero chocá-la, quero aquecê-la, quero que você se dê conta da seriedade desses nossos últimos momentos para que os findemos como devemos findá-los.
- Eu… eu não quero mais – é tudo que eu consigo dizer. Olho para a arma prateada do meu pai pesando na minha mão e imediatamente repouso-a sobre o chão. Eu sinto muito, mas a única coisa que eu quero agora é a comida da minha mãe. E quero que ela brigue comigo por ter me atrasado de novo, mas só com o olhar.
Mas eu a vejo pegar a arma do chão enquanto morde nervosamente o lábio, como quem reúne forças para refrear todo um discurso que luta por liberdade, e entendo que não há outra saída. Ela estende o braço que segura a arma em minha direção. Pegue essa merda outra vez, é o que o corpo dela me diz. E não há argumento.
Já chegamos longe demais.
Eu abro a mão e recebo a arma de volta. Ela tem toda a razão. As palavras que ela não proferiu são as palavras mais sábias que eu jamais ouvi.
Ela vai morrer, como deseja, mas eu não.
Eu escolho a vida.
- Três – eu digo outra vez, saboreando o silêncio e o vazio de expressões emanando dela; admirando essa transformação incrível por que ela passou no espaço de alguns poucos segundos. O seu rosto até parece mais rústico, por um instante.
Sinto, pelo frio de seus olhos, que ela agora realmente entende a gravidade da situação. Ela vê onde é que estamos, e ela se lembra do ódio. Ela olha para mim e vê o que deveria ter visto desde o início: o capitalismo. O motivo que nos colocou aqui. Ela vai assassinar o próprio pai. Não a mim. O brilho nos seus olhos denuncia a decisão que ela só realmente fez neste exato momento. Ela não vai mais hesitar, pois ela já não é ela mesma. Eu sei.
- Dois – eu respondo, e a vejo sussurrando a palavra “dois” ao mesmo tempo que eu, mas de um jeito meio obstinado.
Eu destravo a arma.
- Quando você disser um, eu atiro. E… eu te amei. Você foi a única pessoa que eu amei.
- Eu também te amei. Obrigada por tudo – eu respondo enquanto destravo a arma, mas não sorrio. Um sorriso poderia ser a nossa perdição. Este é o nosso momento final, e a precisão não pode ser menos do que perfeita.
Eu tento aguçar os meus sentidos. Preciso ter certeza de que vou agir.
Silêncio.
Ela não diz.
- Eu digo, então, sim?
…
- Um.
Eu puxo o gatilho antes dela, mas não ouço explosão alguma. Então entendo: o espaço da primeira bala no tambor está vazio e eu me esquecera.
Eu puxo o gatilho e só depois me lembro: não havia bala alguma na agulha da arma dela.
Eu sinto como se tivesse sido atropelada e então já não sinto nada tudo escurece devagar e apesar de que eu não veja apesar de que eu nem propriamente sinta eu sei que caio para trás e eu sei que esse tempo que eu levo caindo não é de mais de um segundo mas o que está acontecendo eu posso jurar que a gravidade está demorando horas para me colocar no chão velho e poeirento desse lugar poeirento e velho oh eu sinto a poeira eu atirei mas não houve tiro como é que eu esqueci que eu não tinha balas e eu só queria abraçar a minha mãe e eu queria ser sua menininha e o problema é que estou tão atrasada para o jantar…
Eu fico em pé em um pulo, e as minhas duas mãos pulam para a minha boca, contendo o meu grito. O sangue inunda o seu rosto desfigurado e eu entendo que a Beleza se foi pois não pôde suportar tamanho horror. Fico então em silêncio, e sinto lágrimas molhando os espaços entre os meus dedos. A arma está jogada no chão, eu acho. Em algum lugar. Nós nos esquecemos! Eu me ajoelho. Nós nos esquecemos! Você puxou o gatilho, mas… eu também puxei. Eu atirei e eu fui a única. Me desculpe, por favor, me desculpe, eu… eu continuo aqui.
Meu Deus, eu continuo aqui.
Ler maisPergunta
Nada o deixara mais perplexo do que aquela frase, dita com tanta brevidade e tão naturalmente quanto alguém constataria que o céu, na maior parte do tempo, era azul.
Via-se em seus grandes olhos pretos, completamente perdidos no console do carro, que havia uma coisa acontecendo ali por trás deles que tomava tanto a sua atenção que não havia nada palpável que ele estivesse observando. A mãe do garoto avaliou se devia perguntar o que era aquilo em que ele pensava tão obstinadamente ou se devia esperar sua imaginação infantil fluir o quanto queria. E o quanto precisava. Havia um sorriso no canto dos lábios dela, um sorriso que caíra ali enquanto ela se pegava imaginando o que é que ele estaria maquinando, e, nisso, lembrando-se, enquanto alternava sua atenção entre a rua urbana e o filho pensativo, de como era ser criança, e ter essa selva de conjecturas existindo tão vivamente dentro de sua própria cabeça; de como ela tinha sido capaz, por exemplo, de projetar os mais belos cenários nas paredes da casa tão simples e, dir-se-ia, tão sem vida, e do quintal tão vazio quanto aquele que tinham quando ela era mais ou menos da idade que o filho tinha agora. Mas ao mesmo tempo sabia que o que quer que estivesse na frente dos olhos dele agora não era nada leviano, nada próximo de um palco, de um circo ou de um laboratório mirabolante. Primeiro porque, bem, era a cabeça dele funcionando, e ela estava convencida de que não era uma mente ordinária, a que ele nutria: desde muito cedo ele já provava que não. Segundo, por causa do jeito com que ele franzia o cenho e entortava a boca, tão alheio e indiferente à sua própria existência que mais parecia um pensador antigo enclausurado num corpinho minúsculo do que um corpinho minúsculo ensaiando a posição de um pensador. Mordiscou o lábio inferior e arriscou chamar sua atenção.
- Filhote?
E então, abandonando os seus pensamentos como se fossem um estranho com quem ele não tivera passado mais do que um minuto e de quem já não tinha exatamente gostado desde o primeiro segundo, ele atendeu:
- Oi.
- Em que você tanto pensa?
Ele sorriu, e então ela soube que estava certa ao apostar que era algo maior do que ele, aquilo em que ele estivera pensando. É que ele tinha essa coisa de não parar de sorrir antes de falar de uma coisa assim, como se soubesse que iria impressioná-la e já risse de sua cara de espanto antes mesmo que ela a fizesse.
- É que eu tava pensando naquele negócio que você me disse ontem – ele respondeu, sustentando o semblante divertido, ao mesmo tempo que lutava para fazê-lo desaparecer.
- Que negócio? – ela se esforçou para não sorrir junto, porque estava achando engraçado imaginar que o garoto sorria da cara de espanto que ela sem dúvida faria alguns poucos segundos depois.
- Sobre vida depois da morte – enfim ficou sério, e então parou por um instante, como se se preparasse para o peso das próximas palavras que diria. Respirou devagar, e prosseguiu. – Mãe, se a gente vive depois que morre, como é que a gente sabe se não tá morto?
E lá estava. O pensamento maior do que o pequeno garoto. E ao mesmo tempo do mesmo tamanho. A expressão sumiu de seu rosto, e a visão do rosto do filho foi trocada pela visão do trânsito no mesmo instante. Fixou os olhos na placa do carro da frente – JMN 4172 – e sentiu o queixo caindo, enquanto pensava na pergunta do menino. Deixou de sentir o pedal do carro. Pareceu, por um instante, que tinha sido privada de todas as sensações. A pergunta a deixara sem chão. Ela não sabia aquele porquê que ele desejava obter dela – ou que talvez soubesse que ela não detinha, e que só tinha instigado pelo prazer de compartilhar o pensamento -, e, de algum jeito, já naquele momento teve certeza de que jamais saberia, que jamais seria capaz de responder àquela pergunta com convicção. Acho que ela teve um pouco de medo, também. Quando notou, tinha no rosto a mesma expressão que o filho tivera antes. Achou até que sentia o que ele havia sentido. O desnorteamento. Enquanto olhava em volta maquinalmente para ultrapassar JMN 4172 com segurança, imaginou, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, se ela já não estaria morta, realmente. Sentiu-se pequena, e se sentiu traída. Perguntava-se apenas pela primeira vez aquilo que voltaria a se perguntar ainda muitas e muitas vezes, durante os anos que viriam: e se eu estiver morta? E se eu estiver morta? Tudo pareceu perder o sentido e, misteriosamente, a ganhar muito mais sentido também. Pensou a um só tempo numa escuridão infinita, em Deus e em círculos. Não tinha certeza se realmente acreditava naquela possibilidade, porque aquele mundo em que o filho estava certo parecia mais escuro, e terrivelmente menos real. Mas também parecia certo.
A escola surgiu na janela à sua esquerda, e ela se ouviu desejar uma boa aula ao filho, e receitar-lhe cuidado para abrir a porta, e se viu beijando-lhe a bochecha. Ele saiu, a mochila nas costas e a lancheira na mão, deu a volta pela frente do carro e foi caminhando até o portão. E ela ficou muitos minutos ali, sentada; o carro estacionado vibrando baixo, o ar frio sibilando enquanto saía dos tubos de refrigeração, e o seu pensamento flutuando em algum lugar muito, muito distante dali.
Deixou-se voar.
Ler maisFim de tarde
Eles se olham, trocam palavras descuidadas, quase sempre soltas. Ainda que conversem honestamente, trocando novidades e idéias, também sabem muito secretamente que é tudo um prelúdio à causa que realmente os colocou sozinhos aqui. Eles riem, ora alto, ora baixo, e usam esses momentos como escusas. Chegam mais perto. Vão diminuindo o tom. Apreciam o silêncio, e depois o trocam. Por uma razão ou outra se tocam, mas nunca por tempo demais. Enquanto isso, se percebem, se perscrutam, ao mesmo tempo que fingem ser apenas sujeitos, nunca objetos. São reflexivos, mas sutis. Quando não resta mais o que fazer, ficam abraçados, protegem-se do frio ou da falta de alguma coisa qualquer. Alimentam-se de suas companhias. Acham suficiência neste único ato e dispensam todas as palavras. Se fazem duas partes unidas e percebem que o todo não se completa. Então se olham. Se aproximam, e aqui nos deixam, então e enfim, a evidência mais precisa da impossibilidade deste romance, que mutuamente desconhecem: este beijo. Este beijo e estes pensamentos que nenhum deles diz e que jamais acham portas por onde escapar. Enquanto um silenciosamente promete a si que este será o último, o outro fervorosamente pede que aquilo se repita para todo o sempre, e ambos ao mesmo tempo se abraçam e ao mesmo tempo se guiam numa mesma dança, bem conhecida, rodeados por um amor que de tão clandestino quase não é amor. É vício.
Ler maisNeste pequeno quarto
Absurdo que um quarto assim tão grande possa parecer tão opressivo e claustrofóbico dessa maneira. Inacreditável que possa haver tantos significados em tal profundo silêncio, em tal ausência de palavras (ditas ou pensadas). Tanta densidade em tão pouca matéria. Os sentimentos se tornam coisas concretas, quase pensantes em si, flutuam por conta própria, e eu me torno um pára-raio, ou quem sabe eu só seja humano. Eu sinto que termino em cada aresta que te define mas ainda assim não me conjugo, e acho que nos fizemos grandiosos demais por uma causa demasiado fútil, bem menos extraordinária do que pensáramos. Talvez até mesmo mundana. Nós colidimos e, de tão opostos, fizemos cair uma tempestade. Essa tensão toda é apenas parte do vendaval.
Se pudéssemos apenas voltar ao que éramos antes, quando os nossos egos não estavam assim inflamados dessa doença de pós-amor, talvez pudéssemos consertar o tamanho desse quarto, e caberíamos os dois no mesmo mundo como se fôssemos sol e pássaro, calmaria. Quem sabe se nós nos abraçássemos, preencheríamos esse lugar de sons, e então o silêncio daria lugar não a uma perturbação, mas ao equilíbrio. Seríamos duas pessoas num quarto se amando, e nada mais que isso. Sol e pássaro. Ordinários como o dia que vem após outro, e descomplicados.
Ler maisAnoitece
Então o tempo anoiteceu e entrou escuro pela janela, inundando o quarto na completa certeza do mais profundo negrume. As arestas da pequena cama desapareceram por completo no meio da densidade das sombras. As cores suas e as do quarto de criança desbotaram e se perderam. E ele, ainda parando à porta, espantou-se com a textura da noite ali como se fosse a primeira vez que a provasse. Podia-se ficar realmente vazio ali, não se podia? E não é senão o espaço desprovido de luz, o aparente vazio, aquele que costuma ser o palco mais propício ao teatro da mente? Não era de se espantar, afinal de contas, que quando menino ele ficasse à janela procurando por sinais de vaga-lumes. E não é como se ele se lembrasse, mas é que ele ainda hoje ouvia, de vez em quando, que tinha sido uma criança imaginativa. E isso o levava a pensar que quando os insetos luminosos dançavam diante de seus olhinhos inocentes em piruetas irregulares, era provável que, análogo ao modo com que nisso remexiam o ar como fazendo cócegas em sua onipresença, também afastassem, com suas pequenas centelhas, quaisquer figuras e personagens que pudessem porventura vagar em algum lugar no interstício de suas retinas e o fundo de sua cabeça, onde a dança é de vultos repletos de significados abstratos e nunca únicos. E muitas vezes terríveis, também.
De repente se viu debruçado na janela, o único lugar daquela velha casa que ainda aparecia com clareza em suas lembranças. Agora mirava o jardim lá fora, quase que todo afogado na escuridão, não fosse por um retângulo amarelado da luz que escapava da janela da sala de estar lá embaixo. Já não havia mais vaga-lumes para se ver ou se contar, era verdade. Para onde será que eles tinham se mudado, hein? E então, quando levantou os olhos, espantou-se com o céu como se fosse a primeira vez que o visse. E, enganado por sua memória que tinha um gosto por esquecer-se de imagens vistas há tempo demais, ele inocentemente acreditou que talvez fosse a primeira vez mesmo. Era tão diferente. A infindável abóboda lá no alto, ele viu, era uma explosão de cores, o que fez com que ele se questionasse se não tivera sempre aquela certeza de que estrelas sempre tinham sido brancas. Bem, se antes tivessem sido, agora claramente não eram mais. Via luzes vermelhas e azuis cintilando em seus pequenos pontos do céu, e essas eram apenas alguns exemplos.
Baixou os olhos para a linha do horizonte, mas não viu linha alguma. Os morros que guarneciam o prado tinham sumido no escuro, tendo se misturado com o próprio céu. Até as árvores do bosque ali próximo à sede ficavam debaixo do frágil espectro azulado que os reflexos do sol na lua minguante produziam. Ficavam ambíguas. As nuances o fizeram pensar no espaço daquele pequeno rasgo de tempo como uma substância vaporosa que pairava na existência sem um formato definido ou mesmo uma cor muito certa. E então, quando ele olhou mais uma vez, tudo se transformou em céu. Precisamente aí, sentiu-se leve, tão leve, que foi como se tivesse flutuado até a cama, de onde tirou lindos e silenciosos sonhos sobre cometas viajando devagar, talvez no ritmo de sua própria respiração, num espaço sideral tingido de vermelho, alaranjado, branco e azul.
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